Os Estudos da Comunicação na Universidade

Adriano Duarte Rodrigues, Universidade Nova de Lisboa



1. Introdução

Fundada, na Europa, em meados do século XIII, a instituição universitária tem como função principal a produção e a transmissão de um tipo de saber distinto dos saberes míticos e tradicionais. Enquanto estes últimos são aprendidos no seio da comunidade e transmitidos de geração em geração, o saber universitário fundamenta-se na indagação dos fenómenos da experiência racionalmente conduzida. O aparecimento da Universidade está, por conseguinte, associado ao projecto moderno de emancipação do homem em relação aos ditames da tradição.
Indagar racionalmente os fenómenos é procurar as leis, as regras, os princípios explicativos da sua natureza e do seu funcionamento. Ao contrário dos saberes tradiconais, o saber universitário não é baseado em explicações transcendentes ou míticas nem na autoridade de um mestre, mas no uso metodicamente conduzido das faculdades humanas de discernimento.
A Universidade desempenha igualmente outras funções, das quais destacaria três: a função pedagógica, de transmissão dos conhecimentos, a função profissionalizante, de preparação para o desempenho de ofícios úteis à comunidade, e a função de prestação de serviços à comunidade, de resposta a solicitações que lhe são formuladas pelas outras instituições. Mas estas funções são subsidiárias, complementares e dependentes do desempenho da sua função científica principal, que consiste na produção de conhecimentos racionalmente fundados na prática do discernimento. Quando falha ao cumprimento da sua função própria e específica, a Universidade acaba também por falhar no desempenho das funções subsidiárias. A transformação das funções subsidiárias em funções principais resulta do não desempenho da sua função propriamente científica e está na origem de diversos vícios, a que podemos dar o nome de pedagogismo, de activismo e de instrumentalização.
O pedagogismo consiste na reprodução de saberes cuja produção a Universidade não controla. Uma das manifestações do vício do pedagogismo é o ensino livresco, que consiste em reproduzir conhecimentos que foram produzido noutros contextos e em resposta a questões que não foram formuladas pelos seus próprios docentes.O activismo consiste numa agitração em torno de funções secundárias, com a consequente perca do tempo para o questionamento e para o trabalho de discernimento, para parar e olhar de novo para os fenómenos, sobrepondo às funções científicas o ensino de receitas todo-feitas com vista à aprendizagem de tarefas profissionais rotineiras.
A instrumentalização consiste em deixar que os seus objectos de saber sejam ditados por interesses estranhos ao questionamento racional dos fenómenos. A instrumentalização converte a Universidade em mantenedora do status quo, de visões parcelares, tornando-a dependente dos interesses dominantes, dos interesses promovidos por outras instituições, em particular pelas instituições política, empresarial, económica e cultural.
Qual é então o lugar que os estudos sobre a comunicação ocupam na Universidade?
O diagnóstico que podemos fazer dos estudos da comunicação leva-nos a concluir que se trata de um domínio de saber relativamente marginal ao saber universitário, uma vez que que estes estudos não asseguram habitualmente uma função científica, mas as funções subsidiárias da pedagogia, da profissionalização e da prestação de serviços. Mais do que nas outras áreas do saber, na área da comunicação assistimos a um ensino insuficientemente crítico, em que predominam portanto as visões espontâneas do senso comum, mais interessadas em transmitir conhecimentos úteis do ponto de vista profissional do que em questionar a experiência comunicacional.
É por isso que a comunicação continua a ocupar um lugar paradoxal no seio da Universidade. É, por um lado, uma área em expansão, preferida por um número crescentes de candidatos ao ensino superior, mas é, por outro lodo, uma área em que o esforço pedagógico e profissionalizante se sobrepõe ao trabalho científico, tornando-se por isso uma área desacreditada, olhada com suspeição por parte das outras áreas do saber.
Como inverter esta situação e fazer com que os estudos de comunicação ocupem um lugar científico idêntido ao lugar que ocupam as outras áreas do saber universitário? Apontaria quatro tarefas urgentes e prioritárias.
 

2. Para uma genealogia da questão comunicacional

Em primeiro lugar, proponho que se proceda a um trabalho a que darei o nome de genealógico. Trata-se de descortinar a própria génese da comunicação como questão. Para este trabalho alguns autores podem servir de bússula.
Devemos começar por reler os Gregos, que foram os primeiros a autonomizar o fundamento moderno do saber em relação aos fundamentos míticos das crenças e das opiniões. Mais do que ninguém, são os primeiros gigantes que suportam a viragem da racionalidade, viragem que fez emergir, na história do pensamento racional da nossa cultura ocidental, a comunicação como questão. Leria então a Odisseia e a Ilíada, para compreender em que medida a escrita dos mitos tradicionais consistiu num primeiro gesto dessacraliznte e para apreender a sabedoria que Homero retirou desses mitos. De Platão leria sobretudo Protágoras, Fedro, Górgias, a República. De Aristóteles, leria sobretudo a Poética, a Retórica, a Ética de Nicómaco e o Organon. Aprenderia com os Estóicos o trabalho de formalização da linguagem ainda hoje inultrapassável.
Percorreria em seguida os trabalhos dos autores que ficaram associados às grandes viragens do pensamento racional, confrontando-o com os paradigmas científicos dominantes. Destacaria a querela da Idade Média entre os iconoclastas e os iconolatras, para perceber o lugar que a imagem ocupa no processo de representação. Leria os Cadernos de Leonardo da Vinci , para compreender a importância que a invenção do dispositivo da perspectiva teve para a elaboração das técnicas imagéticas do nosso tempo. Repensaria as Meditações e o Discurso do Método de Descartes, as três críticas, da Razão Pura, da Razão Prática e da Faculdade de Julgar, de Kant e leria de Nietzsche, A Gaia Ciência, a Terceira Intempestiva e Assim Falava Zaratustra, para compreender o questionamento que este autor fez da racionalidade moderna.
 

