A Universidade como
profissão
António Fidalgo
(artigo publicado nos Anais Universitários. Série de Ciências
Sociais e Humanas 4/5, 1994)
1 – Diversidade, unidade e
dispersão das tarefas universitárias
Ao recente debate sobre o Estatuto da Carreira Docente Universitária (ECDU) em Portugal tem faltado uma reflexão aprofundada sobre a profissão de professor universitário. Por mais atinentes que sejam as observações sobre os problemas relativos ao "status" social, à situação remuneratória, à estabilidade de emprego, à progressão na carreira, elas só contribuirão para a solução dos mesmos mediante uma definição clara das tarefas e funções do docente universitário. Tal, porém, pressupõe a determinação das funções da própria universidade.
As funções que hoje as universidades desempenham são muitas e diversas. As universidades não se limitam hoje às tarefas tradicionais de ensino e investigação, mas cumprem também outros objectivos, como sejam os de políticas de desenvolvimento regional e outros. A difusão em Portugal de universidades públicas pela província, por exemplo, seria difícil de explicar como uma medida de incentivo à investigação científica nacional. Os elevados custos que a criação dessas novas universidades implica só se justificam à luz de critérios de desenvolvimento regional. As universidades do interior do país têm sobretudo como função servir de pólos de dinamização socio-económica, fixando populações, dotando essas regiões de mão de obra qualificada e prestando serviços especializados à comunidade. Mas também as grandes universidades de Lisboa, Coimbra e Porto, diversificaram as suas funções. Hoje em dia estas constituem trampolins importantes para a intervenção política e social. Nestes casos a universidade constitui mais um ponto de partida que um ponto de chegada. As referidas universidades do Litoral são centros privilegiados de recrutamento dos dirigentes políticos e económicos do país.
Chamar a atenção para estas novas funções da universidade é tanto mais importante quanto delas dependem em larga medida a fama e o proveito das universidades. Uma universidade que se limitasse exclusivamente às tarefas de ensinar e investigar estaria muito provavelmente na situação daqueles cursos que não têm uma incidência directa na vida económico-política do país, como sejam os cursos de Letras. O apoio preferencial dado aos cursos de engenharia e de gestão é, aliás, um sinal bem visível da importância que sociedade e Estado atribuem às novas funções das universidades. Há que também não esquecer que a força de lobbying de uma universidade – crucial à obtenção de verbas para a própria investigação científica – reside em muito no protagonismo socio-político e mediático dos seus docentes, e não apenas da competência científica e pedagógica dos mesmos.
Tradicionalmente esperava-se do docente universitário que fosse um bom professor e um bom cientista. Mas hoje também se exige dele que contribua em grande medida para a gestão democrática da universidade, ao nível de departamento e de faculdade como ao nível da universidade no seu todo. Sobretudo nas universidades de província, onde o número de docentes doutorados ainda é escasso e grande parte dos cursos ainda estão em fase de lançamento, há professores que dedicam a maior parte da sua actividade à gestão académica. Por outro lado, também a comunidade e a sociedade esperam que os docentes da universidade ponham à disposição os seus conhecimentos especializados. Cada vez se exige mais da universidade que se abra ao exterior, seja através da criação de centros universitários destinados à prestação de serviços, seja mediante a elaboração de projectos conjuntos com outras instituições. Dessa abertura depende em muito a obtenção de meios financeiros, considerados indispensáveis pelas universidades ao seu desenvolvimento. Neste ponto, os docentes de uma universidade não se diferenciam dos trabalhadores de uma outra instituição prestadora de serviços à sociedade.
A multiplicidade e a diversidade de tarefas que se exigem à universidade e aos que nela trabalham levaram à diluição de uma missão específica do docente universitário. Actualmente o professor universitário faz de tudo um pouco: ensina, investiga, gere a instituição académica, presta serviços à comunidade, elabora projectos de actividades de investigação – que não é o mesmo que investigar! –, intervém cultural e politicamente na sociedade. Mas qual o sentido de tudo isto? Haverá uma missão específica do docente universitário que dê unidade a esta diversidade de tarefas ou representará tal dispersão de tarefas a impossibilidade de definir hoje em dia um tipo ideal da profissão de universitário?
