HISTÓRIA DAS TELECOMUNICAÇÕES EM PORTUGAL

(A versão em pdf contém gráficos

Rogério Santos

(1998-1999)

O conjunto de cinco textos reproduzidos em baixo foram escritos para a revista electrónica Bits & Bytes (1998-1999). Se alguns textos retomam investigações feitas por nós, outros textos tiveram em atenção especial a publicação, entretanto desaparecida.

 

(1) HISTÓRIA DAS TELECOMUNICAÇÕES EM PORTUGAL (MAIO DE 1998)

Em dois textos sequenciais, pretende dar-se um contributo à história das telecomunicações em Portugal, partindo do uso da telefonia vocal em finais do séc. XIX. Apesar da dimensão ligeira, analisar-se-ão os principais períodos desta História. No primeiro texto, apresentam-se as linhas fortes das telecomunicações até meados dos anos de 1930, acentuando o crescimento da telefonia vocal; no segundo, descrevem-se as décadas mais perto da actualidade, com as telecomunicações a tornarem-se multifuncionais, com a transmissão de voz, sons, dados e imagem.

Os anos pioneiros

Em 1877, no ano seguinte ao da descoberta do telefone por Alexander Graham Bell, as primeiras experiências com o aparelho tinham lugar no nosso país, ligando Lisboa e Carcavelos e os observatórios da Escola Politécnica e da Tapada da Ajuda, ambos na capital. Cinco anos depois, arrancavam as primeiras redes públicas nas cidades de Lisboa e Porto, a cargo da empresa privada Edison Gower Bell (mais tarde transferida para a APT - Anglo-Portuguese Telephone).

Em 1904 e 1905, novas redes alargavam-se a outros pontos do país, como Coimbra, Braga e Setúbal, a cargo dos CTT - Correios, Telégrafos e Telefones, empresa pertencente ao Estado. Nos anos iniciais, era ainda escassa a utilidade do telefone junto de empresas, comerciantes e profissões liberais, dada a boa qualidade do existente serviço de telégrafo. A primeira lista telefónica em Lisboa tinha somente 15 subscritores, entre os quais a agência de notícias Havas, os bombeiros voluntários da capital e o hotel Central. Rapidamente aderiam ao serviço o teatro D. Maria II, o Coliseu dos Recreios e o jornal Commercio de Portugal. Pequenas estórias publicadas na imprensa ajudaram a vulgarizar o aparelho, caso da ópera Laureana, escutada pelo rei D. Luís I no sossego do seu lar e não no teatro S. Carlos. Impedido de participar em actos públicos, por luto familiar, o rei pôde ouvir o seu género musical favorito, graças à ligação entre o teatro e o palácio da Ajuda, feita pela companhia de telefones. O lápis de Rafael Bordalo Pinheiro registou o evento para a eternidade. Estava-se em 1884.


A modernidade das telecomunicações nacionais

A partir de 1904, estabeleceu-se, por todo o país, um conjunto de redes telefónicas mais modernas. A ligação oficial entre Lisboa e Porto dava-se a 11 de Abril desse ano – e, como havia uma só linha, existiam diferentes categorias de prioridade. O rei e os seus ministros tinham acesso imediato; as chamadas com hora previamente combinada saíam mais baratas. Por seu lado, os jornais enviavam despachos por telefone, abandonando lentamente o serviço telegráfico. Embora ainda com assistência de telefonistas, instalavam-se novos equipamentos de comutação, implantavam-se cabos subterrâneos e efectuava-se a interligação entre redes das diferentes cidades do país.

Se os anos da década de 1910 foram apáticos em termos de actividade (com a Primeira República e a Guerra Mundial vieram desvalorizações monetárias e a escassez de equipamentos), a partir de 1923 invertiam-se os indicadores. Quer as redes do Estado quer as da APT conheceram uma forte expansão. Em finais da década de 20, os CTT tinham redes em cerca de 360 localidades e investiam 47 mil contos entre 1926 e 1934, especialmente para a modernização das redes. Ligações com o estrangeiro eram já possíveis para Espanha, França, Bélgica, Holanda, Itália, Reino Unido e Suíça, entre outros países. Nas redes da APT, a partir de 1930, montavam-se as primeiras centrais telefónicas automáticas, prescindido-se do trabalho das telefonistas, até então figuras centrais na comunicação vocal. Os jornais da época faziam o retrato desta retirada: "Aprumadas, nas suas batas brancas, [ ...] nos olhos de algumas empregadas afloram lágrimas de saudade, não por deixarem o emprego - que nenhuma foi despedida - mas por perderem aquele contacto com os assinantes, que tão grato lhes era".

