Diários públicos, mundos privados:
Diário íntimo como género discursivo e suas transformações na contemporaneidade

Rosa Meire Carvalho de Oliveira
Universidade Federal da Bahia


Índice

Dissertação apresentada ao Mestrado em Comunicação e Cultura Contemporâneas, da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, em cumprimento ao requisito parcial à obtenção ao grau de mestre, sob orientação do Professor Doutor Marcos Silva Palacios.



Aos meus amigos,
verdadeiros irmãos
em todas as minhas caminhada

Agradecimentos

E aprendi que se depende sempre
de tanta muita, diferente gente,
toda pessoa sempre é as marcas
das lições diárias de outras
tantas pessoas

Gonzaguinha

Ao Professor Doutor Marcos Palacios, por ter se interessado, desde o início, em orientar o projeto de mestrado e por ter compreendido esplendidamente a natureza do meu ritmo de trabalho. A minha liberdade de atuação foi fundamental para que a pesquisa pudesse produzir os efeitos que esperávamos.

À professora Cinthia Gannett, diretora do Departamento de Inglês da Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos, a quem devo o sucesso de boa parte de minhas pesquisas sobre o diarismo. Graças à sua generosidade, desprendimento e espírito cooperativo, tive acesso a referências bibliográficas importantes, que me levaram a compreender a origem, evolução e funções dos diários tradicionais.

Aos colegas e professores do Grupo Ciberpesquisa da Facom, especialmente aos companheiros do Grupo de Estudos em Arte e Sociabilidade no Ciberespaço (GREC), cujos debates constantes foram muito úteis ao desenvolvimento da pesquisa.

Ao professor Luiz Guilherme Pontes Tavares, amigo de muitas horas, de quem nunca faltou a disposição para ler e reler várias vezes a dissertação; também pelas observações e sugestões valiosas.

Ao professor Aníbal Bragança, da UFF, pela valiosa indicação bibliográfica. Seu único e-mail contendo uma pequena mostra da generosidade do seu coração produziu efeitos grandiosos no andamento da pesquisa.

À Maria Cristina Ferraz Coelho (Tina), por estar presente nesta e em outras caminhadas, sempre disposta a me socorrer e me escutar.

Ao Professor Doutor Wayne A. Selcher, do Ellizabethtown College, na Pensilvânia, por todo apoio emprestado durante a pesquisa, pelas horas que gastou em meu favor à procura dos melhores links e das informações mais úteis.

À Adriana Pedreira Telles Pereira, amiga de muitas horas, que conhece como ninguém o significado da palavra solidariedade. Meu agradecimento especial por ter empregado parte do precioso tempo na correção dos capítulos.

À Dinamérica Ribeiro Nogueira, amiga querida, por encorajar a minha caminhada e ocupar sempre um lugar privilegiado na torcida.

À Edméa Santos, com quem passei muitas horas trocando figurinhas, e cuja amizade e inteligência só vieram a somar ao enriquecimento do projeto de pesquisa.

À Marlize Prisco Paraíso Rêgo, amiga querida, por ter emprestado à pesquisa parte do tempo precioso na leitura de alguns capítulos; pela inteligência e pelas valiosas contribuições.

À minha família, acima de tudo, por ter me dado a oportunidade de aprender a reconhecer o valor da amizade.

Toda palavra tem sempre um mais-além,
sustenta muitas funções
envolve muitos sentidos
Atrás do que diz um discurso,
há o que ele quer dizer e,
Atrás do que quer dizer,
há ainda um outro querer dizer,
e nada será nunca esgotado.
(Lacan)

Introdução

Do tema

Esta dissertação busca refletir sobre o fenômeno dos diários íntimos on-line, situado como um acontecimento no âmbito da cultura contemporânea mundial, que se configura dentro de um meio técnico de produção e alcance globais, a internet. Para alcançar este objetivo, buscamos, primeiro, trazer à luz a evolução dos diários íntimos tradicionais desde o seu surgimento e marcar a passagem deste gênero de discurso do suporte manuscrito/impresso para a tela do computador, após serem disponibilizados na internet.

Admitir a existência de diários on-line, os ciberdiários, exige assinalar o pertencimento do diário ao campo dos chamados gêneros do discurso e situá-lo com características próprias que o diferenciam de outros gêneros discursivos. Para nos ajudar a fazer este percurso, lançamos mão dos estudos estabelecidos pelo teórico e historiador da literatura, o russo Mikhail Bakhtin , cujo trabalho veio a lume no início da década de 60; bem como das idéias de Tzevetan Todorov, outro estudioso do assunto, publicadas na França na década de 70, e do teórico francês, Philippe Lejeune.

Segundo Bakhtin, sempre que usamos a língua para nos comunicar de forma oral ou por escrito, nas várias esferas da atividade humana, recorremos a algum gênero de discurso. Eles são tipos relativamente estáveis e normativos de enunciados, mas bastante diversos, dadas as infinitas potencialidades das formas de discurso (atos de fala) que a língua configura nos diversos campos sociais. Os gêneros de discurso vão:

desde a simples réplica do diálogo cotidiano, a carta, a ordem militar padronizada, documentos oficiais, o universo das declarações públicas (sociais, políticas, etc), às formas de exposição científica (teses e dissertações) e todas as formas literárias (desde o ditado até o romance volumoso) (Bakhtin: 279-280).

Ele observa que o estilo lingüístico ou funcional está indissoluvelmente ligado ao gênero. "Uma dada função (científica, técnica, ideológica, oficial, cotidiana) e dadas condições, específicas para cada uma das esferas da comunicação verbal, geram um dado gênero, ou seja, um dado tipo de enunciado, relativamente estável do ponto de vista temático, composicional e estilístico", diz Bakhtin (284). "(...) todos sabem que não se deve enviar uma carta pessoal no lugar de um relatório oficial, e que os dois não se escrevem da mesma maneira. (...) a escolha efetuada por uma sociedade entre todas as codificações possíveis do discurso determina o que se chamará seu sistema de gêneros", diz Todorov (1980, p. 21).

Dentro do universo de enunciados orais e escritos, simples e complexos, o estilo individual, está sempre presente na escolha dos gêneros do discurso. Quanto menos formal o estilo, mais próximo estaremos de um tipo de discurso onde a individualidade estará presente; ao contrário, a escolha por formas enunciativas padronizadas, diretivas, por um estilo mais formal, como aquele presente em documentos oficiais, por exemplo, produz as circunstâncias onde o estilo pessoal do indivíduo é mais difícil de aparecer.

Há, portanto, gêneros mais formais e outros mais maleáveis, considerados mais livres e mais criativos. Estes últimos refletem o modo como estão configuradas as relações sociais e as posições entre os parceiros, atores da comunicação, a exemplo do que acontece nas relações familiares e de intimidade. ``A expressão da individualidade e do espírito criativo'' conforme Bakhtin -, dependem de como se dominam com desembaraço os gêneros (Bakhtin:301-304).

O romance, por ser um gênero discursivo literário, seria ,então, o lugar onde este espírito criativo supostamente se realizaria com mais precisão. Sendo um gênero discursivo de tipo secundário, ele absorveria uma série enorme de tipos do discurso primário, valorizando a complexidade de sua forma.

Embora pela grande diversidade dos gêneros haja dificuldade de se uniformizar suas características, Bakhtin lembra que a língua é o elemento unificador entre todos os gêneros. Estes são divididos em tipos primários (simples) e secundários (complexos), de acordo com a natureza e os elementos presentes no enunciado.

O gênero primário é entendido como aquele constituído num contexto de uma comunicação verbal espontânea, como o diálogo, a carta, o diário. Já o gênero secundário apresenta-se num contexto comunicacional mais complexo. Utiliza-se, para tanto, do discurso primário, que adequa sua natureza para compor enunciados mais elaborados como o romance, a escrita científica, a peça de teatro etc. Ele aparece principalmente na escrita artística (literária) , científica, sociopolítica.

O diário como gênero discursivo

É na alternância locutor ``ouvinte'' locutor que Bakhtin acredita se configurar o diálogo real estabelecido pelo enunciado entre sujeitos-falantes. "O ouvinte dotado de uma compreensão passiva, como mostram os esquemas da lingüística geral, não corresponde ao protagonista real da comunicação verbal", diz Bakhtin.

Ao alternar os tempos de fala do enunciado, o autor-narrador automaticamente lança mão de um gênero discursivo e o coloca em processo, através do conteúdo, do estilo e dos elementos composicionais. Neste conjunto se localiza o "querer-dizer" do autor-narrador, que se realiza no momento da escolha do gênero discursivo. A interação entre enunciados completos (alternância de sujeitos-falantes) é a base desse diálogo, que pressupõe um outro.

