A Covilhã, de cidade industrial a cidade universitária

António Fidalgo

(Artigo publicado no Jornal do Fundão em 7 Julho de 1995)

 

A criação do Pólo IV da Universidade da Beira Interior na Ribeira da Carpinteira, ou seja, a conversão da antiga fábrica Ernesto Cruz em instalações da UBI, é motivo para tecer algumas considerações sobre a relação entre a UBI e a Covilhã. Prevê-se, com efeito, que em Setembro de 1996 a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UBI se transfira do actual edifício junto à ribeira da Goldra para as novas instalações do outro lado da cidade. Ora isto significa que cerca de um terço dos estudantes da UBI, à volta de 1500 alunos, mais docentes e funcionários, vão passar a fazer aí o seu dia a dia académico. Tal facto vai ter inevitavelmente fortes repercussões tanto na cidade da Covilhã como na Universidade da Beira Interior. Neste primeiro artigo pretendo abordar as consequências da criação do Pólo da Carpinteira para a cidade.

A crise da indústria têxtil e o nascimento da universidade

A Covilhã ergue-se "na ilharga da serra, a cavaleiro de um grandioso e oblíquo enrugamento, escavado de um lado pela ribeira da Carpinteira e do outro pela ribeira de Goldra" (nas palavras do Guia de Portugal). As duas ribeiras delimitam não só geograficamente a cidade, como a determinaram como cidade industrial, fornecendo a água e a energia às fábricas de lanifícios que se situaram nos vales sulcados por elas de um e outro lado da cidade. Nas últimas décadas essas fábricas têm vindo a fechar-se sucessivamente, com graves consequências sociais, económicas e patrimoniais. As empresas têxteis de maior sucesso e mais significativas já não se encontram nas margens das duas ribeiras, mas sim em baixo na planície. Lá em cima ficaram a cidade, as gentes e também as muitas ruínas industriais. A criação e o desenvolvimento do ensino superior na Covilhã dá-se na razão inversa da crise da indústria têxtil. Não fosse a Universidade, a Covilhã estaria hoje numa situação sócio-económica aflitiva, com um ainda mais alto índice de desemprego raiando o nível da miséria social. A Covilhã teria conhecido situações similares às da península de Setúbal e às do Vale do Ave. A Universidade surgiu como a tábua de salvação. Não haja dúvidas de que foi a grave crise industrial da Covilhã que obrigou o Governo Central a investir em força na universidade local. Cabe, aliás, dizer aqui que as funções que hoje as universidades desempenham são muitas e diversas, não se restringem de modo algum às tarefas tradicionais de ensino e investigação. As universidades cumprem também outros objectivos, entre os quais se salientam os de políticas de desenvolvimento regional. A difusão em Portugal de universidades públicas pela província seria difícil de explicar como uma medida de incentivo à investigação científica nacional. Os elevados custos que a criação dessas novas universidades implica só se justificam à luz de critérios de desenvolvimento regional. As universidades do interior do país têm sobretudo como função servir de pólos de dinamização socio-económica, fixando populações, dotando essas regiões de mão de obra qualificada e prestando serviços especializados à comunidade. A Universidade da Beira Interior fixou-se junto à Ribeira de Goldra, a partir da Real Fábrica dos Panos do Marquês de Pombal. Aí, no Pólo I, a Universidade tem-se expandido, realizando um notável trabalho urbanístico de recuperação do património industrial covilhanense. A opção de aproveitar edifícios fabris e reconvertê-los para instalações académicas não foi isenta de críticas, como sejam os elevados custos dessa reconversão, certamente superiores aos custos de construção de raiz na planície, e os condicionalismos dessa opção, de que é um exemplo a terrível falta de lugares de estacionamento junto à Universidade. Contudo, ninguém duvida que essa opção foi a melhor maneira de valorizar o património histórico de uma cidade tradicionalmente industrial e de, simultaneamente, personalizar através da arquitectura típica da cidade e da utilização do granito regional os próprios edifícios da academia. Neste campo a UBI distingue-se excelentemente do betão cinzentão e despersonalizado da quase totalidade dos novos estabelecimentos do ensino superior público.