A partir de 1936, lançavam-se os primeiros serviços de valor acrescentado: transmissão de desafios de futebol e de festas e concertos, serviço informativo, despertar e serviço de horas. Embora apenas com recurso à telefonia vocal, desenhava-se o futuro das telecomunicações, passando do telefone como aparelho de uma só função para um múltiplo conjunto de actividades que incluem a transmissão de voz, som, dados e imagem, assim como a entrada na indústria dos conteúdos, indicando convergências com outros sectores, como veremos no segundo episódio desta História.

 

(2) HISTÓRIA DAS TELECOMUNICAÇÕES EM PORTUGAL (JULHO DE 1998)

No texto anterior, abordámos as principais linhas de desenvolvimento das telecomunicações entre a década de 1880 e meados dos anos de 1930. Durante esses cinquenta anos, a telefonia vocal cresceu em número de clientes e em qualidade, e preparou-se para novos desafios tecnológicos e comerciais.

A comunicação através de telex e cabo submarino conheceu uma forte expansão, a cargo dos CTT e da Rádio Marconi (fundada em 1925). Por um lado, os contactos familiares ampliaram-se, por telefone e telegrama; por outro, difundiu-se o uso das telecomunicações nos negócios e na divulgação de informação através das agências noticiosas. O parque de acessos telefónicos aumentou vertiginosamente, abrangendo quer zonas urbanas quer regiões rurais (1935-1995), conforme o gráfico:

Após a estagnação sentida na segunda guerra mundial (1939-1945), o consumo de telecomunicações atingiu níveis elevados, consolidados nas décadas de 1950, 1960 e 1970. As redes telefónicas foram sendo automatizadas em todo o país e ilhas, processo que ficou concluído no ano de 1985. Começou a preparar-se a digitalização da comutação telefónica, arrancando as primeiras centrais telefónicas digitais em 1987, em Lisboa (Carnide) e Aveiro.

Serviços de telecomunicações

 Equipamentos, redes, serviços e conhecimentos técnicos sofreram uma evolução ímpar. Se, nas primeiras décadas, foi possível estabelecer uma cronologia muito precisa sobre os acontecimentos e as tecnologias, com o correr dos anos, os variados aspectos tornaram mais complexos e minuciosos os marcos históricos.

Na transmissão, passaram a coexistir gerações diferentes de redes, com recurso ao cabo de cobre, à fibra óptica e à rádio. A transmissão deixou de ser exclusivamente analógica e passou a incorporar tecnologias SDH e ATM. Na comutação, o trabalho manual da telefonista foi substituído por centrais automáticas electromecânicas e, depois, digitais. O acesso das redes de diferentes operadores e serviços obrigou a entendimentos entre fornecedores de equipamentos, operadores e utilizadores (débitos, protocolos).

Personalização, gestão e oferta de múltiplos produtos, foram palavras que entraram na linguagem corrente das telecomunicações. À ideia de um único serviço, o do telefone, sucedeu a realidade da panóplia de serviços adaptados a cada cliente, acabando com os monopólios. Com a oferta de múltiplos serviços nasceram novos saberes e profissões: o mundo das telecomunicações acabou com o técnico generalista e criou especializações.