Por estar inserido num contexto de comunicação verbal espontânea, o diário é considerado por Bakhtin como um gênero discursivo de tipo primário. Ao contrário de outros estilos-gêneros, como a réplica do diálogo, a carta, a obra científica ``que conseguem realizar o que Bakhtin considera o "diálogo real", a alternância de sujeitos-falantes'', o diário como estilo íntimo revela uma fusão entre locutor e destinatário.

O acabamento do enunciado, que se revela na alternância dos sujeitos-falantes, encontra muitas vezes no diarista o próprio destinatário:

O discurso íntimo é impregnado de uma confiança no próprio destinatário, na sua simpatia, na sensibilidade e na boa vontade de sua compreensão responsiva. Nesse clima de profunda confiança, o locutor desvela suas profundezas interiores. É isso que desperta a expressividade particular e a franqueza interior desses estilos (Bakhtin: op. cit. p. 323).

Todorov diz que é a codificação das "propriedades discursivas" que definem um gênero discursivo, seja ela literário ou não-literário: "A autobiografia se distingue do romance pelo fato de o autor pretender contar fatos e não ficções", exemplifica (1980, p. 48).

Além disso, conforme vai lembrar mais adiante, também neste gênero há outra propriedade discursiva importante, que é a coincidência entre "autor e narrador e do autor com a personagem principal" (op. cit. p. 57). Todorov diz que a identidade autor-narrador é que vai separar todos os "gêneros referenciais" ou "históricos" de todos os "gêneros ficcionais".

Neste caso, o que está em jogo é a prova da verdade, do testemunho do sujeito histórico, que não se aplica à ficção. Esta trabalha com o critério da verossimilhança em contraposição ao critério da verdade aplicado aos gêneros referenciais. "A narrativa autobiográfica é uma prosa que uma pessoa real faz de sua própria existência, acentuando a vida individual, em particular, sobre a história de sua personalidade", define Philippe Lejeune (1996, p. 14)

Em Le Pacte Autobiographique, Lejeune revela que a autobiografia obriga a identidade entre autor, narrador e personagem. Neste sentido, o diário, como forma de escrita autobiográfica, codificada pela fusão entre autor-narrador (sujeito da enunciação é o mesmo sujeito do enunciado), também vai exibir outros elementos que o codificam discursivamente e acabam por diferenciá-lo de outras formas de narrativas autobiográficas, como a autobiografia, a biografia e a memória.

Em relação ao tempo, o diário se diferencia pelo fato de não cultivar a forma narrativa sob retrospectiva, como fazem a memória, a biografia e a autobiografia. Ele se atém ao momento presente, registrando no dia-a-dia fatos e eventos. Em relação à biografia, além da memória em retrospecto, a identidade autor-narrador pode coincidir ou não. "O importante é que, se o autor emprega a primeira pessoa, não é para falar do personagem principal da história". Isto porque, na biografia, "a semelhança deve fundar a identidade". Ou seja, não há uma colagem identitária entre autor-narrador. Já na autobiografia, ao contrário, "a identidade é que vai fundar a semelhança", lembra Lejeune (op. cit, p. 38). Na memória, por sua vez, há coincidência entre autor-narrador, mas o gênero se diferencia em relação aos diários, pelo narrativa em retrospectiva.

Literário e não-literário

Ao analisar os gêneros de discurso, Todorov põe em discussão também o conceito de literário e não-literário. Embora ele admita que a idéia corrente referencie o termo literário ao que é ficcional ("já que o texto não se submete à prova da verdade"), o autor prefere tratar os gêneros literários como atos de discursos e, por isso, "nada mais são além de tal escolha entre os possíveis do discurso, tornado convencional por uma sociedade" (op. cit., p. 21). No caso dos diários, convencionou-se definir diários como literatura aqueles que são freqüentemente publicados e tornam-se produtos de consumo de massa. Os demais, que permanecem nos porões e nos baús, parecem-nos manter o caráter de gênero discursivo não-literário, tratados quando conhecidos, apenas como diários e não como literatura.

Do desenvolvimento do tema

Um enfoque evolutivo da tradição dos diários, que marque a passagem para os diários on-line, torna necessário, em primeiro lugar, uma abordagem sobre a origem e desenvolvimento do gênero. Basicamente, o diário é abordado enquanto dispositivo de produção da cultura, tanto no oriente (Japão) quanto no ocidente, como forma de expressão pessoal. Esta vai se inserir de forma pública ou privada, comunitária ou individual, a depender do tipo de função que o diário vai exercer para aquela comunidade ou indivíduo engajado nas redes sociais.

O diário é descrito como um fenômeno cultural que se estabelece desde tempos remotos e tem seus primeiros aparecimentos vinculados a uma natureza pública e comunitária, como exemplificado pelas tábuas de argila encontradas recentemente na Suméria, datadas de aproximadamente 3000 AC. Segundo a pesquisadora americana Sharyn Lowenstein, ``elas funcionam precisamente como diários'' ( Apud Gannett: 1992, p. 108).

O caráter privado do diarismo, embora tenha prevalecido nos últimos 100 anos, aparece pela primeira vez no século X, no Japão, com os pillow books das mulheres da corte de Heian. O diário oferece, ainda, uma natureza semi-pública, quando, no século XVII, na Inglaterra, proliferam os diários espirituais, uma categoria de pré-diários que mais tarde vai contribuir para o aparecimento do diário íntimo como ``o livro do eu''.

Neste momento de efervescência do uso dos diários, eles serviam como objeto de expiação de faltas e culpas e segundo o pesquisador Thomas Mallon ``há evidências de que os protestantes de East Anglia trocavam os diários entre si para avaliar as chances de salvação'' (Mallon: 1995,p. 105).

O tema se desenvolve em cinco capítulos, ao longo dos quais tentamos apontar para a inteireza evolutiva da história dos diários pessoais, ao compor um corpo de escritos que nasceu na Europa e se espalhou pelo mundo. Contardo Caligaris observa:

Se a tradição anglo-saxã e subseqüentemente a americana são provavelmente as mais ricas em atos autobiográficos, é porque, por um lado, a cultura anglo-saxã é, na Europa, a mais precocemente individualista, e os Estados Unidos se tornaram, antes mesmo de existirem como nação - e pela especificidade do sonho que construiu -, o berço da modernidade ocidental (Calligaris: 1998, p. 50).

Examinamos como os diários evoluíram em tipos e funções até chegarem à forma moderna do século XX, que a pesquisadora americana Tristine Rainer denominou no final da década de 70 de ``O novo diário''.

A passagem para o diário on-line é mapeada no quarto capítulo, quando se examina o fenômeno a partir de home pages de diaristas e diários virtuais, os blogs, que utilizam mais recentemente um modelo de interface mais simples, que facilita o acesso de milhares de pessoas à criação e postagem de diários na internet. O quinto capítulo é dedicado a analisar os processos de continuidades e rupturas entre o modelo impresso e o modelo on-line, no contexto da cultura contemporânea.

No capítulo I, a busca pela gênese evolutiva do diário tradicional exige uma incursão pelo próprio conceito de diário, que surge pela primeira vez durante o Renascimento. Neste momento, ocupamo-nos em ressalvar a identidade que em várias culturas, como a americana e a inglesa, por exemplo, existe entre os termos diário e jornal, usados para se referir ao diário enquanto narrativa de caráter íntimo.

Esta identidade, no entanto, não se aplica na prática ao Brasil, embora etimologicamente os termos diário e jornal possam ser utilizados com esta função. Explicitados os termos de uso dos conceitos de diário e jornal, adota-se, a partir daí, as quatro categorias do pesquisador inglês Robert A. Fothergill para classificar o processo evolutivo dos diários, anteriores ao ``livro do eu'': diário público, diário de viagem, diário de memória pessoal (commonplace books), e diário de consciência ou espiritual. Cada uma dessas categorias vai entrelaçar a função à natureza pública, privada ou semi-pública dos diários.

Partindo da evolução dos diários ao "livro do eu", o capítulo II examina a mudança qualitativa que os diários sofrem ao servirem, cada vez mais, como local onde homens e, principalmente, mulheres, exercem a própria subjetividade, narram suas vidas como seus próprios textos. A influência sofrida pelo acento moderno no individualismo, auxiliadas pelo Romantismo e as idéias freudianas, vão levar à escolha do diário como local ideal para expressão do eu. Depois do ``livro do eu'', o diário íntimo evolui para o ``Novo Diário'', exercendo durante o século XX, a função de catarse com fins terapêuticos. Neste capítulo, também avaliamos o ``Novo Diário'' como instrumento utilizado na relação ensino-aprendizagem, melhorando a expressão verbal do aluno e o seu desenvolvimento em sala de aula.

No capítulo III, apresentamos um enfoque sobre aspectos da tradição dos diários no Brasil e os estudos que vêm sendo realizados neste campo em várias partes do Brasil. A exposição visa colaborar com o aspecto evolutivo da tradição dos diários pessoais, cuja bibliografia ainda é escassa. Neste contexto, destacamos algumas das categorias de diário presentes na história cultural brasileira, iniciada com os diários de viagem, que tem em Pero Lopes de Sousa um de seus primeiros praticantes.

