A UBI À BEIRA DO DÉCIMO ANIVERSARIO
António Fidalgo
(Artigo publicado no Jornal do Fundão em 15 de Março de 1996)
É já no próximo trinta de
Abril que a UBI celebrará o seu décimo Aniversário. Ocasião para festa, sem
dúvida, mas também para retrospectivas, balanços, análises, e, sobretudo,
ocasião para pensar o futuro da nossa universidade. O que a UBI é actualmente
em termos e números – de cursos de licenciatura (17), de mestrado (5), de áreas
de doutoramento (16), de alunos (4070), docentes (286) funcionários (290), e de
metros quadrados de área construída (85.904 m2) – encontra-se publicado,
resumidamente no suplemento do semanário EXPRESSO de 04.11.95 e de forma mais
ampliada no artigo "Evolução e Situação da Universidade da Beira
Interior" da autoria de Passos Morgado, Elisa Pinheiro, Alda Ribeiro e
Graça Castelo-Branco, do número especial de 96 dos Anais Universitários,
dedicado à memória de Duarte Simões (pp. 19-67). O que pretendo fazer aqui não
é fornecer mais dados sobre a UBI, antes proceder a uma reflexão sobre
elementos não quantificáveis, mas nem por isso menos importantes para a vida da
universidade.
A IMAGEM DA UBI
Não é boa a
imagem da UBI. É uma universidade muito jovem, sem tradição, demasiado fechada,
com um corpo docente ainda em formação e não suficientemente estabilizado, com
médias baixas de ingresso dos alunos e correspondente insucesso escolar. A isto
acrescem alguns problemas conjunturais, muito empolados por alguns órgãos de
comunicação: percentagem elevada de professores estrangeiros, processo de
acreditação do curso de Engenharia Civil pela Ordem dos Engenheiros e insucesso
elevadíssimo em algumas cadeiras nas áreas da matemática e da física.
Que a UBI tem
estes problemas, tem; que a imagem da universidade sofre com estes problemas,
sofre; são factos que não tem jeito camuflar. O que importa, contudo, verificar
é se a existência destes problemas justifica a imagem menos boa da UBI. É
imprescindível fazer aqui uma distinção crucial que é a do ser e parecer. A
realidade que é a UBI é uma coisa e a imagem que se tem da UBI é outra. Ora eu
penso que a UBI é daqueles casos em que o ser é bastante melhor que o parecer.
Não escondo que é isso que pretendo fundamentalmente demonstrar neste artigo.
A FALTA DE AnOS
E DE TrADIÇÃO
Todos conhecem o
ditado que diz "ganha fama e deita-te a dormir". Instituições há que
vivem a custa do passado, e isso também ocorre no ensino superior. Tiveram como
mestres ou alunos nomes sonantes da cultura e da ciência e mesmo que agora os
não tenham os nomes lá ficaram. As instituições elas mesmas ganharam nome e
prestígio e agora gozam dos rendimentos, ainda que pouco façam para isso. Esse
capital, que são os anos e a tradição, não o tem a UBI.
Os bons alunos
são naturalmente atraídos pelas universidades já com nome feito. Pode aí o
absentismo dos docentes ser elevado, podem as instalações dessas universidades
serem más, podem os laboratórios serem inexistentes ou mal equipados, podem as
bibliotecas durante anos não terem comprado qualquer livro, mas um aluno quando
se candidata ao ensino superior não sabe isso, apenas conhece o nome e a
imagem. Se um aluno ainda que bom não tiver lá sucesso a culpa é certamente
atribuída ao aluno.
Em contrapartida,
a UBI tem um dos calendários escolares mais longos do país. As aulas começam
mesmo em finais de Setembro, primeiros dias de Outubro, e não só em começos ou
fins de Novembro, e os professores dão mesmo as aulas. Em termos de leccionação
a UBI é certamente uma das universidades portuguesas mais rigorosas, se não a
mais rigorosa. Quem, nesta matéria, se queixa na UBI é porque não conhece as
outras universidades lusas. Na UBI não existem professores sem horários
atribuídos, mais tempo no estrangeiro do que no país; na UBI não há professores
que recebem o ordenado do Estado e depois passam a maior parte do seu tempo nas
universidades particulares, onde alguns são reitores ou chefes de departamento;
na UBI não existem cadeiras comprimidas num mês de leccionação.
No que respeita
a infra-estruturas é unânime que as da UBI são das melhores do país. Os
edifícios têm dignidade – a UBI não tem barracões! –, as salas de aula têm
todas as condições e os gabinetes dos professores são bons, de luxo até,
comparados com os gabinetes dos docentes de outras universidades, e é quando
estes têm gabinete. E se formos aos laboratórios, então também aí a UBI pede
meças a qualquer outra instituição universitária. Os laboratórios das
engenharias do papel, do têxtil, de aeronáutica e de engenharia civil são
verdadeiras estruturas de excelência. Mas se um aluno, que entrou na UBI com
médias baixíssimas, tem insucesso, a culpa é da UBI!
Em vez de se
falar do insucesso escolar na UBI, porque não falamos da qualidade dos seus licenciados?
