O latim ganho

António Fidalgo

 

(Artigo publicado no Jornal do Fundão em 16 de Outubro de 1997)

 

Iniciou-se neste ano lectivo de 97/98 o Curso de Licenciatura em Língua e Cultura Portuguesas na Universidade da Beira Interior. Iniciou-se sem alvoroço e iniciou-se bem. Não houve falta de candidatos, a média de entrada foi muito razoável e de todos os cursos da UBI o Curso de Português é o que tem maior número de alunos em primeira escolha, isto é, de alunos que escolheram o Curso de Língua e Cultura Portuguesas na UBI como primeira opção na sua candidatura ao ensino superior público.

As disciplinas do primeiro semestre do primeiro ano são cinco: Introdução aos Estudos Linguísticos I, Semiologia do Texto, Introdução aos Estudos Literários, Língua Estrangeira I (Inglês ou Francês) e Latim I. E é exactamente do latim que me proponho falar. O curso integra 4 disciplinas semestrais de latim, do Latim I ao Latim IV, leccionadas logo nos dois primeiros anos. Porquê o estudo de uma língua morta e qual o seu significado no ensino universitário da Beira Interior? Porquê estudar latim hoje?

A inclusão de disciplinas de latim num currículo universitário de um curso de português é pacífica. O português é uma língua latina, a sua origem é o latim, e o conhecimento do latim é condição sine qua non para o conhecimento aprofundado do português. Tão simples quanto isto. Incompreensível é haver cursos superiores de português sem disciplinas de latim. As razões do estudo do latim são, deste modo, razões filológicas, científicas.

Mas o estudo do latim tem seguramente um significado muito mais vasto. Para além das razões científicas existem as razões culturais. Numa época em que os licenciados de muitas e diversas – e por vezes estranhas! – licenciaturas abundam, abundam os licenciados supinamente incultos. Não significa isto que sejam burros, longe disso; alguns até obtiveram altas classificações nos seus cursos! O que se passa, porém, é que a sua formação foi muito terra-a-terra, virada para o estudo disto ou daquilo e nada mais. Hoje deparamos com licenciados que ignoram história, literatura, geografia, arte, e demais saberes que de nada servem para o exercício imediato da profissão. Ora é justamente em tempos de licenciados imbuídos de cultura pimba que faz falta o latim.

O latim é factor e sinal de uma cultura superior. As comédias de Plauto e Terêncio, a retórica de Cícero, a história de César, Salústio e Tito Lívio, a poesia de Virgílio, Horácio e Ovídio, a filosofia de Séneca e de Sto Agostinho, as obras dos medievais e da Renascença, são marcos cruciais da nossa civilização. Desconhecer tais marcos é ignorar o norte da cultura em que vivemos, das razões e dos valores por que nos regemos.

No latim estão as nossas raízes. Não só linguísticas como culturais. É que a língua, a nossa língua, encarna a forma como vemos e entendemos o mundo e vivemos a vida.

É por tudo isto, e por muito mais que se poderia dizer, que o estudo do latim hic et nunc, na Universidade da Beira Interior em 1997, representa um querer e uma aposta fortes na ciência e na cultura no interior de Portugal.