Da Faculdade de Artes e Letras da UBI

António Fidalgo

(Artigo publicado no 1º Número do Beira Interior, Jornal da AAUBI,  Abril de 1993)

 

Sem a área de artes e letras a Universidade da Beira Interior será sempre uma universidade imperfeita.  Será esta afirmação que procurarei demonstrar neste artigo.

No plano inicial de 1980 previa-se, para uma primeira fase de desenvolvimento da UBI, a entrada em funcionamento de quatro Unidades Científico-Pedagógicas (UCPs)  Ciências Exactas, Ciências da Engenharia, Ciências Sociais e Humanas, Artes e Letras. Passados 13 anos, as três primeiras UCPs são uma realidade, ministrando, no seu conjunto, 15 licenciaturas. Falta a UCP de Artes e Letras. Será porque não falta?

 

1-A ideia de universidade

A universidade é uma criação do espírito corporativo da Idade Média. Foi no século XIII, com o forte apoio das ordens religiosas, que elas surgiram por toda a Europa: Oxford, Paris, Bolonha, Montpellier, Salamanca, Coimbra. À semelhança das outras corporações medievais, constituídas por mestres e aprendizes de um mesmo ofício, a universidade era a corporação de professores e alunos na defesa dos seus direitos e autonomia.

Mas a universidade (a unidade do diverso) era também a resposta de síntese aos novos e diversificados conhecimentos que chegavam à Europa através dos árabes em Espanha: os escritos aristotélicos, as obras de Euclides, dos médicos gregos e árabes, textos de matemáticas, de geometria e direito. Face à multiplicidade dos saberes, os estudos dividiam-se em duas grandes áreas, o estudo das “voces” (das palavras) que incluía as artes do trivium: gramática, retórica e lógica, e o estudo das “res” (coisas),   isto é, o quadrivium: aritmética, geometria, música e astronomia.

Desde o início consistiu a ideia de universidade em abarcar o conjunto de todos os saberes. João de Salisbúria, um dos sábios medievais mais ilustres, traduz essa ideia da seguinte forma: "Quanto mais disciplinas se conhecer, tanto mais profundamente seremos por elas impregnados, tanto melhor apreenderemos a justeza dos autores e melhor ensinaremos."? Ora é justamente a vocação universalista subjacente à ideia de universidade que a distinguiu ao longo dos séculos e a distingue de quaisquer outras escolas de ensino superior ou especializado. A universidade não é um instituto, não é uma escola superior disto ou daquilo, nem tão pouco é um politécnico.

Sempre o estudo das letras constituiu parte essencial de uma universidade. Com o andar dos tempos, o estudo das "voces" passou de uma simples aprendizagem inicial da gramática e da lógica, como condições indispensáveis a estudos ulteriores, para um estudo das “voces” dos que tinham estudado e falado antes, sobretudo dos mestres da Antiguidade C1ássica. O trivium deu origem aos Estudos Humanísticos ou Humanidades. A finalidade destes estudos era transmitir aos estudantes os valores humanos, as capacidades intelectuais e morais, que os tornavam verdadeira e plenamente homens à imagem dos grandes modelos (de arte, de ciência, de sabedoria e sobretudo de virtudes humanas) da Antiguidade. Parte integrante destes estudos era a aprendizagem das línguas clássicas, latim e grego, e o estudo da história e do pensamento antigos. O estudo das humanidades constituía como que o fundamento e arcaboiço do estudo de qualquer outra ciência. Na época áurea da universidade alemã, que foi também o apogeu do ideal universitário em geral, séculos XIX e XX até 1933, era impensável um cientista – físico, químico, matemático, médico, engenheiro, jurista – que não desfrutasse de uma forte Bildung, isto é, de uma sólida formação na cultura clássica.