De cidade industrial a cidade universitária

A Covilhã decididamente ainda não é uma cidade universitária. Obviamente que entendo por cidade universitária algo mais do que uma cidade com uma universidade. Por cidade universitária entendo uma cidade com uma cultura e uma forma de vida cunhadas pelo espírito universitário. Diga-se que para isso são necessários muitos anos, se não mesmo gerações. A universidade não entrou ainda na alma da cidade. À frente voltarei a este tema. A Covilhã tem visto na UBI sobretudo uma empresa próspera, em crescimento, criadora de emprego, suportada pelo orçamento estatal e, portanto, sem risco de falência. Com um orçamento de quatro milhões e quatrocentos mil contos em 1995, a UBI é certamente uma instituição com um enorme poder económico na cidade. A acrescer a essas verbas, há a considerar o impacto financeiro que 4.000 alunos têm na cidade, impacto que alguns cifram em cerca de dois milhões de contos. Mas esta perspectiva extremamente economicista -- por vezes veiculada pela própria universidade!! -- é muito redutora do papel da universidade face à cidade. Ver a universidade através de cifrões pode levar à idolatria de um estranho bezerro de oiro, que é o de encará-la como um híbrido de vaca sagrada e de galinha de ovos de oiro. Para a visão da UBI como uma empresa tem contribuido sem dúvida a sua situação muito localizada numa das pontas da cidade. As pessoas deslocam-se lá para trabalhar e à noite e aos fins de semana o espaço universitário transforma-se num deserto. Geograficamente a universidade constitui como que um mundo independente dentro da Covilhã. Se os edifícos universitários se encontrassem espalhados por toda a cidade, a osmose entre a academia e a cidade teria sido maior e a Covilhã respiraria um espírito mais universitário. No entanto, dever-se-á ter em conta que a concentração actual talvez fosse imprescindível ao crescimento inicial da universidade. É necessário que a pequena planta ganhe força no alfobre para depois poder ser transplantada. Com a transferência da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas para a antiga Fábrica Ernesto Cruz, junto à Ribeira da Carpinteira, e com a criação da Faculdade de Artes e Letras também nesse local, é todo este cenário que muda. Em vez da UBI se encontrar confinada a uma ponta da cidade, é a bem dizer toda a cidade que fica delimitada pela universidade. São perto de 2000 pessoas que se vão transferir para o outro lado da cidade da Covilhã! E a universidade vai ser a mesma. Quer isto dizer que entre os dois pólos, e o mesmo é dizer entre as duas ribeiras, passa a haver um movimento académico -- de pessoas, bens e serviços -- que mudará a alma da Covilhã. Ademais, entre esses dois pólos situa-se, no núcleo mais antigo da cidade, não longe da Igreja de Santa Maria, a sede da Associação de Estudantes, a inaugurar brevemente. Será esta disposição dos pólos universitários junto às ribeiras primordiais da cidade e o movimento gerado entre esses pólos que mudará a face da Covilhã, transformando-a pouco a pouco de cidade ainda de cariz industrial em cidade universitária. Os traços de uma cidade universitária Apesar de terem o maior número de universidades e de estudantes universitários nem Lisboa nem o Porto são cidades universitárias. Coimbra era no século passado seguramente uma cidade universitária, mas hoje levantam-se sérias dúvidas se ainda o será. A cidade é hoje demasiado grande para a velha universidade. Uma cidade universitária tem de ser suficientemente pequena para que os estudantes não se diluam na massa populacional. Só numa cidade pequena é possível que a vida académica não acabe nas salas de aula, mas continue pelas tascas e pelas ruelas e levede toda a vida da cidade, colocando-a ao mesmo ritmo da academia: feliz e boémia no início do ano lectivo, buliçosa em tempo de aulas, tensa em épocas de exame. Uma cidade universitária é aquela que vive e casa com plena comunhão de bens com a sua universidade. As alegrias de uma são as alegrias da outra e o mesmo se diga para as tristezas. Ora esta correspondência de sentimentos só existe quando uma cidade ainda se dá conta do que se passa na universidade. Com uma universidade visando os seis mil alunos no ano dois mil, a Covilhã tem a exacta dimensão para ser cidade universitária. A entrada em funcionamento do Pólo Universitário da Carpinteira põe a cidade dentro da universidade; a cidade não poderá deixar de sentir o pulsar de discentes e docentes. Os alunos sairão das aulas e ficarão no meio académico, falando sobre frequências, comparando cursos, criticando docentes, trocando impressões discutindo matérias escolares. Já neste momento a universidade se faz sentir na vida da cidade, nomeadamente, no aluguer de casas e apartamentos, na abertura de bares e restaurantes (com a ementa académica de 700$00) e de lojas de fotocópias, etc. Mas a cidade universitária que a Covilhã poderá ser também se traduzirá numa forte animação cultural, no teatro, no cinema, nas livrarias e bibliotecas, na criação de pequenas empresas de ponta, na inovação de ideias e métodos de trabalho aplicados às mais diferentes actividades sociais, culturais e económicas. A Covilhã só tem a ganhar tornando-se uma cidade universitária. O ambiente académico que a Covilhã já proporciona é muito próprio, e disso dão testemunho os licenciados que daqui saíram e recordam a cidade em que se formaram. Será com o fortalecimento desse ambiente que a Covilhã poderá atrair jovens dos grandes centros demográficos do litoral interessados em viver uma vida académica de tipo clássico.