Professores e alunos
António Fidalgo
(artigo publicado no Notícias da Covilhã em 5 de Março de 1993)
Não há professor
que não se queixe dos alunos. Queixam-se os professores do ensino básico, os do
secundário e os do superior. Os alunos não têm motivação alguma, andam na
escola por andar e vêm sempre mal preparados do grau anterior de ensino. Em
resumo, os alunos hoje não sabem nada. A par destas lamentações surgem as
recordações dos outros tempos. Ah, a quarta classe dos tempos de Salazar em que
se sabiam os afluentes das margens direita e esquerda do Douro, Tejo e
Guadiana! E o que não eram aqueles quintos e sétimos anos de liceu com exames a
doer, em que os chumbos eram mais que muitos! E a universidade era uma coisa
muito séria que só havia em Coimbra e Lisboa. Outros tempos, enfim, em que quem
não sabia não passava e em que até um diploma de segundo ano já dava para
arranjar um emprego bem jeitoso numa repartição qualquer. Mas as queixas dos
professores são tão antigas. Já na Grécia, há mais de dois mil anos, os
professores se queixavam dos alunos, e na Idade Média, com o início das universidades,
lamentavam-se os professores que os estudantes só queriam farras. Na relação de
professores e alunos o mundo não mudou tanto como perece. Os alunos de hoje,
professores de amanhã, queixar-se-ão, por sua vez dos estudantes que não
estudam nada, ao contrário deles que se fartavam de estudar.
Os alunos não são tão bons como os de uma geração atrás? Há que não generalizar. Tal como ontem, também hoje há alunos bons e maus. Mas agora há muitos mais que são maus? É possível, mas antigamente eram poucos os que estudavam e muitos os que se ficavam pela quarta classe. A qualidade perdeu-se na quantidade? Bom, vejamos, a qualidade dos qualificados só tem a ganhar com a qualificação, mesmo que pouca, da quantidade. Quer isto então dizer que as queixas dos professores acerca dos alunos não têm razão de ser? Mais uma vez não generalizemos, façamos distinções. Sem dúvida que o ensino ao democratizar-se também se trivializou. E isso tem, é bem de ver, desvantagens. Antigamente, o ensino era um privilégio e isso marcava a conduta dos que o frequentavam. Agora é algo de adquirido à partida e, como tal, um bem a que não se dá o devido valor. Por outro lado, o ensino nivelou-se pela base quando se tornou unificado. Os riscos da mediocridade geral aumentaram. Mas disso se escreverá na próxima semana. Para terminar. Queixas? São saudáveis desde que não descambem em queixinhas.