Ao longo de cerca de 150 anos de telecomunicações (incluindo rádio, televisão, computadores e multimedia), os inventos, as aplicações e os serviços nunca pararam, conforme se observa no quadro:

As telecomunicações passaram a trabalhar num contexto de operadores em regime de concorrência, abrangendo a telefonia, os dados, os telefones móveis, a televisão e o multimedia. Em Portugal, a Telepac começou a sua actividade em 1985, liderando desde então o mercado de dados e Internet. O seu produto "Netpac" tem conhecido um enorme sucesso. Três anos depois, apareceram os primeiros telemóveis. O equipamento era pesado, fixo em automóveis, caro e com um raio de comunicação muito limitado. De um operador (TMN) passou-se a três (Telecel e Optimus, o último licenciado em 1997). Dos produtos com mais adesão junto do mercado destacaram-se o Mimo (TMN) e o Vitamina (Telecel).

Quanto à televisão por cabo, a TV Cabo Portugal arrancou em 1994, com a arquitectura da rede, comercializando os serviços em 1995. A oferta de variados canais temáticos tem vindo a crescer. O ano de 1994 foi ainda aquele que assistiu à criação da Portugal Telecom, resultado da fusão das anteriores operadoras de telecomunicações nacionais.

 

(3) OS COMPUTADORES E AS TELECOMUNICAÇÕES (AGOSTO DE 1998)

A investigação e desenvolvimento, a convergência de sectores como as telecomunicações e o entertainment, a história e o acontecimento sobre telecomunicações são assuntos, entre outros, que nos propomos explorar.

Os computadores e as telecomunicações

Nas últimas décadas, os computadores alteraram a vida tanto na empresa como no lar. Uma série múltipla de equipamentos rodeia-nos: televisor, rádio, vídeo, telefone com atendedor de chamadas, fax e computador. Em termos de informação recebida, a evolução foi rápida: se, no tempo dos nossos pais, o jornal era o principal meio, actualmente a rádio e a televisão inundam-nos com mais notícias e entretenimento. Rapidez, fiabilidade e versatilidade destes meios associam-se à qualidade de transmissão das telecomunicações.

 A idade do infomedia, dos meios de informação interactivos, alterou os nossos hábitos. Da conversa em volta da mesa passou-se para o consumo de imagens de televisão e o digitar do teclado de computador, em busca de novos horizontes e ideias. A noção do acontecimento presencial, ocorrido num único sítio e tempo, deu lugar à comunicação virtual: podemos falar para longe (via telefone e correio electrónico), podemos falar com outro tempo (as bases de dados residentes num computador estão sempre prontas a actualizar a nossa informação).

As velhas ferramentas dão lugar a outras mais recentes. Ao fonógrafo sucedeu o gira-discos e, mais recentemente, o leitor de discos compactos. A rádio, ouvida outrora em onda média, transmite-se em frequência modulada e, proximamente, em DAB (Digital Audio Broadcasting). O velho televisor a preto e branco desapareceu da nossa memória e, qualquer dia, o aparelho a cores é substituído por um equipamento de alta definição ou écran plano. O computador saltou do 286, 386 ou 486 para o Pentium, no espaço de pouco mais de meia dúzia de anos.

No aparecimento dos novos media, a luta trava-se intensamente em torno dos standards das máquinas de comunicação. Hoje, algumas baseiam-se no ecrã de televisão, mas a maioria aposta nas plataformas de computadores pessoais. Se o uso dos aparelhos de televisão pareceu o modo mais rápido de avançar com os novos media, dada a sua maior penetração relativamente aos computadores, há hoje uma base encorajadora de computadores instalados. Uma estatística de Agosto de 1995 indicava que, só nos Estados Unidos, estavam ligados a serviços multimedia 8 milhões de computadores pessoais. Como estes têm um uso mais interactivo que a televisão, vista como fonte de lazer e de maior descontracção, o aumento de aquisições de computadores disparou. Em termos de consumo, enquanto a televisão é utilizada fundamentalmente no seio familiar, o uso do computador pessoal e das tecnologias de informação apresenta um carácter mais universal. Além disso, a resolução gráfica de um computador pessoal permite obter melhores imagens do que um aparelho de televisão, o que estimula os seus utilizadores.

Comparem-se as existências de três dos meios de comunicação mais usados actualmente em alguns países, incluindo Portugal (aparelhos por 100 habitantes; dados da UIT, 1994):

Se os valores de aquisição de televisores ou equipamentos telefónicos tendem a estabilizar, nota-se uma alteração profunda em termos de diversidade de serviços oferecidos e mudança de perfis de consumo. Tal é visível nos telefones móveis, nos computadores pessoais, nas ligações de televisão por cabo e de acessos à Internet, que registam uma tendência para uma grande expansão.