O capítulo IV concentra-se em mapear a presença dos diários virtuais desde os seus primórdios, em meados de 1990, quando a internet comercial se popularizar. Busca-se demonstrar como os diários íntimos on-line transformaram-se em fenômeno mundial, a partir da utilização de ferramentas cada vez mais simplificadas de criação e postagem. O capítulo aborda o fenômeno também em sua organização, através das comunidades de diaristas que se formam na rede.

No capítulo V, o último, abordam-se os processos de continuidades e rupturas entre o diário tradicional e o diarismo on-line. Delineia-se em princípio a cena virtual na qual o fenômeno se desenvolve, descrevendo-se as suas características. Destaca-se o acesso de cada vez maior número de diaristas on-line à criação e postagem de sites pessoais pelas facilidades cada vez maiores das interfaces criadas. Define-se este nível de acesso e expressão pessoal como ``ondas'', as quais teriam surgido justamente pelos programas de computador que facilitariam, cada vez mais, a interrelação entre o homem e a máquina.

A ``primeira onda da web escriturável'' dar-se-ia na primeira fase de acesso dos diaristas on-line à rede, em meados da década de 1990, quando a linguagem de feituras de páginas era o html, que exige conhecimentos mais específicos para criação e postagem de páginas pessoais. A ``segunda onda da web escriturável'' ocorre quando surgem ferramentas, como o blogger, interfaces que facilitam o processo de feitura e postagem dos ciberdiários.

Ainda no capítulo V, discorremos sobre os processos de continuidades e rupturas, utilizando como instrumento a análise comparada entre diário de guerra escrito e diários de guerra on-line. Para isto, são tomados como referência o Diário de Anne Frank, ícone mundial para o gênero diário no suporte impresso, e outros dois diários: Sisters under Siege e War Diaries, estes no suporte computador. Ambos foram escritos por dois cidadãos iugoslavos, a jornalista Yvanka Besevic e um cineasta de iniciais AG, respectivamente. Os diários on-line, no entanto, foram retirados do ar sem qualquer aviso prévio, indicando de cara uma diferença deste gênero em relação aos diários impressos: a durabilidade.

Da construção do objecto

O primeiro passo a assinalar quanto ao processo de construção do objeto é a interdisciplinaridade. A convergência dos aportes a áreas disciplinares distintas é ensejada pela própria natureza do objeto, o diário. Este, é considerado "uma entre as várias formas narrativas que o sujeito encontrou para se dizer dentro da história da subjetividade moderna" (CAMARGO, COSTA e FRAIZ: 1998, p. 7).

O enfoque temático, ao postular um enquadramento de gênero discursivo ao objeto, exigiu a apropriação de teorias pertinentes ao campo da linguagem e literatura, defendidas por Todorov, Bakhtin e Lejeune. Recorremos, também, às abordagens histórico-evolutiva crítica da chamada literatura autobiográfica, elaboradas por autores americanos, como Cinthia Gannett, da Universidade de New Hampshire e Margo Culley; dos ingleses Thomas Mallon e Ronald Blythe. E dos estudos e análises da cultura contemporânea, a cibercultura, onde se situam os diários on-line, elaborados por autores como Pierre Lévy.

Quanto aos aspectos empíricos da construção do objeto, a pesquisa em campo consistiu, primeiro, numa aproximação, por via bibliográfica, da gênese e evolução dos diários tradicionais no mundo. Esta visão nos foi possível obter graças à generosidade e espírito cooperativo da professora doutora Cinthia Gannett, chefe do núcleo Writing Across the Curriculum, da Universidade de New Hampshire, autora do livro Gender and the Journal: Diaries and Academic Discourse, editado pela Suny Press, Nova Iorque, em 1992.autora do livro Gender and the Journal: Diaries and Academic Discourse, editado pela Suny Press, Nova Iorque, em 1992.

Através de contato efetuado via e-mail, Cinthia não só providenciou um exemplar de seu livro, mas indicou-me outras referências bibliográficas, de grande valor para o desenvolvimento desta dissertação. A professora Cinthia Gannett transformou-se ao longo de quase três anos numa referência importante, inclusive porque me auxiliou tirando muitas dúvidas a respeito do processo de elaborar uma dissertação e sobre a própria tradição diarística, tornando-se durante estes contatos, mais do que uma colaboradora, uma amiga.

No momento de preparação para a coleta do material, o propósito da pesquisa era reunir elementos para marcar os processos de continuidades e rupturas entre o diário tradicional de suporte papel para a tela do computador. Por isso, o primeiro agenciamento da pesquisa se concentrou em recolher bibliografia que nos enviasse à gênese e evolução dos diários tradicionais.

Outras fontes bibliográficas foram surgindo ao longo do tempo, levando-me a acessar material pertinente ao objetivo inicial de mapear os diários tradicionais. Neste aspecto, foi-me também útil a colaboração do professor Aníbal Machado, da Universidade Federal Fluminense, atual editor da revista on-line Imprensa Régia, elaborada por um grupo de professores e pesquisadores ligados ao Gabinete Português de Literatura do Rio de Janeiro. Num único e-mail, o professor Aníbal orientou-me quanto a bibliografia e pesquisadores ligados ao campo das autobiografias. Também me foi útil contato via e-mail realizado com o professor francês Roger Chartier, que me remeteu à obra de seu colega, Philippe Lejeune.

O segundo aspecto da pesquisa, construir um entendimento sobre diários on-line foi realizado por freqüentes e demoradas visitas a centenas de sites e páginas de diaristas na internet desde 1998 quando comecei a me interessar pelo assunto. Desde este momento, contei com a expressiva colaboração do professor doutor Wayne A. Selcher, do Elizabethtown College, na Pennsylvania, valoroso amigo. Freqüentemente, o professor Selcher, devotado brasilianista, não poupava esforça para me municiar com links sobre os diaristas.

Foi ele, inclusive, que me alertou, através de e-mail, sobre a nova força dos blogs na rede, bem antes de eles virem a se tornar fenômeno popular no Brasil. Nesta fase, também foi de grande ajuda a experiência e a colaboração de outro professor, o doutor Luis Guilherme Pontes Tavares, o qual alertou-me sobre o assunto, providenciando-me publicações na imprensa sobre o fenômeno blog.

Ao lado da pesquisa empírica, foi de grande valia na construção do objeto, a participação em eventos como o IV Seminário de Pesquisa da Facom, em 1999, no qual apresentei um primeiro esboço do trabalho. Em 2000, foi de grande importância o engajamento como uma das fundadoras do Núcleo de Estudos em Cibercultura, ligado ao Ciberpesquisa da Facom/UFBa, mais tarde transformado no Grupo de Estudos em Arte e Sociabilidade do Ciberespaço, GREC. A oportunidade de discutir com outros colegas temas ligados à cibercultura em muito contribuiu para formar uma consciência sobre os fenômenos da cultura contemporânea, a partir da configuração de redes telemáticas.

Além disso, contribuíram também na preparação do processo de escrita da dissertação, a produção do artigo intitulado Diários Íntimos na Era Digital: Diários Públicos, Mundos Privados, publicado dentro do livro Janelas Abertas do Ciberespaço, organizado pelos professores André Lemos e Marcos Palácios e editado em 2000 pela Editora Sulina. Naquele ano, também participamos do I Seminário de Pesquisa e Pós-Graduação da UFBa, no qual foi apresentado pôster sobre a pesquisa.

Também em 2000, participamos como bolsista do Programa Proces/UFBa, através do qual realizamos estágio como professora da disciplina Comunicação e Sociabilidade, experiência que também somou aos esforços de construir um entendimento sobre o diarismo. Este fez parte do conteúdo das aulas, no momento em que tratamos da formação de comunidades virtuais na cultura contemporânea das redes digitais. Além disso, é claro, que o estudo da literatura direta ou indiretamente relacionada ao tema, possibilitou gradativa abertura na compreensão do tema e do objeto. De resto, o objeto é construído ao longo deste texto.

