Da miséria das notas
de ingresso na Universidade e de outras misérias também muito perniciosas ao
funcionamento e ao bom nome da instituição académica
António Fidalgo
(artigo publicado na Revista Beira Interior da AAUBI em Outubro de
1994)
Primeira Miséria: Entra-se na
universidade com média de quatro! Toda a gente sabe que o dez representa na
tradição escolar portuguesa o patamar mínimo de conhecimentos para alguém poder
prosseguir os estudos. Isso é válido para os níveis básicos e secundários do
ensino, mas só não é válido para o ingresso no ensino superior! Há até quem
entre em cursos de física ou de engenharia com zero a matemática!
Trata-se obviamente de entrar a todo o
custo na universidade. Depois de se entrar logo se ver . Pede-se
transferência par outros cursos, para onde originalmente se desejaria entrar,
mas onde as médias de ingresso são mais altas (sete ... oito?!), pede-se uma
bolsa de estudos aos Serviços Sociais, vai-se às frequências na expectativa de
acertar nas respostas certas como se fosse no totoloto, etc.. Em vez de se
entrar na universidade para adquirir a adequada formação humana, cultural,
científica e tecnológica, entra-se na universidade para se ir vivendo. Neste
caso, temos a universidade como asilo de jovens. É efectivamente uma miséria.
Segunda Miséria: Estuda-se pouco. Assim
mesmo, dito de forma curta e grossa. Por vezes até parece que certos alunos
estão convencidos que basta estarem matriculados para irem fazendo o curso.
Como não custou muito a entrar, também não ser difícil continuar.
Sejamos ainda mais explícitos quanto à
miséria que é o pouco ou nenhum estudo. Não é de admirar que quem entra com
média de quatro na universidade nem saiba o que é isso de estudar. Pois bem,
estudar é antes de mais marrar. Exactamente, marrar nos livros. E isto tem várias
fases. Pegar no livro – e há quem não
pegue num livro! –, abri-lo – e há livros que nunca são abertos! – e
lê-los linha a linha, procurando entender as frases uma a uma. Quando se
encontra uma palavra que não se conhece, há que pegar no dicionário e ver o que
significa. É claro que não se lê um livro de estudo como quem lê os jornais A Bola ou o Record. Há que ler devagar e com vagar, há que tirar
apontamentos, há que fixar as dúvidas e elaborar as questões para pôr ao
professor nas aulas.
Aqui chegamos a outro ponto. Para estudar
é necessário tempo. Tempo, por exemplo, para ir às aulas. O tempo não é
elástico. Ou se fica na cama ou se vai à aula das oito da manhã. Pessoalmente
considero que o maior segredo de sucesso num curso universitário está na
assiduidade às aulas. Tempo para ir para a biblioteca marrar. Tempo para ir
para o quarto estudar. Obviamente que quem quer boa vida, festas e farras, não
tem tempo para estudar.
Quanto a isto os famosos fins de semana
completam a miséria. Pois é, os alunos vão para fim de semana! Autocarros e
comboios partem cheios ao fim de semana. Mas é óbvio que na universidade não
pode haver fins de semana. Há que ficar aqui a estudar, exactamente, a marrar
nos livros. (Como é que a AAUBI como legítima representante dos verdadeiros
interesses dos alunos não reivindica a abertura da Biblioteca ao fim de
semana?) E a miséria então é que fica de cogulo quando um feriado transforma
toda a semana em fim de semana.
Terceira Miséria: O anonimato entre
professores e alunos. Os professores não conhecem os alunos e estes não
conhecem o professor. Só culpas do sistema que origina turmas monstruosas? O
sistema tem as costas muito largas. O primeiro objectivo da universidade é –
di-lo a Lei! – a formação humana, cultural, científica e tecnológica. Mas para
isso as pessoas envolvidas, professores e alunos, têm de se conhecer. A tarefa
do professor é formar alunos, ensinar pessoas; não é despejar matéria
científica. Que sentido tem dar a matéria ou cumprir o programa se não há a
mínima preocupação de verificar se o que se pretende ensinar é ou não assimilado?
Muitos alunos nem sabem o nome do
professor. A referência é feita com base na função: o professor de análise, o
professor de métodos, etc. Depois nunca foram falar com ele, nem sequer lhe
puseram alguma vez uma dúvida na aula. Assim é escusado. Anónimos a ensinar
anónimos é coisa nunca vista. Não há universidade que aguente tanta
miséria.
Quarta Miséria (e por hoje última): os
salários dos professores. Nos últimos anos, tem havido uma enorme degradação na
situação salarial dos professores universitários. Estão aí os números para
mostrarem isso preto no branco. De há cinco anos para cá, isto é, de 1989 para
1994, a carreira diplomática teve aumentos salariais de 184%, o ensino
secundário de 141%, a tropa de 126% e os docentes universitários de 62%. Na
magistratura – carreira à qual a carreira universitária estava equiparada em
1989 –, começa-se hoje com um salário de 355 contos, um assistente estagiário
na universidade ganha 125 contos.
Seria suposto os assistentes
universitários serem recrutados entre os melhores alunos. Pois é, seria
suposto, mas não é esse o caso. Abrem-se os concursos para a carreira académica
e os bons não concorrem. Ganham mais em outros lados, e depois não são
obrigados periodicamente a prestar provas como acontece na universidade.
Hoje temos o caso, talvez único no mundo,
de docentes universitários passarem para a docência no ensino secundário. Pode
esta também não ser muito bem paga, mas é com certeza muito mais segura. O
docente universitário só passa ao quadro, isto é, só fica efectivo, ao nível de
professor associado. Para lá chegar tem de fazer o mestrado, o
doutoramento, e depois concorrer ao lugar. Com muito trabalho e alguma sorte
chega lá aos quarenta anos. Se entretanto não faz as provas a seu devido tempo
– o mestrado em quatro anos e o doutoramento em seis – vai pura e simplesmente
para o desemprego e isto numa fase da vida em que já tem mulher e filhos para
governar.
Professores universitários há que aumentam o ordenado leccionando
em outras universidades. Alguns transformaram-se em máquinas de dar aulas. Tal
situação ocorre sobretudo nos grandes centros, em Lisboa e no Porto, onde
existem as nóveis e prósperas universidades privadas. Trata-se de uma situação
que não dignifica os professores nem as universidades. Mas quem mais perde são
os alunos. E tudo isto é também uma miséria.