Universidade e Cultura na
Cidade
António Fidalgo
Na semana passada decorreram simultaneamente duas iniciativas culturais
na Covilhã: o II Ciclo de Teatro Universitário, promovido pelo Teatr’UBI –
Grupo de Teatro da Universidade da Beira Interior, e a celebração do 10º
Aniversário do Cine-Clube Universitário da Beira Interior com o programa “10
Filmes por 10 Anos de Cinema”, em que foram
exibidos 10 dos 300 filmes passados pelo CCUBI ao longo dos dez anos de
existência.
Esta semana decorre no Cine-Centro uma iniciativa conjunta da
Cinemateca Portuguesa e do CCUBI, denominada “Rotas Covilhã: Os Géneros do
Cinema Clássico” e onde estão a ser passados filmes como Crepúsculo dos
Deuses, Tempos Modernos, Johnny Guitar, Ran – Os Senhores
da Guerra.
A Covilhã tem hoje uma vida cultural intensa. É indesmentível. Muito
provavelmente é a cidade do interior do país com maior riqueza de oferta
cultural. Consome-se cultura e produz-se cultura. Questão de somenos
importância? De modo algum. A qualidade de vida é muito mais que o bem estar
material, por mais alto que seja. Nem só de pão vive o homem.
Indubitável é relação directa entre a UBI e a vida cultural da Covilhã.
Se a Covilhã dispõe de iniciativas culturais em quantidade e qualidade
significativas, isso deve-se ao seu ambiente universitário. Basta ver, aliás,
quem na grande maioria dos casos organiza e faz cultura e usufrui dela.
Universitários, estudantes, licenciados pela UBI, docentes.
Mas o inverso também é verdade. Não pode haver formação universitária
séria, se não houver uma vida cultural intensa. A formação universitária, mesmo
nos cursos mais técnicos, como os das engenharias, não é e não pode ser uma
formação técnico-profissional de nível superior. A formação de um licenciado ao
longo de 4 ou 5 anos passa também, e em larga medida, por toda uma vida que se
desenrola fora das salas de aula e dos laboratórios, nomeadamente em
iniciativas culturais, desportivas, sociais, políticas e até religiosas. De um
licenciado espera-se muito mais que uma formação técnica ou tecnológica,
espera-se uma formação humana e cultural, uma capacidade de assumir papéis de
responsabilidade dentro da sociedade.
Dito isto, não se compreende que a formação universitária seja encarada
por vezes como uma formação meramente escolar. Quem defende a criação de pólos
universitários a esmo, por esse país fora, com a leccionação de cada curso por
uma localidade diferente, não vê que é
necessário haver uma massa crítica, um número significativo de estudantes e
docentes, para que haja uma vida cultural como a que existe neste momento na
Covilhã. Reivindicar um curso superior só pelo significado económico que isso
pode representar para uma cidade ou vila, é esquecer que a prioridade desses
cursos é, mais do que uma formação científica e tecnológica especializada,
possibilitar aos estudantes uma formação humana e cultural de alta qualidade.