A evolução histórica dos diários íntimos tradicionais

Os conceitos de diário e jornal

Que significados vêm à mente quando no Brasil lançamos mão da palavra diário? Segundo o dicionário Houaiss, o termo está associado a vários significados: adjetivo do latim diarius /a/ um, refere-se a: ``que se faz ou acontece todos os dias''. Como substantivo masculino: ``1. Escrito em que se registram os acontecimentos de cada dia; 2. periódico que se publica todos os dias (...)'' (Houaiss: 2000, p.1032)

Da mesma forma, lancemos mão agora sobre os significados para o termo jornal. Utilizando a mesma fonte, encontramos: do latim journale, o substantivo masculino jornal significa: 1. ``Publicação diária, com notícias sobre o cenário político nacional e internacional, informações sobre todos os ramos do conhecimento, entrevistas, comentários, etc; (...) 4. Escrito em que é feito um relato cotidiano dos acontecimentos; diário'' (op. cit., p.1687)

Embora, pela etimologia, pudéssemos fazer uso tanto do termo diário como do termo jornal para designar um registro, suponhamos, por exemplo, em nosso diário íntimo, constatamos que essa duplicidade de termos na prática não se aplica com este sentido. Dificilmente, no Brasil, recorreríamos à palavra jornal para nos referir a diário íntimo, pessoal. O uso prático desse vocábulo na língua portuguesa não comporta essa correlação semântica; ao contrário do que encontramos nos termos diário e jornal, referindo-se ambos os substantivos a ``folha diária, gazeta, qualquer periódico'', entre outros significados afins.

Esse didatismo é trazido neste momento para chamar a atenção exatamente para essa peculiaridade que aproxima, nas tradições culturais americana e européia, os termos diário e jornal. Embora na prática o diário pessoal seja diferente do jornal pessoal, mas, por exercerem praticamente a mesma função, os termos freqüentemente se confundem. O site Journals & Diaries descreve o diário como

um livro, caderno ou planejamento [suportes], no qual alguém recorda eventos diários. Enquanto isso, o jornal é um livro, caderno ou qualquer coleção de pensamentos escritos, no qual alguém escreve sobre eventos com maiores detalhes. Inclui especialmente sentimentos, opiniões, crenças, esperanças, medos, reflexões, etc1.1.

No caso dos diários, observa-se uma associação com o conceito de recordação diária de eventos. Diferente do diário, o jornal pessoal, apesar de se referir também a entrada diária de informação, não pressupõe, necessariamente, compromisso com a recordação de eventos do dia. Ele pode se furtar a essa condição, podendo trazer, ao mesmo tempo, material mais amplo, não-circunscrito apenas a relatos do dia.

Em A Book of One's Own - People and Their Diaries, o estudioso inglês Thomas Mallon (1995, p.1) chama a atenção para o fato de que os dois termos se confundem por estarem associados à idéia de recordação diária de eventos. Mas ele acredita que a palavra diário tenha conotação associada a algo mais íntimo porque se ligou a dear na expressão ``querido diário'' (dear diary), muito utilizada por diaristas. O jornal, por sua vez, esteve mais associado a ``newspapers trade'' (jornal como informativo comercial, periódico, gazeta) - termo que vincula o jornal à idéia de fonte de notícia.

Apesar de, muito freqüentemente, o termo jornal ser correntemente associado à idéia de newspaper, o próprio Mallon e outros autores americanos e ingleses constatam que tem sido lugar comum, durante centenas de anos e até hoje, o uso do termo jornal quando se quer tratar de diário pessoal ou de caráter íntimo (Cf. Culley: 1985, p.xiii; Blythe: 1989, p.6; Gannett: 1992, p.107 e Mallon: 1995, p.1). O termo jornal aparece como recordação pessoal de eventos, sinônimo para diários, relação que iremos utilizar aqui em todo este trabalho.

A origem dos termos

As palavras diário e jornal vêm do latim, significando dia ou diário e referindo-se a dia de trabalho, dia de viagem ou entrada diária de informação. Diário vem do latim diariu. A palavra foi registrada pela primeira vez no Oxford English Dictionary, durante o Renascimento, um pouco depois do surgimento do termo jornal. Este difundiu-se pelo francês antigo journal, conforme registra a pesquisadora americana Cinthia Gannett1.2.

Segundo ela, o primeiro uso da palavra jornal em inglês foi feito entre 1355-56 pelo Dicionário Oxford, referindo-se a livro de serviços religiosos contendo as horas do dia. Na metade do século XVI (1552) o termo aparece ligado a recordação de viagem. Um pouco antes, em 1540, o termo jornal foi utilizado com freqüência para se referir a manutenção de registro contábil.

O termo jornal serviu também para se referir a recordação de eventos ou transações feitas por instituições e corpos públicos - os registros, por exemplo, dos procedimentos diários do Parlamento, como os diários oficiais, são chamadas jornais. Também a palavra foi utilizada como sinônimo para jornais diários e outros periódicos públicos, e para recordações pessoais mantidas para uso oficial ou privado. Mas a autora assegura que ``desde o momento de sua cunhagem, entretanto, o termo diário parece ter estado sempre próximo do sinônimo exato para jornal, representando uma recordação diária ou regular de eventos públicos e privados'' (Gannett: op. cit., p.106-107).

A tradição dos diários x imaginário popular

Embora a gênese e até mesmo a prática diarística apontem para tipos e funções variados de diários - como os diários de viagem do século XVI -, um único conceito e uma única função parecem povoar o imaginário popular acerca dos diários tradicionais. De uma maneira equivocada, eles são associados exclusivamente à idéia de uma narrativa de cunho íntimo e escrita geralmente por mulheres.

Alguns autores chegam até mesmo a se perguntar o porquê de o imaginário popular sobre diários estar diretamente ligado ao ``livro do eu'' e associado às mulheres. Na tentativa de responder a essa interessante questão, o pesquisador americano Margo Culley revela que uma das causas está na emergência do eu como objeto do diário:

No curso do século XIX, como a divisão das esferas pública e privada veio crescentemente modelar a vida de homens e mulheres, aqueles aspectos relacionados à vida privada tornaram-se o domínio de mulheres. Simultaneamente, mudanças na idéia do eu influenciadas pelo romantismo, a revolução industrial e a descoberta do inconsciente contribuíram para mudanças no conteúdo e função do diário. Como a idéia moderna de diário como recordação 'secreta' de uma vida interior evoluiu, a vida interior - a vida de reflexão e emoção pessoal - tornou-se um importante aspecto da 'esfera privada', e mulheres continuaram a colocar o diário como o local onde lhes era permitido, encorajado a indulgir o 'autocentramento'. Homens americanos desacostumados a expressar a vida interior de outra forma que não fosse a religiosa, passaram a considerar diários cada vez menos atraentes para eles (Culley: 1985, p. 4).

Outro motivo levantado por Culley para a formação do imaginário popular seria o fato de que, no final do século XIX, diários nos Estados Unidos faziam parte do conjunto de normas de etiqueta usado na educação de garotas. Manter diários era então associado a ``gentileza e a regras de bom comportamento das adolescentes da época'' (op. cit. p.4).

É certo que, ao longo do século XX e neste início de século XXI, em muitas culturas, manter diários íntimos pessoais, embora já não esteja ligado a práticas de etiqueta, ainda faz parte da vida de muitos adolescentes, predominantemente do sexo feminino.

Citando dados de Jean Schinto, Cinthia Gannett calcula que anualmente sejam vendidos nos Estados Unidos ``5 milhões de diários (blank books) (...) e claramente existem muitas mulheres lendo e escrevendo diários, mesmo na pequena cidade de Biddeford, Maine'' (Gannett: op. cit., p.101). Certamente essa prática, que ainda se mantém, também deve ajudar a formar o imaginário popular que atribui às mulheres a hegemonia sobre a tradição dos diários.

Se resumirmos toda a história dos diários pessoais apenas ao ``livro do eu'', prevalecente a partir da segunda metade do século XIX, seremos forçados a deixar para trás o corpo principal da tradição do diarismo. O que pretendemos nestes dois primeiros capítulos, no entanto, é apontar para a inteireza evolutiva da história dos diários pessoais, ao compor um corpo de escritos que nasceu na Europa e se espalhou pelo mundo. Examinaremos como eles evoluíram em tipos e funções até chegarem à forma moderna do século XX, que a pesquisadora americana Tristine Rainer denominou no final da década de 1970 de ``O novo diário''.

A classificação de Fothergill

Aqui adotaremos a classificação do conceituado pesquisador inglês Robert A. Fothergill, citado por Cinthia Gannett (op. cit., p.105-110), segundo a qual o modelo de diário íntimo evoluiu a partir de quatro formas de proto ou pré-diários: diários públicos, diários de viagem, diários de registro pessoal - análogos aos livros comunitários (commonplace books) - e diários de consciência ou espirituais. Autor de Private Chronicles: A Study of English Diaries, publicado pela Oxford University Press, em 1974, Fothergill é pioneiro, na Inglaterra, no estudo crítico do desenvolvimento da tradição do diarismo.

Aqui vale a pena lembrar não ser a classificação de Fothergill a única vertente crítica sobre a gênese dos diários. O pesquisador francês Jean Hébrard, por exemplo, admite ser ``delicada'' a delimitação do campo das escrituras pessoais. Mas ele considera útil que ela seja feita. Ou pelo viés a que se propõe Fothergill, que é tentar mapear o inventário das fontes; ou, como o próprio Hébrard se dedica, centrado em considerar a relação da prática pessoal com seus suportes como uma forma de resolver certas contradições inerentes à própria escritura e proporcionar ``não só um domínio do tempo que passa, mas também de uma representação estável de si'' (Hébrard: 2000, p.29-30). O principal ponto seria aí encontrar uma forma de estruturar um contínuo das escrituras, superando uma das principais características da prática diarística, que é a descontinuidade, a fragmentação.