Os equipamentos informáticos - até há pouco fechados em si, e com um único utilizador por máquina -, ligam-se à rede telefónica (Internet), acompanhados pela maior articulação nos standards de televisores e computadores, o que explica como as transformações tecnológicas têm um grande impacto na sociedade em que vivemos.



(4) INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, ROBÓTICA E LITERATURA (OUTUBRO 1998)

Em 4 de Julho de 1997, a sonda americana Mars Pathfinder aterrava em Marte, começando a transmitir para a Terra impressionantes imagens. Dois dias depois, um pequeno robot móvel, o Sojourner, rolava na superfície daquele planeta e enviava novas imagens, informações químicas e dados meteorológicos, num total de 2,5 milhões de bits de informação.

Cumpria-se um sonho na navegação interplanetária. A astronáutica, a robótica e as telecomunicações, entre outras áreas de trabalho, haviam tornado possível tal concretização. A estrela da viagem foi, sem dúvida, o pequeno robot. A aventura de máquinas inteligentes, associada ao pensamento científico e racional no ocidente, começou há muito tempo. O seu aparecimento e desenvolvimento seguem de perto as efabulações da literatura e remontam à Grécia clássica, se não antes.

Relógios e criaturas

O controlo do tempo e do movimento e a criação da vida foram sempre objectivos essenciais para vencer a natureza. O relógio organiza o fluxo do tempo. Se os primeiros relógios foram hidráulicos (clepsidras), os seguintes adoptaram tecnologias mecânicas e os actuais recorrem à electrónica. Os relógios mecânicos faziam-se acompanhar, com frequência, por cenas ou figuras humanas. Para além da hora e do minuto, indicavam o dia, o mês e até as estações do ano, com figuras em movimento que tocavam campainhas e gongos. Os ponteiros dos relógios actuais correm por cima de imagens e paisagens.

O tempo e o movimento associaram-se aos autómatos, sendo o séc. XVIII o período áureo destes mecanismos. Em 1748, o médico La Mettrie publicou a obra intitulada O homem-máquina. Para ele, "o corpo é apenas um relógio, mas imenso, e construído com tanto engenho e habilidade".

Dos autómatos mecânicos, o homem saltou para a máquina com vida. Por inúmeras vezes, a literatura fantástica descreveu a metáfora do ser artificial vivo. Um dos mitos literários mais antigos é o de Pigmaleão, rei de Chipre que criara uma estátua feminina de mármore, Galateia de nome, e por quem se apaixonou. Dotada de grande beleza, só lhe faltava falar e mexer para ser igual a um ser humano. Afrodite, a deusa do amor, concedeu vida a esta "mulher artificial" e acabou com as dificuldades do rei. É que as suas esposas não lhe haviam dado qualquer descendência, causando compreensíveis problemas.

Na literatura, surgiu o fabrico do homem compatível, que funciona mas não está dotado de códigos éticos e morais. Possuía as vantagens do pensamento, da iniciativa e da palavra, mas sem o referente da liberdade e da solidariedade, que o cinema conhece com os clones, mutantes ou replicantes humanos em, por exemplo, Blade Runner.

Já no começo do séc. XIX, Mary Shelley descrevia, no romance Frankenstein, uma personalidade artificial. O cientista Frankenstein roubava, de noite, pedaços de cadáveres para construir um "ser humano" capaz de agir e pensar, mas o resultado foi uma criatura sem alma e consciente da sua monstruosidade. A construção do ser vivo atingiu todo o dramatismo da incapacidade de criação, agora posta de novo em discussão após a clonagem da ovelha Dolly.