2 – O professor universitário como mestre
A Lei da Autonomia
das Universidades, Lei 108/88, define as universidades como “centros de
criação, transmissão e difusão da cultura, da ciência e da tecnologia” cujos
fins prioritários são “a) A formação humana, cultural, científica e técnica; b)
A realização de investigação fundamental e aplicada; c) A prestação de serviços
à comunidade, numa perspectiva de valorização recíproca”. Penso que temos aqui
um bom ponto de partida para definir a profissão de professor universitário.
A formação humana,
cultural, científica e técnica (exactamente por esta ordem!) dos estudantes
deve constituir não só legalmente, mas também de facto o objectivo prioritário
das universidades. Podem existir universidades em que não se faça investigação
científica – e elas têm existido ao longo dos séculos! –, mas não há com
certeza universidades sem estudantes. A missão principal da universidade e eo ipso a missão dos que nela vêem a sua
profissão é a formação intelectual dos estudantes. Sentir a universidade como
profissão, no sentido weberiano de vocação (als
Beruf), e não como simples local de emprego, significa justamente
participar no projecto pedagógico que a universidade antes de mais representa.
A função primeira do docente universitário deve ser assim a de mestre. O que é
um facto, no entanto, é que raros são os professores universitários em Portugal
que vêm como sua tarefa principal a de serem mestres dos seus estudantes. E
outro facto ainda a registar, é que apesar da Lei das Universidades (108/88)
fixar como primeiro fim das universidades a formação intelectual dos
estudantes, a importância que o Estatuto da Carreira Docente Universitária
atribui à tarefa formadora – pedagógica, no sentido mais profundo do termo –
dos docentes é diminuta, para não dizer nula.
Por mestre não se
entende aqui obviamente um guru. Também não se entende necessariamente um
modelo pessoal e moral a seguir. Nem tão pouco se entende aqui por mestre um
substituto dos pais. A tradição do professor in loco parentis desapareceu. Os estudantes universitários são
considerados hoje em dia não mais elementos subordinados ou inferiores, mas
parceiros no seu processo de formação. Isso é, aliás, patente na Lei das
Universidades que dá aos estudantes a paridade de representação, relativamente
aos docentes, nos órgãos da universidade, nomeadamente na Assembleia de
Representantes e no Senado. Por mestre não se entende pois o professor que tem
uma relação de tutela relativamente aos estudantes. O professor não pode e não
deve ser um caudilho.
O que se deve
entender aqui por mestre é sim o professor que personaliza a relação de
ensinar. A personalização é a característica fundamental da relação entre
mestre e discípulos e a distingue da simples relação entre professor e alunos.
Só na dimensão plena de pessoa pode o professor assumir-se como mestre. Quer
isto dizer que ser mestre é incompatível com a função anónima de ensinar
matéria científica. E como não há mestres sem discípulos, a personalização que
o ser mestre implica obriga a que se encarem os estudantes como pessoas. Para
ser mestre o professor há-de olhar para os seus estudantes como pessoas e não
como números. Não há discípulos anónimos.
Pode colocar-se a
objecção de que sendo a ciência anónima – não é deste ou daquele –, a formação
científica realizada pelas universidades não pode fulanizar-se. A
personalização da formação universitária acima advogada iria contra o espírito
universal da ciência. Formar-se-iam capelinhas à volta de cada professor
universitário, preocupadas em destacar especificidades próprias, e fechando-se
em particularismos de todo incompatíveis com a total abertura que a
investigação científica exige. A tal objecção responde-se de vários modos.
Primeiro, há que não confundir ciência com formação científica. Uma coisa é a
ciência enquanto corpus constituído
de conhecimentos, outra a formação científica enquanto apropriação desse corpus. Tal apropriação é sempre
pessoal. Ninguém ignora que nos melhores centros de formação científica, v.g.
as universidades americanas de topo, as relações entre docentes e discentes são
extremamente personalizadas. Por outro lado, se a ciência já constituída é
anónima, não o é certamente a sua formação. Também a ciência tem uma história.