Diários Públicos

Apesar de os primeiros registros das palavras diário e jornal, no ocidente, serem datados apenas do Renascimento, a tradição do diarismo remonta a muitos séculos antes. O primeiro grupo da classificação de Fothergill, os diários públicos, são tão antigos quanto a própria escrita. Esta categoria está associada a uma tradição de escrita comunitária que, por muitos séculos, cumpriu uma função de divulgação pública de fatos e eventos análoga à que hoje desempenham os jornais (newspapers). Citando Gerda Lerner, Gannett dá como exemplo: ``as tábuas de argila encontradas na Suméria, datando de aproximadamente 3.000 a.C., funcionam precisamente como diários, contendo listas de ração para ser distribuída, recordação de tributos e donativos, e listas de nomes divinos (Apud Gannett: 1992, p.108).

Essa tipologia de diários inclui ainda recordações e relatos sobre transações de corpos públicos, diários de viagem, recordações diárias de campanhas militares e expedições científicas. A pesquisadora americana Sharyn Lowenstein lembra que, antes do Renascimento, diários eram primariamente documentos públicos, escritos para preencher funções comunitárias e eram freqüentemente compostos colaborativamente por muitos autores, de preferência a um só autor:

Livros e recordações de registros contábeis antigos, registros domésticos romanos chamados Commentari, crônicas chinesas do ano 56 (d. C), crônicas anglo-saxãs, diários de viagem e diários científicos, livros comunitários manoriais e recordações de instituições públicas, como a recordação congressional, todos exemplificam essa função de cronicar e manter um registro (...) Essa tradição de diários, que floresceu em uma variedade de formas, era explicitamente construída por e para comunidades e representa a visão que diretamente contradiz a mais limitada noção do diário como 'pessoal', de preferência a 'social'. (Lowenstein et all: 1994, p.145)

Diários de Viagem

Depois dos diários públicos, Fothergill aponta os diários de viagem como a segunda categoria de pré-diários. Como o próprio nome sugere, o diário de viagem agrupa relatos de experiências de inúmeros diaristas em torno de viagens. Os primeiros registros aparecem a partir do século X, no Japão, quando esses jornais serviram como importante acompanhamento das viagens a que se submetiam padres e oficiais. Eles freqüentemente incluíam prosa narrativa e descritiva, bem como poesia, e era um gênero altamente reconhecido pelo valor histórico e literário. No meio religioso, diários de viagem eram uma parte importante na relação de hierarquia e poder:

Viagens foram feitas por padres, oficiais e militares, parcialmente para melhorar a poesia dos primeiros, que era usada em orações e oráculos e entendida como um diálogo entre os seres humanos e os deuses (...) Excursões para lugares citados em poemas famosos eram programadas para promover o poder religioso. Uma vez após chegar ao destino, o viajante podia compor um poema incorporando uma linha a partir do original. Essas práticas funcionaram como uma devoção ancestral. Outra forma comum de viagem ocorria com a morte de um mestre. O discípulo podia viajar e escrever poesias em lugares familiares a esse mestre, sendo esta também mais uma forma de cultuar sua memória. (Lowenstein: 1987, p. 88).

Os diários de viagem, muito comuns entre os séculos XV e XVIII, refletiam as viagens de caráter exploratório ou não, trazendo informações sobre a geografia específica, terreno, possibilidade de rotas, fauna e flora, mas também curiosidades sobre os povos nativos e a expressão do sentimento associado a cada uma dessas experiências. Na metade do século XVII, esse tipo de diário era também muito útil como rito de passagem na educação de rapazes. Uma das etapas para se tornar adulto, o Grand Tour, oferecia ao jovem a oportunidade de empregar o diário de viagem para desenvolver o hábito da observação e reflexão.

Na Europa, exploradores e militares utilizavam os jornais de viagem para relatar as expedições. Os descobrimentos portugueses, por exemplo, geraram um conjunto de textos, entre os quais os diários, incluídos naquilo que se convencionou, nos últimos anos, denominar ``literatura de viagens''.

Esse corpus é composto de obras escritas por testemunhas presenciais dos acontecimentos narrados e que se identificam por uma temática comum, que é a experiência proporcionada pela própria viagem. Entre outras coisas, ela gera descrições de diversos níveis: da paisagem, geografia, dos aspectos humanos, entre outros, em geral considerados exóticos para os padrões europeus.

O conceito de ``literatura de viagem'', embora seja complexo e divida opiniões, remete, segundo Ana Paula P. Dias, a ``uma expressão moderna que identifica como literatura autônoma um espólio literário produzido entre os séculos XV e XIX, de natureza compósita e interdisciplinar''1.3. Ela acredita que, embora os autores desses escritos não sejam, necessariamente, considerados escritores na acepção moderna da palavra, as obras possuem valor porque despertam interesse: ``os textos são recebidos em parte como história, em parte como entretenimento''1.4, reforça.

A autora lembra, ainda, que o conceito ``literatura de viagens'' aparece em Portugal também sob a designação de: ``Literatura dos descobrimentos, Literatura de expansão (Hernâni Cidade), Literatura das descobertas (Borges Coelho e Hernâni Cidade), Literatura de viagens e descobrimentos, Literatura, narrativas e relações de viagens (Jaime Cortesão), entre outros''1.5.

As viagens de diaristas

Enquanto na Europa o diário de viagem já tinha grande tradição no século XVII, neste período ele estava apenas começando nos Estados Unidos em função da chegada dos imigrantes europeus. Um dos exemplos mais famosos dessa tradição americana foram os diários de mais de 800 mulheres que mantiveram registros sobre as viagens de trem durante a ocupação do Oeste, na metade do século XIX. Muitos desses diários, conforme relata Lillian Schilissel, ``são mantidos não como souvenirs, mas como livros de informação para serem enviados a amigos e parentes relatando a jornada'' (Schilissel, apud Mallon: op. cit, p.46).

Nessa fase da história americana, ao acompanharem maridos, irmãos e familiares na conquista de novas terras para o Oeste, essas mulheres encontraram especialmente em cartas e diários a maneira de manter os laços deixados para trás. São exemplos desse período os diários de escritoras como Lydia Allen Rudd, que acompanhou o marido imigrando de Iowa para o Oregon, entre maio e outubro de 1852, e manteve um diário relatando a jornada, na qual muitas pessoas foram acometidas de cólera; Amelia Stewart Knight, que escreve as lembranças desse mesmo percurso cumprido entre abril e setembro de 1853, descrevendo a rotina vivida pela família durante a travessia.

Bastante comum até hoje, esse gênero de diário abarcou milhares de escritores ao longo dos séculos, espalhados pelos quatro cantos do planeta, inclusive no Brasil, como veremos mais adiante. Entre os exemplos mais famosos está o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882).

Entre 27 de dezembro de 1831 e 2 de outubro de 1836 ele fez parte da expedição do capitão FrizRoy, como naturalista. A viagem de pesquisas por várias partes do mundo, inclusive o Brasil, resultou no diário intitulado Journal of Researches. Foi também a partir dela que Darwin produziu a famosa obra sobre A Origem das Espécies que, em 1859, assombrou os ingleses.

Na passagem pelo Brasil, Darwin esteve, entre outros roteiros, em Cabo Frio e no Rio de Janeiro, onde descreveu as maravilhas da cidade, como nesta entrada de 19 de abril de 1832:

Durante minha permanência no Rio eu fiquei numa casa na Baía de Botafogo. Era impossível desejar algo mais agradável do que passar alguns dias neste país tão magnífico. Na Inglaterra qualquer pessoa que desfrute de sua história natural encanta-se tirando das caminhadas uma grande vantagem, por ter sempre alguma coisa para atrair sua atenção; mas, neste clima fértil, as atrações são numerosas e dificilmente se consegue fazer a caminhada até o fim (Apud Blythe: 1989, p.121-122).

Ainda no Brasil, Darwin fez registros importantes durante sua missão como jovem naturalista e geólogo. Além de apreciar a paisagem, colheu insetos para as pesquisas e, entre outras coisas, fez observações sobre o cultivo e a cultura da fazenda do anfitrião, Manuel Figueiredo.

Diários de memória pessoal (Commonplace Books)

A terceira categoria de pré ou proto-diários apontada por Fothergill são os diários de memória pessoal, análogos aos commonplace books (livros de família). Segundo Gannett (op. cit, p.109), o Commonplace Book é considerado um ancestral dos diários de leitura, quotas, observações, notas e desenhos que pessoas letradas, particularmente estudantes, têm mantido por séculos. Ela revela, ainda, que esse modelo de diário serviu como um programa de auto-educação e era muito comum, se não essencial, auxiliar do trabalho de estudantes, possivelmente porque a publicação de livros era rara e cara até recentemente.