A cibernética

A ciência e a tecnologia promovem dois tipos de investigações - a automação e a cibernética. O controlo do homem através das máquinas guiadas por opções políticas também foi tema da literatura do pós-segunda guerra mundial. Dois dos principais exemplos encontram-se nos livros de George Orwell (Mil novecentos e oitenta e quatro) e Aldous Huxley (O admirável mundo novo). A vigilância das actividades pessoais, a persuasão e a consensualidade à volta dos discursos dos líderes e dos chefes fizeram parte dos receios destes escritores, no momento em que a rádio atingia o zénite como meio de comunicação de massas.

A cibernética ganhou o seu sentido moderno quando Norbert Wiener escreveu Cybernetics: or control and communication in the animal and the machine. A cibernética tinha um uso antigo - a palavra grega kubernan quer dizer "dirigir" e Platão empregou kubernetike para designar a arte de pilotagem e de governar - o governante é o que está à frente, toma decisões e se responsabiliza por elas. Os sistemas descritos por Wiener compreendem órgãos ditos soberanos, que integram a informação e tomam decisões, e escravos, servomecanismos que executam as instruções.

 Wallace e Shannon construiriam, em 1952, algumas máquinas que procuravam encontrar o seu caminho através de um labirinto, com um programa comportando um conjunto de operações (avançar, voltar, etc.). Um segundo programa, dotado de retroacção, comandava as operações a realizar face ao efeito da anterior operação. Possuía ainda um feedback de acumulação, constituído por uma sequência de operações vitoriosas. Uma máquina mais evoluída disporia de diversos sistemas: sensorial, nervoso central, expressão e motor.

Em 1953, Grey Walter apresentou o livro O cérebro vivo. Combinando poesia, humor, electrónica e neurologia, escreveu sobre máquinas capazes de imitar as performances do organismo vivo. Assim, seres técnicos nasciam ao lado dos seres vivos. Cinco anos depois, George Simondon, em Du mode d’existence des objets techniques, reflectiu nas mudanças produzidas pela era do autómato. Uma operação técnica complexa exige a utilização de duas formas de memória: a do homem que, mesmo com muitos anos de diferença, evoca situações com o mesmo tipo de significações e sentimentos (ou as altera), e a da máquina, conservando fielmente os detalhes de uma qualquer mensagem.

Na transição do modelo mecânico para o modelo electrónico da informação aceleraram-se as velocidades de circulação da produção e da distribuição. Daí o interesse na produção de um cérebro artificial, combinando a percepção humana com a velocidade e capacidade de armazenamento e distribuição de informação. O estudo dos robots representa uma das direcções fundamentais do trabalho da inteligência artificial, ciência que pretende imitar a actividade mental do homem por meio de máquinas electrónicas (Roger Penrose, A mente virtual, 1998). Os robots transformam-se em organismos que pensam, comunicam (telecomunicações, computadores) e têm comportamentos morais.

Há, contudo, perspectivas pessimistas neste desenvolvimento. Se, no princípio da década de 1920, o autor checo Karel Capek criou, na peça R.U.R., a palavra robot (trabalho), o termo ficou carregado, ao longo dos anos, de significados e conotações negativas. Utilizar criaturas artificiais ou clonadas na execução de trabalhos perigosos ou elaborar e manipular espécies biológicas podem trazer consequências não previsíveis para o futuro da humanidade, pelo que toda a ponderação ética deve ser aplicada.

 

(5) JORNAIS ELECTRÓNICOS (MAIO DE 1999)

Neste momento, estima-se haver cerca de 117 milhões de utilizadores da Internet em todo o mundo, entre profissionais e residenciais (Dennis McQuail e Karen Siune, 1998, Media policy), com 70 milhões nos Estados Unidos, 23 milhões na Europa e mais de 7 milhões na Ásia e Japão. A previsão de 280,7 milhões para o ano 2002 (relatório do IDATE, editado em finais de 1998) vai ser, certamente, revista em alta, quando nos aproximarmos desse ano. De entre os principais serviços utilizados na Internet, contam-se a telefonia, o comércio electrónico e os serviços de acesso de alta velocidade.

Outra das áreas em crescimento é a dos jornais electrónicos. Basta ver as páginas da Internet e consultar as últimas edições do Expresso, Público ou Diário de Notícias. Mas a lista de jornais de qualidade ou populares, revistas e, até, jornais particulares (feitos artesanal­mente, com perspectivas estéticas, políticas ou religiosas bem vincadas mas sem intuitos comerciais) cresce a um ritmo impressionante. Este nosso Bits & Bytes é um bom exemplo de jornal/revista electrónico.