Ora a personalização da formação científica só contribui para integrar o aluno
num processo cognitivo sempre em curso, ao contrário de lhe apresentar a
ciência anónima já feita.
A realidade das universidades portuguesas, porém, mostra bem o quanto a vocação formadora preconizada pela Lei das Universidades é uma miragem. Por um lado, o sistema universitário português é por demais escolarizado; ele não favorece a relação professor-discípulo como acontece por exemplo no sistema universitário alemão. Nas universidades portuguesas os estudantes têm uma série de cadeiras que constituem como que etapas de uma corrida, para uns rápida para outros lenta, até ao canudo final. Os professores sucedem-se na leccionação das cadeiras anuais ou semestrais. Em cada ano, ou mesmo em cada semestre, o estudante tem professores novos. Um acompanhamento do estudante por parte do professor é quase impossível. O sistema universitário humboldiano prevalecente na Alemanha, pelo contrário, privilegia, e nalguns casos exige mesmo, a ligação estreita do estudante a um professor. É o professor, aí sim tornado mestre, que aconselha o aluno na sua formação, que lhe sugere o plano de estudos a seguir, que o encaminha para outros professores. O estudante trabalhará com o professor continuadamente alguns anos até obter o seu grau académico.
No intuito de
cumprir o preceito legal de formar humana, cultural e cientificamente os
estudantes, as universidades portuguesas deveriam romper com o sistema de tipo
escolar actualmente seguido ou pelo menos modificá-lo de modo a possibilitar um
acompanhamento mais prolongado e mais aprofundado dos estudantes pelos
professores. Seria de toda a conveniência que todo o estudante universitário
tivesse um professor como mestre. Desse modo evitar-se-ia o anonimato para que
a maioria dos estudantes se vê remetida ao entrar na universidade. Obviamente
competiria a cada aluno escolher para seu mestre ou orientador o professor que
bem entendesse.
A
despersonalização já favorecida pela escolarização da universidade portuguesa
acentuou-se ainda mais com a explosão do número de estudantes universitários.
Nas universidades circulam anónimos. Na grande maioria dos casos professores
dão aulas e alunos recebem aulas. Há professores cujo único contacto com os
estudantes é a leccionação e a avaliação de turmas com centenas de alunos.
Muitos estudantes nem os nomes dos professores conhecem, referindo-se a eles
unicamente pela função lectiva: o professor de “Estatística”, o professor de “Métodos
I”, o professor disto ou daquilo. É difícil conceber como num quadro destes a
universidade portuguesa vise primeiramente a formação humana, cultural e
científica dos que a frequentam.
Se a função
primeira do docente universitário é a de ser mestre e se a personalização é a
característica fundamental da relação entre mestre e discípulos, então há que
realçar a importantíssima dimensão deontológica da profissão universitária.
Existem princípios ético-profissionais a que o docente universitário deve
obedecer. O médico, o advogado ou o jornalista pautam a sua actividade por
códigos deontológicos, é claro que também o docente universitário na sua missão
de mestre deve reger-se por normas éticas.
O primeiro dever
do professor enquanto mestre é o de ver nos seus estudantes pessoas e de os
respeitar como pessoas. Este princípio deve salientar-se tanto mais quanto ele
é frequentemente esquecido. É que não são poucos os professores universitários
que restringem as suas obrigações a um programa lectivo que eles próprios
estabeleceram e não se sentem minimamente responsáveis pela aprendizagem desse
programa pelos alunos. Se os estudantes aprendem ou não aprendem não lhes
interessa, para eles o importante é elaborar o que consideram ser um bom
programa científico e dar esse programa, ao jeito de pereant alumni, fiat programma. Ora são os estudantes que devem
estar em primeiro lugar e não quaisquer programas. Os deveres do professor são
para com os estudantes e não para com os programas. O cumprimento de um
programa só se torna dever na medida em que constitui um meio da formação
intelectual dos estudantes.