Jean Hébrard confirma que, na França, os ``livros de aprendizagem'', como ele denomina a função dos cadernos, foram usados desde o século XV até o século XIX com várias funções, ``sugerindo a passagem direta desse tipo de escrita para a escritura pessoal'' (Hébrard, op. cit., p.50). Eles tanto serviam como suporte para matérias dos alunos de mestres escritores instalados em grandes cidades do reino francês, desde o século XV, quanto eram aproveitados para outros registros:

Um deles, redigido por um adolescente sob a orientação de um mestre escritor de Marselha, foi mais tarde utilizado como livro razão, quando o jovem precisou assumir os negócios da família numa cidadezinha do Luberon. O escrevente contentou-se em virar o registro e abrir esse novo espaço de escritura começando pela última página (...) Seu livre de raison mistura contas profissionais (...), contas familiares (pagamentos dos salários de empregados, obras de reforma da casa, etc.), acontecimentos marcantes (nascimento dos filhos, doenças, vacinações etc.), cópias de escrituras notoriais e notas mais pessoais (...). (op. cit. p.47-48)

Um exemplo vivo desse tipo de diários é o Commonplace Book of the Fifteenth Century, escrito por um anônimo, residente em Sussex, Inglaterra. O livro foi publicado em 1886 por Lucy Toulmin Smith, e contém ``dizeres, rezas, partes da obra do poeta Lydgate1.6, quebra-cabeças, uma vida de santo, uma peça religiosa e outras partes de conhecimento prático e literário que apareceram no caminho dele ou dela [do autor]'' (Mallon, op. cit, p.120).

O Commonplace Book foi bem definido por Mallon. No Capítulo 4 de A Book of One's Own - People and Their Diaries, o autor inglês o chama de diários criativos. Ele diz que esse tipo de diários, escritos tendo como suporte os notebooks (cadernos), foram tradicionalmente usados de uma maneira criativa dentro do processo de produção artística ou literária.

Ao longo dos séculos, esse tipo de diário funcionou como inspirador das obras de muitos autores, desde pessoas simples, sem expressão artística reconhecida, até mesmo artistas de renome. Mallon observa que

como o ponto de distinção entre diários e jornais escapa, também é difícil localizar o ponto em que diários tornam-se cadernos de anotações e vice-versa (...) Mas, o Commonplace Book tem sido usado muito mais para a arte de observar do que propriamente criá-la. (op. cit., p.120)

Atravessando séculos, esse tipo de diários tornou-se uma ferramenta especial e muitas vezes fundamental dentro do processo criativo de escritores, pintores e milhares de diaristas que até hoje ainda se debruçam sobre folhas em branco de cadernos para fazer anotações, escrever poemas, rabiscar desenhos ou simplesmente registrar os eventos do dia-a-dia.

Não foram poucos os que se utilizaram dessa prática. No capítulo sobre diários criativos (p.119-166), Mallon aponta, entre os pintores, Leonardo da Vinci, que manteve cadernos de anotações por 40 anos desde os dias em Florença até o serviço real em Amboise (França). Ao todo, o autor de Monalisa escreveu cinco mil páginas que foram deixadas em vários lugares. Elas continham, entre outras coisas, ``passagens copiadas das leituras do artista, recordações de seus sonhos e dissertações nascentes sobre muitos dos assuntos ainda não concebidos pelo homem'' (op.cit., p.164).

Entre escritores, muitos foram aqueles que mantiveram Commonplace Books como auxiliar na produção de seus textos. De acordo com Mallon, o escritor russo Dostoievski, por exemplo, manteve três cadernos de anotações enquanto escrevia Crime e Castigo (publicado em 1866). Os diários revelam a preocupação do autor em como fazer a obra de uma forma mais convincente. Para isso, ele não poupou a si mesmo de prestar atenção em pequenos detalhes psicológicos que o auxiliassem na construção de seus personagens.

Albert Camus foi outro autor que utilizou os diários para registrar características particulares que ele viria a incorporar em seus personagens de romances e peças. Também F. Scott Fitzgerald manteve um caderno no qual registrou material para construir o personagem Jimmy Gatz, do livro O Grande Gatsby.

O escritor Graham Greene também usou os diários em forma de cadernos como elementos que o auxiliaram a escrever duas novelas que se passavam na África. The Heart of the Matter e A Burnt-Out Case foram escritas a partir do diário Congo Journal, de 1959.

Há vários exemplos nos quais é feita uma migração do conteúdo dos diários para as obras do autor. Entre eles, segundo Mallon, Allen Ginsberg, que fez uma transfusão de seus versos para seus diários. O escritor passou a mantê-los a partir de 1947 e chegou ao luxo de, entre os 18 cadernos que escreveu, separar grandes exemplares para anotações de cabeceira e outros menores para viagens de ônibus e metrôs.

Como num poema baseado numa viagem feita para o México em 1950, ele simplesmente transpõe a prosa do diário em versos. No diário, ele descreve: ``As I leaned against a tree inside the forest expiring of selfbegotten love I looked up at stars absently''. Essa entrada torna-se parte do poema Siesta in Xbalba, contido no livro Reality Sandwiches:

As I leaned against a tree
inside the forest
expiring of selfbegotten love,
I looked up at the stars absently1.7
(Apud Mallon: op. cit., p. 133)

Diários de Consciência ou Espirituais

A última forma de pré-diários classificada por Fothergill são os diários de consciência ou espirituais. Mallon a incorpora dentro da categoria de diário dos Peregrinos e chama a atenção para o fato de que a origem desses diários espirituais não é completamente clara. Entretanto, segundo ele, há evidências de que a prática começou no século XVI entre o clero reformado de East Anglia - grupo secreto que reunia dissidentes da Rainha Elizabeth -, preocupado em minimizar o sentimento de culpa relacionado à fé em Deus. ``Os diários tornaram-se o lugar no qual estas pessoas examinaram suas consciências e procuraram encontrar-se com Deus em reza e comunhão'' (op. cit., p.105). É dentro do contexto de dissidência dos novos grupos religiosos que nascem os diários dos séculos XVI, XVII e XVIII.

Corroborando com essa gênese, Gannett, citando Fothergill e Brian Dobbs, assegura que:

Os puritanos e mais tarde os Quacres, Metodistas e outros grupos que desafiaram a autoridade externa em matéria de crença pessoal, voltaram-se para a punição e rigorosa auto-examinação espiritual, para o que encontraram nos diários ferramenta muito útil. Pela metade do século XVII, `how-to', livros tais como o de John Beadle - The Journal or Diary of a Thankful Christian (1656) - já estavam disponíveis para ajudar praticantes potenciais a usar o diário para examinar seus comportamentos, suas consciências, suas almas e sua relação com Deus e seu trabalho, e para mapear e documentar a mão de Deus em seu trabalho e no mundo. (Op. Cit., p. 110)

Citando o mesmo John Beadle, o estudioso inglês Ronald Blythe diz que no século XVII diários tinham grande prestígio na Europa:

Homens do comércio mantêm seu livro diário. Mercadores, seus livros de relatos. Advogados têm seus livros de pendências. Físicos mantêm diários sobre seus experimentos. Alguns maridos prudentes mantêm um diário sobre problemas do dia-a-dia. Viajantes, um diário de tudo que eles têm visto e tem acontecido em seu caminho. Um cristão, para ser mais exato, deve se esforçar para ter um diário como este... (Blythe: op. cit., p.127)

Mallon lembra também que, durante o século XVII, na Europa, o diarismo tornou-se ``uma grande forma de arte protestante'' (op.cit., p.105). Segundo ele, há evidências de que os protestantes de East Anglia trocavam entre si os diários como forma de autocrescimento. Nesse período, a prática de escrever diários como um meio de auto-examinação e autopunição tornou-se muito comum. De fato, Lowenstein constata que ``de acordo com os puritanos, a salvação era pré-determinada e somente para os eleitos. Mas com o exame dos próprios atos eles achavam que poderiam interpretar seus destinos. Daí a prática de trocar os diários'' (Lowenstein: 1987, p.91).

No grupo protestante A Sociedade dos Amigos ou Quacres os jornais também eram um instrumento bastante utilizado para avaliar as chances de salvação. Segundo Lowenstein, eles eram usados de forma prática como uma espécie de registro para as reuniões, encontros e jornadas missionárias que avaliavam as dificuldades impostas para o chamado ao ministério e às conversões. Esses diários chegavam a ser postumamente publicados com a aprovação do grupo. Existia nessa prática um caráter institucional promovido pelo próprio fundador dos Quacres, George Fox, o qual chegou a publicar um diário revisado que mais tarde serviu como modelo (op. cit.91).

