O alargamento da UBI ao Fundão
António Fidalgo
(Artigo publicado no Notícias da Covilhã em 12 de Março de 1993)
Alarga-se a UBI ao
Fundão ou não. Eis a questão … da semana passada. À falta de uma resposta que
provavelmente não chegará tão cedo, abramos o livro de Jacques le Goff, Os Intelectuais
na Idade Média, para melhor perceber a questão.
No princípio
foram as cidades. Foi o nascimento das cidades na Idade Média que deu origem às
universidades. Com o desenvolvimento comercial e industrial dos aglomerados
urbanos e a consequente divisão do trabalho, surgiu também a corporação dos
intelectuais à semelhança das corporações de sapateiros e ferreiros, entre
outras.
O intelectual era um homem cuja profissão consistia em escrever e ensinar. A divisão no seio da universidade entre professores e estudantes correspondia de algum modo à divisão corrente nas outras artes e ofícios entre mestres e aprendizes. Mas apesar das semelhanças com as corporações, a universidade foi sempre especial. Desde logo pela sua abertura ao exterior. As universidades procuravam chamar a si os intelectuais mais afamados do tempo, e na razão directa da fama dos mestres acorriam a ouvi-los os estudantes de outras regiões e países da Europa. Depois pela sua sede de autonomia. Se é certo que uma universidade era o espelho do desenvolvimento de uma cidade, e, portanto, quase que instituição indispensável a uma cidade que se prezasse, as relações entre as universidades e os poderes civis e eclesiásticos não eram fáceis. As universidades eram corporações demasiado importantes para que os poderes constituídos não procurassem de um ou de outro modo dominá-las. Só que as universidades já na Idade Média tinham meios de se defender. Como? (E agora, para que não se diga que mandamos recados às edilidades locais, transcreve-se literalmente le Goff:) “Como é que as corporações universitárias saíram vitoriosas destes combates? Antes de mais pela sua coesão e determinação. Ameaçando empregar e utilizando efectivamente essa arma terrível: a greve e a retirada. Os poderes civis e eclesiásticos reconheciam demasiadas vantagens na presença dos universitários – que representavam uma clientela económica não desprezível, um viveiro insubstituível de conselheiros e de funcionários, uma fonte resplandecente de prestígio - para resistirem a tais meios de defesa.” Para que conste, encontra-se esta passagem na página 87 do livro supra citado.