Na informação sobre telecomunicações - também associadas à informática, às novas tecnologias e aos media -, surgem jornais electrónicos de qualidade e informação actual, que devem ser consultados amiudadamente. Um dos exemplares é o Information Society Trends, da DG XIII, da União Europeia (http://www.ispo.cec.be/ispo/press.html). Na informação divulgada há espaço para o multimedia, a legislação comunitária, a vida das empresas e as questões sociais da sociedade da informação. As notícias são breves e sintéticas como se impõe a um jornal que se pretende de leitura fácil e rápida.

Outro jornal que acompanhamos com particular interesse é o Noticias Intercom, oriundo de um grupo espanhol de comunicação (http://www.noticias.com). Distribuído diariamente também no correio electrónico, o Intercom fornece os últimos dados sobre informática e telecomunicações. O princípio de trabalho deste jornal electrónico é simples. Um a dois redactores recolhem informação em todos os jornais ou revistas publicados, nomeadamente no mundo de fala hispânica, sobre as áreas de trabalho objecto da publicação, e fazem uma versão resumida dos acontecimentos e notícias, citando a fonte de origem. O Intercom funciona um pouco como o sistema de recortes de imprensa feito para se saber o que os jornais dizem sobre a nossa empresa. Tal projecto implica uma leitura atenta e contínua das notícias e a ligação a agências de informação especializadas. Assim, no espaço equivalente a três, quatro ou mais páginas A4 diárias, um decisor ou técnico de telecomunicações fica actualizado com a informação sobre a sua área de actividade.

Um terceiro jornal que consideramos importante para a recolha de informação é o Edupage. Boletim trissemanário do "Educause", consórcio de instituições académicas norte-americanas, tem uma versão em língua portuguesa a cargo do ministério brasileiro de Ciência e Tecnologia. Este jornal electrónico, um pouco na linha do espanhol Intercom, apresenta resumos de notícias publicadas em diários ou revistas americanos (subscrição do serviço: enviar mensagem SUB EDUPAGE-P para listproc@ci.rnp.br).

Há diversas razões para o surgimento destes jornais especializados. Uma primeira explicação reside no facto das áreas de trabalho destes jornais serem a informática e as telecomunicações. Logo, nada melhor do que veicular as notícias através de meios electrónicos sofisticados. Como segunda razão, não há constrangimento de espaço num jornal electrónico. Devido ao hipertexto (com links para outras áreas de interesse), permite-se saltar de um texto para outro texto ou imagem, numa navegação aleatória mas fascinante, em descoberta de nova informação. Outra razão reside na possibilidade de negócio permitida por este novo medium. A Internet é já um meio de comunicação sólido na publicidade e venda de serviços. Basta pensar no sucesso da venda electrónica de livros na "Amazon". Uma quarta razão para o crescimento dos jornais electrónicos é a multiplicidade de propostas, que vão de notícias sobre tecnologias a revistas de crítica e criação literária. Finalmente, o êxito destes jornais ou netzines, como também lhes chamam, articula-se com a possibilidade experimental. Novas linhas estéticas quer nos textos quer nas imagens quer nos grafismos que os acompanham dão conta de uma jovem geração de agentes criativos usando a Internet, rede que já começou a ser designada como quarto medium.

Se os valores de aquisição de televisores ou equipamentos telefónicos tendem a estabilizar, nota-se uma alteração profunda em termos de diversidade de serviços oferecidos e mudança de perfis de consumo. Tal é visível nos telefones móveis, nos computadores pessoais, nas ligações de televisão por cabo e de acessos à Internet, que registam uma tendência para uma grande expansão.

Os equipamentos informáticos - até há pouco fechados em si, e com um único utilizador por máquina -, ligam-se à rede telefónica (Internet), acompanhados pela maior articulação nos standards de televisores e computadores, o que explica como as transformações tecnológicas têm um grande impacto na sociedade em que vivemos.