Durante a Restauração na Inglaterra, ocorrida após o assassinato do Rei Charles I e a subida ao trono de Charles II (1660-1685), diários tornaram-se palco de uma confissão geral, determinado pela multiplicação de retiros e missões. Aterrorizados pela ameaça de culpa, muitos passaram a investigar a si mesmos à procura de faltas.

Além das confissões e auto-análise - para as quais serviam os diários -, havia também regulamentos e resoluções que aprofundavam os exames. Enquanto as mulheres eram estimuladas a manter diários como parte do sacramento e penitência, homens mantinham a vida na ponta do lápis.

Segundo o pesquisador Alain Corbin, o desperdício de toda sorte era evitado e para ter uma vida ordenada, no século XIX, eles recorriam a manuais como O ensaio sobre o emprego do tempo ou método, tendo por objetivo a boa organização do emprego do tempo, primeiro meio de ser feliz, escrito por um certo Jullien, em 1810. Nesse livro, o autor aconselha a manter três diários nos quais serão registradas: as flutuações da saúde, as vicissitudes da moral e as pulsações da atividade intelectual. Corbin lembra:

Um memorial analítico e um quadro tríplice da situação, redigidos a cada trimestre ou semestre, permitirão que se façam numerosos balanços que será conveniente submeter a um amigo voluntário para julgar sua evolução (...) Os grandes autores de diários da primeira metade do século XIX registram em suas obras, com freqüência, simultaneamente o trabalho, o dinheiro, o lazer, a relação amorosa, e desempenham o papel da contabilidade da decadência. O diário íntimo tenta exorcizar essa angústia da morte que ele alivia com o próprio ato de escrever. Detectar o desperdício de si próprio é proporcionar a si os meios para uma estratégia de poupança. (Corbin: 1997, p.457).

A tradição americana de diários espirituais

Ainda no século XVII o hábito de escrever diários de consciência ou espirituais atravessou o Oceano Atlântico e chegou aos Estados Unidos pelas mãos dos primeiros protestantes. Não é à toa que Mallon caracteriza essa forma de diários dentro da categoria dos Peregrinos e chega a advertir que ``eles são peregrinos que procuram destino interior mais do que meros viajantes'' (Mallon: op. cit., p.75).

A tradição americana dos diários espirituais tornou-se uma das mais antigas tradições literárias, atuando como modelo central até o século XIX, junto com os diários de viagem. Ela foi iniciada com a chegada dos imigrantes europeus e teve no clero os seus primeiros praticantes.

Entre os exemplos mais famosos dessa tradição espiritual está Richard Mather, um clérigo inglês que teve a oportunidade de verificar a fé em Deus, em 1635, durante a travessia de barco da Inglaterra para o Novo Continente. O diário de Mather registra os momentos em que ele, os 33 marinheiros e 100 passageiros - além de vacas e bezerros - enfrentaram uma terrível tormenta. Ele conclui: ``em toda essa grave tempestade meu medo foi menor quando eu chamei por Deus e em alguma medida ele preencheu nossos corações'' (op. cit., p.106).

Outro exemplo famoso dessa vertente de diários é o escritor Henry David Thoureau que escreveu dois milhões de palavras em 39 cadernos mantidos entre 1837 e 1861. Neles, Thoreau ``está determinado a encontrar-se (consigo mesmo) face a face logo ou depois (...) e faz dos diários o lugar no qual descobre e constrói um eu precioso'' (op. cit., p.77).

No caso dos Transcendentalistas americanos - grupo protestante da primeira metade do século XIX, que depois deu origem a um movimento literário e filosófico de mesmo nome -, diários também serviram como instrumento para facilitar a comunicação entre os homens e a essência divina, tida como integrante de cada pessoa. Entre os Transcendentalistas destacam-se os Mormons (A Igreja de Jesus Cristo dos Santos do Último Dia), grupo fundado em 1830, ``que mantiveram e continuam a manter diários'' (Lowenstein: 1987, p 92).

Muito além do livro do eu

O exame das quatro categorias de pré-diários levantadas por Fothergill, e também analisadas por Mallon e outros autores, demonstra ser incompleta a noção popular que associa o conceito de diário ao ``livro do eu''. Outras classificações realizadas por pesquisadores americanos e ingleses traçam um largo perfil da tradição do diarismo que traduz bem nitidamente essa diferenciação entre as diversas funções dos diários.

O próprio Mallon, em A Book of One's Own - People and Their Diaries, classifica os diários em sete tipos: diários de cronistas, viajantes, peregrinos, criadores, apologistas, confessores e prisioneiros, alguns dos quais coincidem, como já vimos, com a classificação de Fothergill. Mas nem sempre esses diários coincidem exatamente com a recordação de uma vida interior, que caracteriza o diário íntimo como o ``livro do eu''.

Outro autor inglês, Ronald Blythe, em The Pleasures of the Diaries - Four Centuries of Private Writing, classifica os diários a partir da posição de seus autores, abrangendo na classificação 13 tipos diferentes: o diarista como testemunha, o diarista apaixonado, o diarista e o casamento difícil, o diarista na vila, o diarista como naturalista, o diarista doente, o diarista na loja, o diarista na guerra, o diarista como artista, diários e realeza, o diarista em rota, o diarista em desespero, o diarista e a morte.

Também em Blythe fica clara a diferença entre o uso do diário para relatar recordações de diferentes aspectos do dia-a-dia da vida do indivíduo e a função específica do diário voltado a uma consciência do eu interior. Muitos diários, como os de viagem, por exemplo, cumpriam a função de relatar aspectos voltados muito mais para o exterior do que para o eu do diarista, embora nesses relatos o diarista fosse capaz de utilizar seus escritos para exercitar a auto-reflexão e o exame da consciência.

O surgimento dos diários privados

Embora o caráter privado do diarismo tenha modelado o conceito de diário que hoje se conhece, esse modelo de escrita nasce bem antes, no oriente, com as mulheres da corte de Heian (794-1185), no Japão, que já no século X mantinham pillow books (livros de cabeceira) privados. Entre os mais antigos está o diário da poeta Sei Shonagon (966/67-1013?), considerado ``o melhor recurso moderno sobre a corte no período de Heian''1.8.

O diário de Shonagon, intitulado Makura no Soshi - que cobre o período em que a poeta esteve na corte -, consiste de memórias sobre as vívidas impressões e observações da diarista. Ele é dividido em categorias como Coisas irritantes, Coisas que distraem em momentos de chateação, dentre outras, onde Shonagon lista e classifica as pessoas, eventos e objetos em torno dela. O pillow book pertence ao gênero do zuihitsu (escrita rápida), e outros diários da corte de Heian indicam que eles podem ter sido mantidos por homens e mulheres1.9.

Os primórdios do "livro do eu''

Os diários de consciência ou espirituais tornaram-se muito populares no século XVII, alimentando a prática do diarismo nos séculos XVIII e XIX. Focando sobre a realidade interior em detrimento de aspectos exteriores da vida do diarista, esses diários são responsáveis por pavimentar o caminho para o surgimento do diário como o ``livro do eu'', surgido no século XIX.

``A grande forma de arte protestante'', como Mallon denominou os diários espirituais, foi a grande responsável por retirar dos diários o caráter público que tinham até então, para concentrar-se no aspecto da vida privada do diarista. Com a Reforma e o Renascimento, os diários tornaram-se o lugar em que a singularidade e a auto-reflexão eram com freqüência exercidas, de forma pessoal e privada.

O marco do diário pessoal

Na tradição do diarismo, o marco dos diários pessoais é atribuído ao escritor inglês Samuel Pepys (1633-1703), considerado escritor modelo do gênero. Ele escreveu entre 1660 e 1669, em escrita taquigráfica, os 64 volumes de seus diários chamados de Memoirs, que foram publicados somente em 1825, após terem sido descobertos e decifrados. Através desses exemplares, Pepys exercerá o hábito crítico da mente, associado com a observação e reflexão do mundo físico, social e do mundo interior.

Nos dez anos em que escreveu os diários - entre os 27 e os 36 anos -, Pepys refletiu sua atuação como um homem importante da corte inglesa, circulando nos altos escalões científicos e culturais do reinado de Charles II, a quem serviu de perto como membro da marinha.

O site da Enciclopédia Britânica destaca a importância dos diários de Pepys:

O diário foi muito mais do que uma simples recordação dos pensamentos e das ações do escritor. Ele é um supremo trabalho de arte, revelando sobre cada página a capacidade para selecionar o pequeno, tão bem quanto o grande, o essencial que carrega o senso da vida; e é provavelmente depois da Bíblia e do livro de James Boswell, A vida de Samuel Johnson, o melhor livro de cabeceira na língua inglesa1.10.

Citando Fothergill, Gannett lembra que Pepys chegou a ser considerado um diarista clássico pelo fato de escrever de uma maneira abrangente e ter a habilidade para incorporar ``todas as suas experiências, da mais pública à mais privada, na mesma chave, tratando imparcialmente todos os conteúdos do dia'' (Gannett: op. cit., p.115).

