Licenciatura em Comunicação Social na UBI

António Fidalgo

(Artigo inédito destinado a um suplemento do
Jornal do Fundão para a Primavera de 1992)

 

1- Um curso em formação

O Curso de Licenciatura em Comunicação Social foi criado em 1989 na Universidade da Beira Interior e começou a ser ministrado nesse mesmo ano lectivo. Os alunos mais adiantados frequentam agora (91/92) o 3º ano. Tendo o curso a duração de 5 anos, os primeiros licenciados sairão em 1994.

O curso está a fazer-se. Cada ano começam a ser leccionadas novas cadeiras e novos docentes são contratados. O número de alunos, actualmente 171 no conjunto dos três anos, aumentará nos próximos anos para cima de 250. É certo que, na base do plano de estudos, se pode já caracterizar o curso. Mas um curso de licenciatura não se resume de modo algum ao seu curriculum. Em fase de implementação, o Curso de Comunicação Social é o que docentes e discentes quiserem e souberem dele fazer. Sim, porque programas lectivos, métodos de investigação e leccionação, práticas de relacionamento (internas ao próprio curso, com outros cursos da UBI e com o meio social e cultural da região) estão agora no seu início. Ainda não há uma tradição, usos e costumes herdados, que ofereça trilhos já traçados. Existe, assim, um desafio, a alunos e docentes, para fazerem do curso de comunicação social na UBI um curso de qualidade.

As perspectivas são boas. A quase totalidade dos alunos de comunicação social escolheram o curso que frequentam como primeira opção. Isto é, não estudam comunicação social porque não conseguiram entrar noutros cursos, como tantas vezes é o caso, mas sim porque era à partida o curso preferido. As notas de admissão ao curso são também das mais altas no ingresso à universidade. O interesse dos estudantes pelo curso é, aliás, notório. Há assiduidade, participação, colaboração e crítica. Correspondentemente, a taxa de sucesso escolar é elevada.

O corpo docente, professores e assistentes, é bastante jovem e de proveniência académica diversificada. Doutorados ou licenciados por conhecidas universidades nacionais e estrangeiras, desde as Universidades Clássica e Nova de Lisboa às Universidades alemãs de Würzburg e Mainz, passando pelas Universidades de Paris e de Utreque (Holanda), constituem a garantia do nível científico do curso numa pluralidade de saberes verdadeiramente universitária. Comum a todos é, em primeiro lugar, o cuidado em oferecerem um ensino aturado e sólido. Depois, a ambição em levar a efeito uma investigação científica constante e respectiva tradução em livros, artigos e conferências da especialidade, em ordem à progressão na carreira académica.

Com diálogo, crítica e bom entendimento entre todos os que aprendem e ensinam, no melhor espírito de comunidade académica, construir-se-á um bom Curso de Licenciatura em Comunicação Social na UBI.

 

2- Em concorrência com cursos de outras escolas superiores

Nos últimos anos tem-se assistido a uma proliferação de cursos de comunicação social, ao nível de bacharelato e licenciatura, em universidades públicas e privadas, politécnicos e escolas superiores não-estatais. Um entre outros, o curso da UBI tem que se afirmar pela qualidade e especificidade, de modo a não ser apenas mais um.

Antes de mais, há que procurar a colaboração com os cursos de comunicação social que, criados há mais tempo, já se estabeleceram no meio universitário e no mundo da comunicação social. O ciclo de conferências sobre a "Epistemologia da Comunicação Social", realizado em Março e Maio, e que trouxe à UBI conhecidos professores do Departamento de Comunicação Social da Universidade Nova de Lisboa, inseriu-se justamente nesta estratégia de intercâmbio universitário, que a interioridade apenas torna mais premente. Em segundo lugar, dever-se-á apostar decididamente na valorização científica dos docentes, sobretudo dos assistentes, e dar-lhes condições para, se for o caso, obterem os graus académicos de mestre e doutor, investigarem e publicarem. A afirmação dum curso faz-se em grande parte pela afirmação científica dos seus docentes.