O dever
profissional do docente universitário consiste certamente antes de mais na
formação científica e tecnológica dos estudantes. Para isso a condição
fundamental é o professor saber efectivamente aquilo que ensina. Não há
técnicas pedagógicas que supram o saber a matéria em causa, entendendo-se aqui
por saber a sistematização dos conhecimentos científicos. O que se exige,
portanto, ao docente universitário é que seja competente no seu ramo
científico, isto é, que seja um cientista. Mas sendo a competência científica
condição necessária à formação científica e tecnológica dos estudantes, ela não
é condição suficiente. O ser-se cientista, ou seja, a competência científica
não basta; é necessário que seja complementada por uma atempada e contínua
preparação das aulas, pela disponibilidade de atendimento dos alunos, por uma
avaliação justa. A isto chama-se a honestidade profissional do professor. Um
professor pode não ser brilhante na exposição ou interessante na argumentação,
isso são dons e não deveres. Mas o que constitui um mestre na ciência são
sobretudo deveres e não dons.
A honestidade
profissional do professor implica desde logo a honestidade científica. Não se
diga que a honestidade não é para aqui chamada, que a ciência é ou não ciência,
mas que nada tem a ver com honestidade, que a ciência nem é honesta nem
desonesta. Enquanto actividade humana também a ciência pode e deve ser
qualificada eticamente. Aliás, não são precisas grandes meditações sobre a
ciência, para apurar no essencial em que consiste a honestidade científica do
professor: esforçar-se por dominar o âmbito ou o ramo científico sem causa,
reconhecer a ignorância relativamente a pontos que não domina, estar disponível
tanto para aprender como para corrigir erros, não apresentar resultados provisórios
da investigação como sendo definitivos, não fazer passar por sólidas
demonstrações frágeis. Ora é justamente o escrupuloso respeito pelos princípios
deontológicos da investigação científica que começa por fazer do professor
universitário um mestre da ciência para os seus discípulos.
Um outro elemento
extremamente importante na formação científica e cultural dos estudantes é a
atitude crítica dos professores universitários face à ciência e à tecnologia. A
essa atitude crítica chamo reflexão epistemológica. Formar alguém
cientificamente é formá-lo num distanciamento crítico relativamente aos
diferentes tipos de saber, incluindo o saber científico. Quer isto simplesmente
dizer que a ciência não deve ser encarada como um dogma. A ciência é uma criação
do espírito humano, tem as suas origens no pensamento grego, desenvolveu-se ao
longo dos séculos, não é monolítica, mas sim multifacetada, e qualquer
definição que dela se dê nunca deixará de ser problemática. Ao aprender a
ciência, o estudante deve simultaneamente aprender a natureza da ciência em
causa, deve aprender a reflectir sobre aquilo que aprende. É justamente a
dimensão epistemológica na formação científica universitária que deve demarcar
as universidades de quaisquer centros superiores de formação profissional.
Contudo, toda a
formação científica e tecnológica será sempre deficiente se não for enquadrada
numa formação humana e cultural mais vasta. A cultura é indispensável à
dimensão epistemológica da formação científica. Estudantes há que chegam ao fim
do curso sem terem lido um livro. Talvez a maior pecha do ensino universitário
actual seja a incultura de grande parte dos seus elementos. Veja-se a este
propósito o livro de A. Bloom, A cultura
inculta. Cabe também aos professores a formação cultural dos seus
estudantes, a bem da formação científica destes, e de modo a contribuírem para
a sua formação humana.
3 – O professor universitário como cientista
É usual apontar-se
a tensão entre as tarefas universitárias de ensino e de investigação. Já Max Weber
havia chamado a atenção para a vertente dupla da profissão universitária e para
a não correspondência entre o ser-se cientista e o ser-se professor. O que se
passa actualmente, porém, é mais do que simples tensão. Devido sobretudo à
massificação das universidades, ensinar e investigar quase se tornaram
incompatíveis. O prestígio e a carreira dos docentes universitários dependem da
investigação traduzida em publicações. O que interessa agora é o sucesso
científico (publicações) e não o sucesso de ensino. As razões para isso são
várias. O actual ECDU e a prática corrente nos concursos académicos privilegiam
indubitavelmente a componente científica. Para subir na carreira – e essa é a
bem dizer a única maneira de se alcançar a estabilidade profissional – é
necessário que o docente universitário publique a todo o custo. As tarefas de
ensino pouco ou nada pesam na progressão da carreira universitária. Por outro
lado, as próprias universidades estão interessadas no prestígio científico dos
seus docentes. São os grandes nomes da ciência e não os grandes professores que
lhes dão a fama e o proveito.
