António Fidalgo
(Artigo publicado no Jornal do Fundão em 22 de Maio de 1998)
A bênção das pastas é uma festa que, por esta
altura do ano, se repete nas diferentes cidades universitárias portuguesas.
Este ano, aqui na Covilhã, é no próximo sábado, dia 23. É uma festa bonita, de
muita alegria, com os estudantes de traje académico, rodeados de pais e demais
familiares muito orgulhosos pelo novo engenheiro ou novo doutor, ou, declinado
no feminino, pela engenheira ou doutora. Em missa festiva o bispo da diocese
benze as pastas dos estudantes, levantadas ao alto. Tal como no fim da missa o
sacerdote diz aos fiéis "Ide agora e o Senhor vos acompanhe", também
na bênção das pastas se encontra a mensagem de que agora, acabado o curso, os
estudantes podem partir à procura e conquista do largo mundo da vida e do
trabalho.
O dia da bênção das pastas é um dia de
alegria, pelo curso tirado, e também um dia de esperança e de confiança em
relação à vida profissional que se segue. Mas é também um dia de reflexão sobre
a universidade, sobre o papel dos professores, sobre os cursos e sua ligação e
adequação ao mercado de trabalho, sobre a formação académica e até sobre a
própria vida (que somos? que podemos? que queremos?).
Há quem afirme, face ao crescente desemprego
inicial dos jovens licenciados, que há licenciados a mais e, claro,
universidades e cursos a mais. Se um curso universitário não serve para
arranjar um emprego bom, para que serve? Defende-se então que as universidades
só deveriam formar licenciados consoante o mercado de trabalho e à medida
deste. Visão tremendamente errada esta e reveladora de muita ignorância. À
visão imediatista e míope de quem assim pensa, há a dizer, antes de mais, que
um curso universitário não é, não pode e não deve ser um curso superior de
formação profissional. A missão da universidade é antes de mais a de contribuir
para uma formação humana, cultural e científica dos estudantes e não a de lhes
dar uma formação técnica, directamente virada para uma profissão. Não são as
pessoas que devem ser talhadas à medida das profissões, mas as profissões que
devem ser criadas e exercidas à imagem e semelhança da pessoa humana.
Num mundo cada vez mais complexo e mais rápido na mudança, o que as
pessoas precisam, todas elas, mas principalmente as que são chamadas a maior
responsabilidade, é a de uma sólida preparação de base, humana, moral, cultural
e científica, para enfrentarem os contínuos desafios da vida. Só uma muito boa
formação de base permitirá aos licenciados serem flexíveis, criativos, capazes
de decidir. Técnicos, simples técnicos, nada mais que técnicos, são seres
extremamente situados, que se desactualizam e se perdem na razão directa da
marcha da tecnologia, da economia e da vida.
Mesmo de um ponto de vista económico não fazem sentido os cursos
directamente virados para um determinado emprego. Num recente artigo de opinião
no diário Público (16/05/98), Diogo Lucena, reflectindo como economista a
propósito da questão se há doutores a mais ou a menos, escrevia:
"licenciaturas muito profissionais e de espectro muito estreito são uma má
aposta neste contexto. O que interessa nessa fase é dar a cada jovem uma
formação que o ajude a adquirir essa flexibilidade, e que lhe permita no futuro
uma adaptabilidade profissional acrescida. A informação e mesmo as técnicas
tornam-se obsoletas hoje em dia com uma velocidade tal que aquilo que vai
restar destas são sobretudo as capacidades de pensar e de obter novos conhecimentos
com facilidade no futuro, à medida de necessidades hoje ainda
imprevisíveis."
Ter hoje uma pasta de licenciado não é ter um bilhete profissional, nem
é um seguro de vida, apenas é um simples começo. O que a universidade deu ao
jovem é o saber para ele caminhar e lutar sozinho na e pela vida. Com a bênção
dos céus.