Ciência, Cultura e Anarquia

António Fidalgo

(artigo publicado na Revista Beira Interior da AAUBI em Abril de 1994)

 

O físico alemão Werner Heisenberg (1901-1976), um dos pais da mecânica quântica e Prémio Nobel de Física de 1932, tem um pequeno livro traduzido em português intitulado A Imagem da Natureza na Física Moderna. Todo o terceiro e último capítulo da obra é dedicada às relações entre cultura humanística, ciência e ocidente. Chamo a atenção para este livro porque há muito boa gente na nossa Universidade que, advogando um ensino de qualidade e uma investigação de ponta, ainda não se deu conta de que não há ciência sem cultura. É justamente porque a cultura não abunda nas nossas universidades que não abundam os cientistas, mas abundam os técnicos.

Segundo os defensores de uma educação humanística, e parafraseando Heisenberg, existem três razões a favor do estudo da história antiga e das línguas clássicas:

1) radicando toda a nossa cultura, isto é, as nossas formas de saber, de agir e de sentir, na antiguidade clássica, nomeadamente na arte, na poesia e na filosofia dos gregos, e depois na síntese operada pelo cristianismo entre a religião e a ciência, então sempre que queremos aprofundar as coisas em qualquer um dos sectores da vida contemporânea temos que regressar às estruturas espirituais constituídas na antiguidade e no cristianismo.

2) A força da cultura ocidental reside na estreita ligação entre formulações teóricas dos problemas e actuação prática. No domínio prático, outros povos  e outras culturas alcançaram um saber comparável ao dos gregos. Mas o que distinguiu, desde o primeiro momento, o pensamento grego do dos outros povos foi a aptidão para reduzir todos os problemas a uma questão de princípios teóricos, alcançando assim pontos de vista a partir dos quais foi possível ordenar a polícroma multiplicidade da experiência, tornando-a acessível ao pensamento humano. Quem estudou a filosofia grega esbarra a cada passo com a capacidade de formulação teórica e pode por isso exercitar-se, lendo os Gregos, no uso da mais poderosa ferramenta espiritual que o pensamento ocidental conseguiu criar.

3) O estudo do mundo antigo dota o homem de uma escala de valores em que os valores espirituais se situam acima dos materiais. A primazia do espírito é, de facto, imediatamente visível em todos os vestígios que os Gregos nos deixaram.

Traduzindo tão boas razões em conselhos práticos para o ensino das ciências na Universidade da Beira Interior, avanço a seguinte proposta: seja obrigatório em todos os cursos aqui ministrados o estudo da ciência, a ciência da ciência ou, dito em termos técnicos, a epistemologia. Talvez então muitos, docentes e discentes, ganhem consciência daquilo que andam aqui a fazer.

 

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Morreu há pouco mais de um mês Paul Feyerabend (1924-1994), o mentor do anarquismo epistemológico. Feyerabend estudou física, matemática e astronomia, e ensinou história e teoria da ciência na Universidade Berkeley nos Estados Unidos e no Instituto de Tecnologia de Zurique. A tese fundamental de Feyerabend é a de que a ciência é um empreendimento essencialmente anárquico e que o anarquismo teórico é mais humano e mais susceptível de encorajar o progresso do que as alternativas respeitadoras da lei e da ordem. O grito de guerra do anarquismo epistemológico é o de que anything goes, qualquer coisa serve. Um método científico, universal e necessário para todos os ramos do saber é um monstro que convém abater. É que não há uma única regra, ainda que plausível, e ainda que firmemente alicerçada em termos epistemológicos, que não tenha sido uma ou outra vez violada. Um dos aspectos mais relevantes dos debates sobre história e filosofia da ciência é a compreensão de que factos e revoluções cruciais, como a invenção do atomismo na Antiguidade, a Revolução Copernicana, a emergência do atomismo contemporâneo, a afirmação gradual da teoria ondulatória da luz, só ocorreram porque certos pensadores ou decidiram não se deixar limitar por certas regras de método "óbvias" ou porque inconscientemente romperam com elas.

A ciência não anda em cima de carris, mas avança aos coices e aos pinotes, alijando fora o que se julgava imprescindível e carregando o que se julgava que nunca iria carregar.

Outro aspecto não menos importante da obra de Feyerabend é o da relativização da ciência. A ciência é uma tradição entre muitas outras e uma fonte de verdade apenas para os que fizeram as escolhas culturais adequadas. Numa sociedade democrática deve ser separada do Estado, tal como é hoje o caso da religião. Não há factos nem modelos que possam garantir-lhe uma excelência privilegiada.

Aplicando a teoria de Feyerabend a Secretaria de Estado da Ciência teria os dias contados.

Existem dois livros de Paul Feyerabend traduzidos em português: Adeus à Razão (Edições 70) e Contra o Método (Relógio d’Água). Os dois estão na Biblioteca da UBI.