A consequência
daqui corrente é simples. A prática maioritária nas universidades portuguesas é
os doutorados leccionarem seminários em cursos de mestrado e as cadeiras dos
cursos de licenciatura ficarem a cargo de assistentes, muitos deles
estagiários. Os seminários de mestrado prestam-se à preparação de publicações,
ao passo que o peso da leccionação e da avaliação de turmas com centenas de
alunos recai sobre jovens docentes pressionados pelos prazos de conclusão de
provas de mestrado (ou de aptidão científico-pedagógica) e de doutoramento.
Trata-se na verdade de uma situação ditada pela desproporção actual entre
docentes doutorados e estudantes, que o andar do tempo corrigirá; de qualquer
modo, não deixa de ser sintomática da preterição que a componente
formativo-pedagógica tem na actividade universitária.
Por outro lado,
exige-se do professor universitário que seja cientista e que enquanto cientista
seja especialista. É que a afirmação de Max Weber em 1919 de que a obra
realmente importante e definitiva é sempre obra de especialistas ganhou ainda
mais justeza com a evolução científica verificada desde então. O universitário
que deseje fazer realmente investigação científica, encontrar algo de novo,
chegar onde outros ainda não chegaram, tem necessariamente de se especializar.
Sendo isto ponto assente, a questão que se coloca é como conciliar essa
especialização científica com a formação intelectual de jovens estudantes.
A comunidade
científica portuguesa é composta na sua grande maioria por universitários. Ora
os interesses dos investigadores científicos, nomeadamente a obtenção de meios
laboratoriais e bibliográficos, a formação de equipas e a elaboração de
projectos de investigação, a cooperação nacional e internacional, a
participação em encontros e congressos, não são muitas vezes compatíveis com as
tarefas de ensino. No entanto, é justamente dessa actividade científica que
depende em boa medida a qualidade do ensino universitário.
A especialização
que a ciência impõe não dispensa um trabalho de síntese. Sob pena de a
especialização científica descambar em bizantinices, é imprescindível que a
investigação não perca de vista outros ramos do saber. É que o risco de a ciência
se transformar numa nova Torre de Babel, em que cada cientista fala a sua
própria língua e não se consegue entender com os seus vizinhos, há muito deixou
de ser um perigo longínquo para se tornar uma ameaça bem próxima. Há que manter
também na investigação científica a perspectiva de conjunto. Ora é justamente a
este nível que a universidade detém um lugar privilegiado na síntese e
integração da investigação científica. O cientista universitário que investiga
especializadamente determinada questão, deve saber perspectivar essa
investigação do respectivo ponto de partida e, assim, possibilitar a sua
integração no todo da ciência em causa.
As cadeiras
introdutórias nos diferentes cursos universitários devem consistir justamente
numa síntese básica e elementar do estado da investigação científica actual. Na
universidade alemã, as introduções em forma de Vorlesungen (lições) são reservadas aos professores doutorados e
constituem o ponto de partida para a redacção de manuais das respectivas
ciências. A ciência não reside pois numa especialização míope, mas sim numa
especialização que se sabe integrada num conjunto mais vasto.
O universitário
como cientista tem a vantagem de exercer a sua actividade científica num
contexto lectivo que lhe exige a síntese dos conhecimentos especializados que
por sua vez a respectiva comunidade científica espera dele. Daí que o ensino
verdadeiramente universitário não deva ser encarado como empecilho à
investigação científica, mas sim como a outra face da medalha . Assim, dada a
especialização da investigação científica e a necessidade permanente da
integração dos novos conhecimentos no conjunto do saber adquirido, a
interdisciplinaridade representa crescentemente uma tarefa da formação
universitária. Qualquer curso universitário hoje em dia é constituído por uma
grande variedade de disciplinas altamente especializadas; mas mal vai esse
curso se não houver uma ideia integradora dessas matérias científicas, muitas
vezes tão diferentes.
