Scholar, em português
António Fidalgo
(artigo publicado no Notícias da Covilhã em 22
de Janeiro de 1993)
De entre as palavras estrangeiras
difíceis de traduzir uma é a inglesa "scholar". E, no entanto, de um
ponto de vista etimológico, não tem muito que se lhe diga: provém do latim
"schola", tal como o nosso vocábulo "escola". "Scholar"
teria o seu equivalente português em escolar, aquele que frequenta a escola ou
que tem a ver com ela. A dificuldade não está na etimologia, não; o problema
está na semântica. O significado de "scholar" é o de um Homem - com
letra maiúscula que tanto inclui homem como mulher - que dedicou a sua vida ao
estudo e à escola. Dedicação que é uma espécie de sacerdócio moral e
intelectual, como muito bem viu Raul Proença. É justamente esta dimensão
semântica do termo, a de um sacerdócio moral e intelectual, que qualquer tradução
portuguesa deixa na sombra. Raul Proença optou pela tradução de
"letrado", mas é evidente que só forçadamente descortinamos neste
termo a riqueza espiritual que o termo inglês encerra.
Não é que em Portugal tenham faltado ou
faltem verdadeiros "scholars". Seria tão fácil citar nomes, quanto
injusto citar apenas esses. Num quotidiano de docência, feito de aulas e de
exames, muitos há em Portugal que estudam e se tornam sábios, mas sem
espalhafato, proveito ou fama. Não correm a foguetes, não procuram a ribalta,
nem ambicionam cargos directivos ou de gestão. Compreenderam que para bem
ensinar, muito têm a aprender. Casaram-se com a escola, votaram-se ao
crescimento intelectual e moral dos seus alunos. Sabem que o ensino é uma
exigência, são exigentes com os alunos, não os apaparicam, não os entretêm nas
aulas com conversa fiada ou passes de magia. Mas de uma exigência que nasce da
exigência a si próprios. Só se dá o pão que se ganhou e o saber é um pão que se
obtém com o suor do espírito.
Não se confunda "scholar" com
intelectual. Este pode não estar ligado à escola e muitas vezes não está. O
intelectual, tal como hoje o entendemos, caracteriza-se pela sua intervenção
crítica, com certeza também pedagógica, no tecido social e político. O
intelectual expõe-se mais. Nos jornais, no cinema, no teatro, procura intervir
na formação cultural e espiritual de todo um povo. O "scholar" tem
uma acção mais apagada, o seu meio circunscreve-se à escola. A sua influência
não é tão vasta como a do intelectual, mas é certamente mais profunda.
Simples por natureza, não fosse ele
eterno aprendiz, o "scholar" reveste-se da dignidade própria à
investigação e ao magistério. O bem ensinar é uma arte que se aprende
penosamente ao longo de anos, que não se obtêm em cursos rápidos, sejam eles
pedagógicos ou científicos. A dedicação à escola não se ganha com créditos nem
com subsídios.
Como traduzir então "scholar"?
Apesar de hoje impossível, talvez a palavra mais indicada fosse a de
"escolástico", lembrando aqueles frades que na Idade Média se
dedicaram de corpo e alma às universidades, acreditando que nas verdades do
conhecimento brilhava a Verdade de Deus.