(Artigo publicado no Jornal
do Fundão em 27 de Março de 1998)
João Lobo Antunes, médico, neurocirurgião,
catedrático de medicina da Universidade de Lisboa, é uma figura conhecida em
Portugal, sobretudo depois de, há dois anos, ter ganho o Prémio Pessoa. Em 1996
publicou um livro de ensaios, Um Modo de Ser, que foi um extraordinário
êxito editorial. O segundo desses ensaios intitula-se “O hospital
universitário”. Leitura recomendada para todos os que opinam sobre a
localização da nova Faculdade de Medicina que o Conselho de Ministros decidiu
criar no Interior de Portugal.
Pelo ensaio de Lobo Antunes perpassa muito
claramente a ideia de que o ensino da medicina não é um mero ensino
profissionalizante. Aliás todo o livro de Lobo Antunes é uma apologia da
ciência e da cultura no ensino e no exercício da medicina. Ensaios como “O
Ensino da Ética”, “Sobre o erro”, “Sobre a alma”, “Relendo a Morte de Ivan
Iliitch” e os seis últimos ensaios sobre figuras eminentes de professores da
medicina em Portugal, Almeida Lima, Miller Guerra, Egas Moniz, Reynaldo dos
Santos, mostram bem como a formação médica pressupõe forte formação científica
e humanístico-cultural. Lobo Antunes lamenta justamente a “desacademização
progressiva dos hospitais universitários”. Uma Faculdade de Medicina tem de ter
ambiente universitário, não pode viver desgarrada das outras escolas e
vivências académicas.
Tal como um curso de engenharia pressupõe
bons departamentos de matemática e física, assim também um curso de medicina
tem de recorrer a departamentos e a laboratórios de biologia e química. As
ciências aplicadas, como a medicina, precisam das ciências básicas, daquelas
que, à primeira vista, não têm qualquer utilidade prática. Cito Lobo Antunes:
“Não há dúvida de que a medicina moderna depende cada vez mais de uma relação
estreita e fecunda com as ciências básicas e não é possível conceber um
hospital universitário que não tenha ao seu dispor laboratórios de biologia
molecular, biofísica, genética ou informática, para só citar alguns.”
Mas também é claro que um hospital
universitário é antes de mais um hospital, local de diagnóstico e de terapia,
de prestação de serviços de saúde a uma comunidade. Não há hospital sem
doentes. O hospital universitário não é um laboratório de aprendizagem,
afastado das carências reais e concretas das pessoas. “A necessidade de se
aproximar mais dos seus clientes e da comunidade que estes integram afasta a
escola médica do campus universitário e das instituições suas irmãs, com
consequente privação intelectual e científica”, escreve Lobo Antunes. Daí que
no modus operandi de um hospital universitário haja a tarefa de fazer o
justo equilíbrio entre universidade e hospital, entre uma formação
eminentemente científica e cultural e uma efectiva prestação de “cuidados de
saúde do mais alto nível técnico”.
Que a Beira Interior precisa de um hospital
onde tenha possibilidade de usufruir de serviços de saúde de ponta, disso não
há dúvida. Se quisermos que Portugal não se transforme numa magra faixa de
território do litoral, é preciso que as populações do interior usufruam dos
melhores cuidados de saúde. Mas, por outro lado, necessário se torna que a
Faculdade de Medicina disponha do ambiente científico e cultural adequado.