Português e Matemática
António Fidalgo
(artigo publicado na Revista Beira Interior da AAUBI em Novembro de
1995)
1– É uma calamidade nacional. Os
estudantes portugueses não sabem matemática. Os
resultados das provas especificas de matemática são vergonhosos. A média deste ano foi de três vírgula tal. Caramba, haja vergonha para tanta vergonha. Infelizmente uma vergonha nunca vem só. Nunca como hoje se
viu escrever tão mal português. Os erros de ortografia são a mato. Mesmo senhores doutores escrevem com erros de bradar aos céus: duplo "ss" em vez do
"c" cedilhado, meter um hífen antes do
"mos" da primeira pessoa do plural dos tempos verbais, para já não falar das formas do
verbo haver sem h e das trocas de "es" por "is". Se
a ortografia é má, então quanto à sintaxe nem é bom falar. Ele são frases umas sem sujeito, outras sem predicado, e, no que toca aos complementos, é à sorte. E que dizer da concordância dos tempos verbais? Provavelmente a maior parte nem sabe o que isso é.
2– Penso que ninguém tem dúvidas: a matemática e o português andam pelas ruas da amargura. Mas o que é que uma coisa tem a ver com a outra? A falta de rigor intelectual num e noutro caso. Certamente, essa falta é muito mais visível na matemática. Aí não há possibilidade alguma de esconder a ignorância. No
português é diferente. Aprendeu-se a falar português com o leite materno, os estudantes falam em português uns com os
outros, e, por isso, não há uma percepção tão aguda das deficiências neste campo. Como ao
fim e ao cabo falam português, julgam que sabem português. Só que quanto das deficiências a matemática não reside nas deficiências a
português dos estudantes? Pois se eles nem chegam a entender o que se Ihes pergunta nas provas de
matemática, pura e simplesmente porque não entendem os
enunciados!
3. A matemática e o português têm muitas mais afinidades do que parece à primeira vista. São línguas a segunda natural e a primeira artificial – que obedecem às leis Iógicas do espírito humano. Ambas se regem por regras, e é por isso que para saber matemática e português é
indispensável saber as regras que presidem à formação e utilização dessas línguas.
Na matemática temos os axiomas, os teoremas, as demonstrações, as equações, as
funções, etc., etc., no português temos as
conjugações, as orações principais, as
coordenadas, as subordinadas, os advérbios. Quem quiser saber português tem que saber gramática; e não é a gramática uma matemática extremamente complexa?! Ao
fim e ao cabo, o português e a matemática são dois produtos da cultura humana e a situação desastrosa destas duas disciplinas fundamentais na
formação intelectual dos estudantes B um
sintoma da falta de cultura que grassa na sociedade portuguesa.
4. Em 1992 veio à luz nas Edições Cosmos um livro organizado por J. Furtado Coelho e intitulado Matemática e Cultura. Compõem o livro oito conferências realizadas na Primavera de 1990 no
Centro Nacional de
Cultura por pessoas ligadas à
matemática[1]. O ponto de partida foi a disciplina "Matemática
Elementar do Ponto de Vista Superior" que J. Furtado Coelho começou a leccionar em 1987 na
Licenciatura em Matemática (Ramo Educacional) na
Faculdade de Ciências de
Lisboa. Trata-se de
um livro que aconselho vivamente a todos os que se
interrogam sobre as
razões do descalabro a que chegou o ensino da
matemática em Portugal. Não é que aí
se analisem causas próximas da
ignorância matemática dos estudantes portugueses, mas porque aí se mostra a dimensão cultural da matemática. Furtado Coelho escreve na
Introdução: "A Matemática é feita por Homens -tal como a Poesia, a Literatura, a Religião, a Física, a Química, a Filosofia, e assim por diante. ... A Matemática é um modo de actividade do
espírito humano que se entretece
intimamente com outros modos dessa mesma actividade. Porém, na
sociedade actual, multicotomizada, pluriencaixilhada, cega à força de lhe chaparem tanta coisa diante dos olhos. os
leigos aprendem matemática como quem aprende uma ladainha de palavras cujas etimologias
desconhece; e os profissionais, por vezes, já esqueceram as ligações da sua ciência com a vida."
5. Os estudantes portugueses não sabem matemática porque, para o dizer curto e grosso, são incultos. Não sabem matemática porque também não lêem. não aprendem música, não tentam cultivar o espírito – sim senhor, cultivar, tal como o camponês cultiva a terra! – e, assim, extrair dele as flores e os frutos do saber e da ciência.
Já agora uma sugestão algo heterodoxa. Os alunos que chumbam a matemática, tentem ler os clássicos da língua portuguesa, Padres António Vieira e Manuel Bernardes, Herculano e Garrett, Camilo e Eça. Tenho a certeza que se os lerem com atenção, devagar e sempre com o dicionário na mão, procurando entender o que Iá está escrito, ganharão uma tal agilidade de espírito que a matemática deixará de ser o papão em que se converteu[2].
[1] – Nomeadamente “Matemática e cultura” de J. Furtado Coelho, “Como ser sério com palavras cruzadas” de Fernando Ferreira, “Dinâmica de populações em tempo discreto” de J. M. de Campos Rosado, “’Quadratura’ do círculo e a construção das pirâmides” de João Antas, “A música das esferas” de João Paes, “O Acaso é a única coisa que não acontece por acaso” de J. Tiago de Oliveira, “Quantidades e qualidades na física do senso comum” de José Mariano Gago, “A diagonal do quadrado e as intimações do infinito” de J. Furtado Coelho.
[2] – Mais uma sugestão: quem quiser aprender matemática num livro bem escrito compre, peça emprestado, vá busca-lo às bibliotecas, o livro de Bento de Jesus Caraça Conceitos Fundamentais da Matemática. Garante-se leitura sólida.