Muito da tensão e incompatibilidade entre a leccionação
e a investigação universitárias reside na concepção escolarizada da
universidade. Os estudantes deveriam participar na medida do possível também na
investigação científica realizada pelos seus mestres. A formação científica dos
estudantes não pode ser unicamente passiva, resumindo-se à comunicação de uma
via só, de professor para alunos. Essa formação será tanto melhor quanto mais
os estudantes tiverem a possibilidade de aprenderem em directo com a
investigação a quente. É esta certamente a melhor via de despertar neles o
gosto e a paixão pela ciência.
Mas que fique
claro o seguinte: a formação científica universitária não é obviamente para
todos. Um dos equívocos hodiernos mais nefastos para a universidade é julgar
que esta é para todos. Hoje entram nas universidades portuguesas jovens que
manifestamente não possuem a capacidade de corresponder às exigências de uma
formação científica. Fez-se do acesso à universidade uma questão de numerus clausus, procurando que esse
número abarcasse todos os candidatos. O resultado desta democratização da
universidade foi uma quebra, tão significativa quanto inevitável, da qualidade
da formação humana, cultural e científica que a universidade deve prosseguir. Max
Weber foi bem claro nisso: “A democracia está certa dentro do seu próprio
âmbito, mas a educação científica que, por tradição, devemos procurar nas
universidades (alemãs), é uma questão de aristocracia espiritual e sobre isto
não pode haver enganos.” . Se o ingresso nas universidades se pautasse unicamente
por critérios de qualidade intelectual, com certeza muita da tensão entre
ensino e investigação desapareceria.
4–Corolários
A visão aqui traçada da profissão universitária, a de ser mestre pela ciência de estudantes da ciência, conduza algumas consequências que podem não ser óbvias face à realidade actual, mas que deveriam estar presentes na elaboração do novo ECDU.
a) A formação científica e tecnológica dos estudantes, feita em vista de uma formação cultural e humana integral, deve constituir o primeiro objectivo dos docentes universitários. Todas as outras actividades, como sejam a prestação de serviços à comunidade ou a participação em projectos exteriores à universidade, terão de ser perspectivadas da formação científica e tecnológica dos estudantes.
b) A investigação
científica universitária não pode, nem deve, viver alheada da formação
científica dos estudantes. O ensino não pode constituir uma obrigação, e a
investigação a contrapartida interessante dessa obrigação.
c) Os docentes
universitários terão assim de trabalhar a tempo inteiro para a universidade. A
figura actual da exclusividade deve desaparecer pois que constitui uma
redundância prejudicial à profissão de universitário. Tal não impede, porém,
que na universidade ensinem pessoas de outras profissões. O que se defende é
que essas pessoas exercerão a sua actividade docente na universidade como
convidados, mas que a carreira académica fique reservada a quem faça da
universidade a sua profissão, que não pode ser senão exclusiva.
d) Os docentes universitários
não devem exercer funções na universidade que não têm propriamente a ver com o
objectivo da formação científica e tecnológica dos estudantes. A gestão da
universidade no que toca ao funcionamento não académico não deveria recair
sobre os professores. Parece-me que o modelo alemão que divide a gestão da
universidade entre um reitor e um chanceler, isto é, entre as tarefas
pedagógico-científicas, por um lado, e as tarefas meramente
administrativo-burocráticas, por outro, é um exemplo a seguir.
e) Finalmente, a
profissão universitária deve assentar numa forte personalização da relação com
os estudantes.
O que quero dizer,
como remate final, é simples: a universidade como profissão tem de ser vista –
e vivida! – como realização vocacional. É disso fundamentalmente que depende
tudo aquilo pelo que os docentes universitários lutam, como sejam dignidade,
prestígio e satisfação profissional.
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