António Fidalgo
(Artigo publicado no Jornal
do Fundão em 3 de Abril de 1998)
Volto esta semana novamente ao livro de João
Lobo Antunes, Um Modo de Ser. O intuito é o de registar a preocupação
deste professor de medicina em “salientar a importância de fornecer ao jovem
médico uma cultura humanística, que lhe permita não só entender a total
dimensão do acto médico, mas também fruir o seu sabor mais fino, porque este é
fonte de inspiração ética e consolo intelectual” (p. 114). Aos dez livros de
cabeceira de um jovem médico, recomendados por Osler, pai da moderna prática e
pedagogia médicas, e entre os quais se encontram a Bíblia, as obras de
Shakespeare e Montaigne, Lobo Antunes acrescenta, entre outros livros, a novela
A Morte de Ivan Iliitch de Leon Tolstoi. É justamente no ensaio “Relendo
A Morte de Ivan Iliitch” que Lobo Antunes faz uma análise impressionante
da comunicação entre o doente e o médico.
O que o médico trata são homens e não corpos.
Mas esta verdade tão simples é não raras vezes negada pela prática quotidiana
de muitos dos nossos médicos. O materialismo científico do século XIX e a
divisão cartesiana entre corpo e espírito, ainda hoje muito presentes na formação
médica, levam os médicos a preocuparem-se quase exclusivamente com o lado
fisiológico da doença, com o seu exacto diagnóstico e a sua correcta terapia. A
medicina é feita sobretudo de uma perspectiva técnico-científica. Pouco
interessa o que vai pela cabeça do doente, os temores, as angústias, as
esperanças. Daí que não se informe o doente, que se lhe imponha tão somente que
siga as prescrições à risca. É esta prática da medicina que Lobo Antunes
contesta. Mais do que de doenças, é de doentes que o médico trata.
É por a medicina de base “científica”
descurar bastas vezes o lado humano que se assiste, se não ao divórcio, pelo
menos a repetidas infidelidades do doente relativamente ao seu médico. Lobo
Antunes chama a atenção para o facto de nos Estados Unidos, segundo um estudo
recente, cerca de um quarto dos doentes recorrer a terapêuticas não
convencionais – megavitaminas, produtos herbanários, manipulação, etc. – e,
destes, 7/10 não o contarem ao seu médico. “E não se pense que isto é fruto de
ignorância ou superstição, porque a maior parte destes doentes pertence às
classes socioeconómicas mais elevadas.” (p.122)
Tão ou mais importante que a doença é o homem
que sofre essa doença. Verdade simples, pois é, mas é para esta verdade tão
simples que Lobo Antunes chama a atenção e para as consequências na formação de
médicos que ela acarreta. Ao lado da componente científico-técnica tem de haver
uma componente humanística.