As excelentes condições do Centro de Recursos de Ensino e Aprendizagem (CREA) da UBI podem também contribuir para distinguir o curso. Com efeito, este centro, onde os alunos de Comunicação Social  têm aulas práticas, dispõe de um laboratório fotográfico, de um estúdio de gravação de vídeo, de uma secção de pós-produção de áudio e vídeo e uma sala de viewing. Aí produzem-se filmes científicos, educacionais e documentais para clientes fora da UBI. Saber aproveitar as condições oferecidas pelo CREA, potenciá-las, é um desafio ao próprio curso e constituirá também um teste à sua capacidade de concorrência face aos cursos de outras escolas que não dispõem de tais condições.

Por fim, haver  que proceder à promoção do curso nas escolas secundárias, sobretudo naquelas que têm a disciplina "Jornalismo". H  que atrair os melhores alunos do secundário. É por aí que tem de começar a afirmação de um curso universitário. E se é certo que hoje a procura dos alunos é muito superior à oferta posta à sua disposição pelo ensino superior, e daí o numerus clausus, não é menos certo que dentro de alguns anos serão poucos os alunos para os lugares de estudo disponíveis.

 

3- Um curso situado

Dos 15 cursos de licenciatura, actualmente ministrados na UBI, apenas três são da área das Ciências Sociais e Humanas. São eles Gestão, Sociologia e Comunicação Social. As outras 12 licenciaturas são do âmbito das Ciências Exactas e das Engenharias. Este claro pendor técnico da UBI, que felizmente se atenuará em breve com a introdução do curso de Economia, levanta dificuldades à afirmação de um curso de ciências sociais. H  sinergias dentro da ciência e da universidade que condicionam o desenvolvimento de um curso. As influências que licenciaturas em história, filosofia, ciências políticas, línguas e belas-artes, entre outras, podem e devem exercer sobre um curso de comunicação social não são, de modo algum, de descurar. Porém, a UBI está ainda no início e haveria que começar por algumas licenciaturas. Assim como a licenciatura de Sociologia serviu de rampa de lançamento à de Comunicação Social, outros cursos de ciências humanas surgirão certamente no seguimento dos já existentes. De qualquer modo, a colaboração e interdiscipli­naridade entre as licenciaturas já existentes na área das ciências sociais na UBI é uma realidade tanto a nível da leccionação como da investigação, de que a revista "Anais Universitários – Série Ciências Sociais e Humanas" é um bom fruto.

Finalmente, convirá focar a inserção do Curso de Licenciatura em Comunicação Social na realidade social e cultural da Beira Interior. O pólo de desenvolvimento que a UBI pretende ser e já é na região também passa pelas ciências sociais. Não há desenvolvimento harmonioso se não houver uma avaliação crítica dos princípios e objectivos que devem nortear esse desenvolvimento. Podem-se formar óptimos cientistas e técnicos na área das ciências da natureza e desse modo colocar à disposição da indústria e do comércio a mão de obra qualificada imprescindível ao seu progresso, mas isso não basta. Uma condição necessária não é o mesmo que uma condição suficiente. As sociedades do Leste Europeu são um bom (mau) exemplo de como um alto nível de capacidade tecnológica, não impediu a derrocada social, cultural, económica e ecológica desses países. A política nacional de investigação científica, ao privilegiar sistematicamente as ciências da natureza em detrimento das ciências do espírito, está a ceder a um imediatismo de resultados que nunca foi bom para a ciência. O que se ganha a curto prazo neste campo, paga-se, com pesados juros, a médio e a longo prazo.

O curriculum do Curso de Comunicação Social prevê um estágio no último semestre. 'A semelhança de outros cursos da UBI com estágio – nomeadamente os de engenharia têxtil, engenharia do papel e matemática-informática –, também aqui se pretende criar um espaço de aferição e aplicação prática dos conhecimentos obtidos ao longo do curso. O estágio, que em princípio contemplará as áreas do jornalismo, relações públicas, publicidade e audiovisuais, constituirá uma excelente ponte entre o Curso de Comunicação Social e as forças vivas da região. O intercâmbio será vantajoso para as duas partes: para o curso e para as empresas e instituições em que se farão os estágios. O curso poderá testar a validade e viabilidade do seu curriculum e programas, acentuando pontos-chave e corrigindo defeitos; as empresas e instituições terão a oportunidade de introduzir novas ideias, renovar know-how, e de beneficiar das ligações que os estagiários mantêm com a universidade e com outros estagiários em outras empresas.

Ainda um desafio, o Curso de Licenciatura em Comunicação Social na UBI, é com muita confiança que esse desafio é aceite.