E que o factor principal do insucesso escolar, a deficiente formação com que os
alunos ingressam na Universidade e de que as provas específicas são cabal
prova, é alheio à universidade. A universidade não pode responder pelos
estudantes que nela entram, mas pode e deve pelos que dela saem, os seus
licenciados. E é aqui que a UBI tem razões de sobra para não se encolher. Os
licenciados da UBI têm feito boa figura nos locais de estágio e nas empresas
que os contrataram e têm-se afirmado ao mercado de trabalho. Porque é que não
se reconhece isto, se isto até é o elemento mais importante de uma
universidade? Será porque ninguém é profeta na sua terra e a galinha da vizinha
é sempre melhor que a minha?
A IMAGEM DA UBI E OS PROFESSORES
Uma das causas da
má imagem da UBI e indubitavelmente a ideia feita de que os professores são
maus, de que muitos são estrangeiros e não falam português. Sei que não e fácil
desfazer ideias feitas, mas gostaria de fornecer alguns elementos de reflexão a
quem tiver essa ideia do corpo docente da UBI
Todos sabem que
a carreira docente universitária é longa e penosa. Um jovem licenciado
contratado para leccionar na Universidade começa por ser assistente estagiário;
depois tem 4 anos para fazer o mestrado e passar a assistente; como assistente
tem 6 anos para fazer o doutoramento e passar a professor auxiliar. Se não
conseguir cumprir estes prazos, e há muitos que não conseguem, Fura e
simplesmente vai para a rua. Mesmo com o doutoramento feito, normalmente entre
os 35 e os 40 anos, ainda não pertence ao quadro da universidade; este é
composto unicamente pelos professores associados e professores catedráticos. A
associado e a catedrático chega-se por concurso e para concorrer a catedrático
e necessário ter feito antes as provas de agregação. Chegar a catedrático com
50 anos de idade já é muito bom, chegar antes é excelente.
Com dez anos de
existência é mais do que normal que a UBI ainda não tenha preenchido o seu
quadro docente de professores catedráticos e professores associados. Também é
normal que os catedráticos e os associados das universidades mais antigas, de
meia idade e com a vida já estabelecida no litoral rico, não venham para uma
universidade do interior pobre. Só restava uma saída à UBI: por um lado, pedir
o contributo desses professores. É assim que bastantes professores catedráticos
das universidades de Lisboa, Coimbra e Aveiro vêm um ou dois dias da semana à
Covilhã leccionar e orientar os nossos assistentes. Por outro lado, apostar
forte na formação do corpo docente da casa. Convém referir, todavia, que também
neste ponto a UBI não tem tido tarefa fácil. Alguns professores, cujo
doutoramento a UBI financiou, buscaram as universidades do litoral e alguns
assistentes, feito o mestrado, saíram para os institutos politécnicos,
contratados aí como professores adjuntos do quadro e com um ordenado idêntico
ao dos professores auxiliares universitários. Apesar de tudo, a UBI conta hoje
com um. considerável número de doutores e mestres.
Quanto aos
professores estrangeiros. Eles são 41, catorze por cento dos 286 docentes que a
UBI tem. Nove desses 41 são brasileiros, cuja língua materna é também a língua
de Camões. A qualidade científica desses docentes estrangeiros, vindos a
maioria do Leste Europeu, ninguém a põe em causa, mesmo os maiores críticos da
UBI neste campo; o currículo científico destes professores convidados da UBI
suplanta o currículo de muitos professores das universidades portuguesas mais
antigas. Metade deles já lecciona em português; só cerca de quinze docentes da
UBI (cinco por cento, um em vinte!) leccionam actualmente em inglês e fazem-no
sobretudo nos dois últimos anos dos cursos. Porquê fazer deste facto um cavalo
de batalha contra a UBI· Talvez porque a UBI foi a primeira universidade
portuguesa a dar-se conta e a tirar proveito do enorme potencial científico dos
países do Leste, tornado acessível pela queda do muro de Berlim? Talvez porque
seja fácil alijar culpas de insucesso escolar para cima de estrangeiros?
Estranha crítica esta feita à UBI, quando só abona a favor de uma universidade
a colaboração de professores estrangeiros.
UMA UNIVERSIDADE
PAIRA CRESCER
A eleição do
Prof. Santos Silva para Reitor abriu um novo ciclo da UBI. Isto mesmo o
reconheceu o Prof. Passos Morgado, primeiro Reitor da UBI. Até agora a
preocupação primeira da Universidade foi dotar-se das condições indispensáveis
ao seu funcionamento, afirmar-se no panorama universitário português. Talvez
por isso a UBI viveu para si, preocupada consigo mesma, fechada à cidade e à
região. Hoje, com todos os seus órgãos eleitos, a UBI começa a sua velocidade
de cruzeiro. Trata-se agora de a abrir à sociedade e sobretudo à região que lhe
empresta o nome. É preciso que as gentes da Beira Interior e todas as forças
vivas da região, autarquias, escolas, órgãos de comunicação, empresários e
trabalhadores, conheçam a sua universidade, dialoguem com ela, lhe façam
exigências e a estimulem. É bom que todos conheçam a Universidade, saibam do
muitíssimo que já se fez e do muito que há por fazer.
Com uma década
feita, a Universidade da Beira Interior foi obra ingente de poucos, em que se
destaca a figura de Passos Morgado. Mas uma universidade é uma tarefa de
décadas, sendo para isso necessário a participação de todos. A eleição de
Santos Silva como Reitor representa a abertura da UBI ao contributo de todos e
de cada um. Não duvido que, com esta abertura, muito em breve a imagem da UBI
será bem mais realista e, portanto, bem melhor que a actual.