É  justamente a componente humanística, hoje realizada pelas Faculdades de Artes e Letras, que distingue uma universidade de um qualquer politécnico. A universidade, mesmo na área das ciências naturais, visa formar cientistas que saibam avaliar criticamente aquilo que fazem, que não se limitem a reproduzir e a transmitir conhecimentos já feitos. Ora só um intercâmbio disciplinar intenso com outras áreas do saber permite o distanciamento necessário a qualquer inovação científica de fundo, isto é, a investigação científica de base. Sem esse intercâmbio e correspondente auto-distanciamento, a investigação especializar-se-á cada vez mais em bizantinices, incapaz de se abalançar a trilhos novos.

 

2- As Artes e as Letras na Beira Interior

Se há ramo do saber que tem tradição na Beira Interior, então é o das Letras. Aqui se formaram e daqui saíram nomes cimeiros das letras portuguesas. Dos vivos basta citar entre outros Virgílio Ferreira, Eugénio de Andrade, José Cardoso Pires, António José Saraiva, Eduardo Lourenço, Malaca Casteleiro, Arnaldo Saraiva, verdadeiros “hommes de lettres” que ilustram sobremaneira a Beira Interior.

Se pelo nome e pela sua própria razão de ser a UBI é da Beira Interior, então talvez não haja Faculdade que mais se justifique que a de Letras. Não cabe porventura à UBI promover a nível universitário as tendências culturais que já se encontram enraizadas na região? A integração da Universidade ao meio envolvente só tem a lucrar com a criação da Faculdade de Artes e Letras.

 

3- As Artes e as Letras e o Desenvolvimento Regional

O neo-riquismo das ciências tecnológicas, existente hoje em Portugal, e o correspondente desprezo pelas humanidades e ciências sociais, que se traduz na generosidade das verbas governamentais e dos fundos comunitários postos à disposição de tudo o que é técnico ou tecnológico, mas sonegados às primeiras, é uma miopia que se pagará caro a médio prazo. É característico das sociedades menos evoluídas a atracção pelo lado técnico da ciência. Julgam assim alcançar mais rapidamente os países mais desenvolvidos. Puro engano. O desenvolvimento de um país depende muito mais das mentalidades do que quaisquer feitos tecnológicos. Os países do Leste Europeu, em particular a ex-União Soviética são bem a prova acabada de que tecnologia não é igual a desenvolvimento. O país que enviou o primeiro satélite para o espaço é hoje um caos social, económico e político. Sintomaticamente foi a área das humanidades e das ciências sociais que a ideologia comunista mais oprimiu. Tivessem tido essas ciências inteira liberdade de investigação e ensino e, desse modo, cumprido a sua função crítica da sociedade, e não se teria chegado ao autêntico descalabro desses países.

O motor de desenvolvimento que a UI constitui já neste momento numa das regiões mais necessitadas de Portugal será consideravelmente reforçado com a Unidade Científico-Pedagógica de Artes e Letras. O pessoal qualificado que a UBI forma só se fixará verdadeiramente se a vida cultural e artística não for um deserto. De contrário, estar-se-á a formar técnicos que, sobretudo os melhores, demandarão rapidamente o litoral. O desenvolvimento de uma região terá de ser forçosamente harmonioso. É que esse desenvolvimento não pode ser exógeno, ma potenciador da identidade regional e essa faz-se sobretudo tudo humanisticamente e ... religiosamente. (Permita-se-me aqui um pequeno aparte: as muitas e excelentes universidades alemãs situadas em pequenas cidades têm não só necessariamente a área de letras – a chamada faculdade filosófica, como também uma faculdade de teologia!)

4- Por último

Claro que a justificação cabal de uma Faculdade não é para um artigo de jornal por mais longo que seja. Mas gostaria de, por último, chamar a atenção para o seguinte: Criticam-se, e com alguma razão, as se, e com alguma razão, as universidades privadas que só compreendem “cursos de papel e lápis”, de menores custos financeiros. Tal crítica, porém, não pode levar a que a divisão entre público e privado corresponda à divisão entre cursos técnicos e cursos de letras: cursos de direito, gestão e letras para as universidades privadas e cursos de medicina e engenharia  para as públicas. Sabida que é a vocação dos “cursos de papel e lápis” em dominarem a vida cultural e política de um país, não suceda que se reserve para as universidades privadas o papel de fornecer o escol dirigente da nação.