3. A delimitação das fronteiras da questão comunicacional

Em segundo lugar, procuraria delimitar as fronteiras da área da comunicação em relação às outras áreas de saber, procurando definir a sua especificidade. Temos à nossa disposição duas maneiras de realizar esta tarefa, a material e a formal. Segundo a maneira material de delimitar esta área de saber, a comunicação abrangeria a oralidade, a escrita, o audiovisual e o multimedia. Mas esta maneira de delimitar a área da comunicação é muito insuficiente. Cada uma destas áreas é também estudada por outras dsciplinas, nomeadamente pela antropologia, pela letras e pelas belas artes. Além disso, muitas questões importantes colocadas pela comunicação não são redutíveis à materialidade das suas manifestações, mas exigem uma elaboração teórica específica e transversal a essas materialidades.
É por isso que proponho que as fronteiras da comunicação sejam delimitadas formalmente, tendo como critério uma perspectiva propriamente comunicacional. A comunicação surge assim como domínio em que se processam as trocas simbólicas e se constituem, se alimentam, se reproduzem e se restabelecem as relações intersubjectivas da sociabilidade. Para este trabalho, o Ensaio sobre a Dádiva de Marcel Mauss pode servir-nos de orientação . É neste ensaio que as relações intersubjectivas da sociabilidade nos aparecem como o resultado de processos ambivalentes, dotados ao mesmo tempo de reciprocidade e de transitividade. São estes processos que caracterizam igualmente a natureza dialógica da linguagem e que estão na origem dos actuais estudos de pragmática da comunicação .
 

4. O problema da interdisciplinaridade dos estudos da comunicação

Em terceiro lugar, proponho que se proceda a uma autêntico trabalho de interdisciplinaridade, relacionando o domínio da comunicação com os outros domínios do saber. Não se trata de uma simples afirmação ideológica da interdisciplinaridade, mas de uma prática efectiva da interdisciplinaridade, a partir de um trabalho qaue consiste em repensar criticamente a circulação dos conceitos, dos paradigmas, dos modelos e dos procedimentos de análise, através das diferentes disciplinas modernas. Assim, por exemplo, encontramos os conceitos de estrutura, de função, de informação, de código tanto nas ciências da comunicação, como em matemática, em biologia, nas ciências sociais, em antropologia, nas ciências da linguagem. O que há de comum e de diferente no uso que estas diferentes disciplinas fazem destes conceitos? A partir do discernimento destas semelhanças e destas diferenças, estamos em condições de clarificar aquilo que é específico ao uso que os estudos da comunicação fazem destes conceitos, destes modelos, destes paradigmas, destes procedimentos. Como bússula que pode orientar-nos neste trabalho, temos hoje à nossa disposição os trabalhos de autores que se dedicam à epistemologia das ciências.
 

5. As componentes da experiência comunicacional

Em quarto lugar, tentaria sistematizar as diferentes componentes que constituem a experiência comunicacional. De todas as tarefas propostas esta é sem dúvida a mais problemática, uma vez que ela depende do avanço das tarefas precedentes que estão em grande medida por fazer. No entanto, ainda que de maneira provisória, atrevo-me a distinguir três componentes: a discursiva, a técnica e a institucional. 5.1 A componente discursiva A partir da delimitação do enunciado
como unidade do discurso, proponho que se procure entender as relações do enunciado com o processo de enunciação assim como as regras de encadeamento dos enunciados. Podemos partir das intuições de John Langshaw Austin , dos trabalhos de Emile Benveniste , de Paul Grice , de John Searle , de Michel Foucault , de Deleuze e Guattari , de Dan Sperber e Deirdre Wilson . 5.2 A componente técnica A actual tecnicização da experiência comunicacional resulta das transformações recentes da própria experiência técnica, com o seu acesso ao domínio da linguagem e com a sua constituição, sob a forma de redes, em sistemas análogos aos sistemas que regulam a natureza e o funcionamento dos seres vivos. Esta biologização da técnica é inseparável da distinção entre dois domínios que
estavam tradicionalmente imbricados um no outro, o domínio da experiência comunicacional e o domínio da informação mediática.
Para compreendermos este devir logotécnico e esta biologização da técnica, considero imprescindível o confronto com as obras de Martin Heidegger e de Gilbert Simondon . 5.3 A componente institucional É a experiência comunicacional que garante às instituições modernas a sua constituição como campos autónomos, destinados a garantir a criação, a promoção, a inculcação, a preservação e o restabelecimento de valores próprios. É por isso imprescindível dar conta desta última componente da experiência comunicacional. Podemos seguir para a abordagem desta componente as obras de Pierre Bourdieu , de Michel Foucault e de Jürgen Habermas .