Segundo ela, o conceito de Pepys entre os vitorianos deve-se ao fato de ele ter sido um homem rico, bem sucedido, e, mais especificamente, por causa de suas constantes e cândidas descrições a respeito das investidas sexuais fora do casamento e de assuntos íntimos, tratados com naturalidade.

O papel de Evelyn & Boswell

Enquanto Pepys tornou-se o paradigma dos diários pessoais, outros dois ingleses, John Evelyn (1620-1706) - que escreveu os diários entre 1641-1706, mas foram publicados apenas em 1818 - e James Boswell (1740-1795) - que teve o diário publicado em 1785 - são considerados os maiores praticantes do gênero.

Dentro da tradição do diarismo, Boswell é considerado um dos melhores escritores do gênero. Ele é celebrado como um dos diaristas mais completos em termos de estilo e também pelo fato de ter aberto a público, como ninguém, a própria intimidade. O hábito de manter o diário foi iniciado aos 23 anos, recomendado pelo próprio amigo, o lexicógrafo inglês Samuel Johnson, a quem Boswell tinha como um pai:

Johnson recomendou-me manter um diário de minha vida, completo e não reservado. Ele disse que seria um bom exercício (...) que poderia mantê-lo privado e seguramente teria um amigo que o queimaria em caso de minha morte (Blythe: op. cit., p.300).

Somente após a Segunda Grande Guerra é que se teve uma idéia mais completa sobre o valor dos escritos de Boswell, depois que o conjunto deles, encontrado no castelo de Malahide, na Inglaterra, foi publicado. Boswell's London Journal, 1762-63; Boswell on the Grand Tour; Boswell in the Search of a Life; Boswell for the Defense revelaram que o diarista seguiu à risca a receita do mestre. Segundo Blythe, ele se tornou uma figura única na literatura inglesa, especialmente por adotar, como característica em seus diários, ser um escritor ``completo e não reservado'' (op. cit., p.301).

John Evelyn também foi um bem-situado membro da corte inglesa, e em seus diários relatou os principais detalhes da era do Rei Charles I até à Rainha Anne. Como membro fundador da Sociedade Real, Evelyn descreveu em seus diários o nascimento da ciência e da arte modernas. Seus escritos compõem um retrato do século XVII, por onde passeiam algumas das figuras mais importantes dessa época.

A partir da publicação dos escritos de Evelyn em 1818, os diários tornaram-se rapidamente populares tanto para leitura quanto para escrita. Até então, eles eram bem divulgados apenas em alguns círculos restritos, como o dos clérigos. Como lembra Gannett, o diarismo ganhou o reforço da tecnologia da impressão que se expandia à época, através do trabalho de pessoas como o impressor inglês John Letts, autor do Diário de Letts, que em 1836 publicou 28 diferentes formatos de diários e vendeu, no ano, vários milhares de exemplares em branco (Gannett: op. cit., p.115).

Embora os diários de Pepys sejam considerados modelo para o diarismo, o marco da nova consciência é o livro de ensaios do francês Montaigne, escrito em 1580. Segundo o pesquisador Louis Wann, citado por Gannett, ele é caracterizado ``pela franqueza, o discurso e estilo associativo livres, e a constante reflexão sobre o próprio autor, hábitos da mente que concordam perfeitamente com a tendência do diarismo padrão'' (op.cit., p.112 ).

Além do ensaio, o ambiente de transformações culturais ocorridas no fim da Idade Média promoveu o surgimento da autobiografia e, mais tarde, a novela, consideradas ``irmãs gêmeas'' dos diários. Diários de Evelyn e Pepys, dos poetas românticos e transcendentalistas, mesmo os de expedição científica de Darwin, são tidos como exemplos de tipos variados de desenvolvimento do próprio ensaio.

O ``livro do eu''

Foi somente no final do século XIX que se pôde realmente falar no diário como o ``livro do eu''. Mudanças científicas e culturais movimentaram o mundo civilizado e favoreceram o hábito de uma maior investigação e reflexão interiores. Entre os fatores estão as descobertas de Freud sobre o consciente e a natureza do inconsciente, associadas ao desenvolvimento do Romantismo, como elemento cultural.

A partir desse momento, diários tornaram-se o local onde o hábito de inquirir e refletir sobre si mesmo terminava se realizando. Coincidentemente, é também a partir dessa conjunção que diários começam a ser associados à escrita de mulheres.

Por outro lado, é também no século XIX que se dá uma nítida demarcação entre as esferas pública e privada. Como nos lembrou Mallon, os aspectos da cultura relacionados ao privado tornaram-se o domínio das mulheres, o que terminou contribuindo para afastar os homens da prática de manter diários e também para que o diarismo passasse a ser uma prática literária considerada menor. Esse crescente desinteresse de homens pela escrita de diário, no entanto, não faz jus à tradição do diarismo. A história dos diários é muito mais de homens do que de mulheres.

Sempre associado a produções femininas, os diários pessoais têm sofrido ao longo dos séculos grande marginalização, refletindo o status social da mulher e a estreiteza de papéis que desempenharam ao longo do tempo em relação aos homens. Por conta disso, se comparada aos homens, a história registra um número muito menor de mulheres escritoras de diários pessoais. Mas nem por isso elas deveriam ser tratadas com diferença, o que não ocorre.

Enfocando na maioria dos casos o mundo doméstico, espiritual, interior, os diários escritos por mulheres são muitas vezes tratados como menos legítimos do que aqueles escritos pelos homens. A diferença entre os dois estilos linguísticos está no fato de os diários pessoais masculinos refletirem o mundo dos homens, mais voltado tradicionalmente para a ação. Relatos militares, de viagem, política ou aventura, entre outros, são funções muito comuns encontradas nos diários pessoais de homens escritores.

Esses dois modos diferenciados de atuação representam o que Gannett chama de esferas de discurso privada e pública, referenciando-as, respectivamente, à mulher e ao homem. Citando a pesquisadora americana Dale Spender, ela diz que a dicotomia masculino/feminino, público/privado, é mantida para permitir às mulheres escreverem para uma audiência privada, mas desencorajando-as de escrever para audiências públicas, que seria uma arte masculina.

Na esfera `privada' mulheres têm sido permitidas a escrever para elas mesmas (por exemplo, diários) e para outros em forma de cartas, tratados morais, artigos de interesse para outras mulheres e mesmo novelas para mulheres (durante o século XIX mulheres eram a viga mestra do público leitor de novelas). (Gannett: op. cit., p. 95)

Outra pesquisadora, Shari Benstock, citada por Gannett, lembra que:

Cartas e outros tipos de escrita colaborativa, autobiografias, memórias, cartas de protesto e ensaios, novelas e contos, e principalmente, diários pessoais, são todos associados, embora não exclusivamente, com o legado da escrita de mulheres. As formas têm sido fluidas, não rigidamente definidas; os estilos são planos, vernaculares; os assuntos e técnicas são adquiridos da vida diária, família, eventos, relacionamentos; as funções são geralmente aquelas de utilidade pessoal ou social (não necessariamente pública). (Benstock Apud Gannett: op.cit, p. 97)

Gannett conclui que o status como escritoras sem expressão era resultado da discriminação sofrida por elas ao longo dos tempos. Relegar a mulher à esfera privada significava assegurar ao homem hegemonia lingüística e política. Ela resume, afirmando que ``homens têm sido os criadores das formas de escrita pública e têm avaliado e controlado o acesso do que é publicado. Também aos homens, muito mais que às mulheres, tem sido garantido o acesso à educação, o que garante o acesso ao discurso escrito público'' (op.cit, p.96).

Ela cita como exemplo o fato de que, embora no século XIV houvesse registro de mulheres freqüentando e até ensinando em universidades européias, essa porta foi fechada no Renascimento. E durante muito tempo no ocidente as mulheres ficaram impedidas de acessar a educação até metade do século XIX e, em alguns casos, até o século XX. Ela lembra que Oxford não abriu suas portas às mulheres até 1920 e Cambridge, até 1948. Às mulheres, repetidamente, segundo a autora, ``tem sido dito que não podem e não devem escrever na esfera pública. E quando o tem feito, têm sido ridicularizadas, criticadas ou ignoradas'' (op.cit., p.87).

Tradição Masculina x Exclusão Feminina

Embora no imaginário popular os diários íntimos estejam diretamente ligados às mulheres, a tradição publicizada desse gênero de escrita foi, ao longo dos séculos, predominantemente marcada pelos homens. O poder masculino de decidir sobre a forma de publicação foi uma das mais importantes forças que fizeram silenciar a voz de mulheres diaristas. Cabia aos homens a última palavra sobre o que seria publicado. Nesse sentido, as produções femininas eram desvalorizadas quando da adoção dos critérios de publicação, especialmente no que diz respeito ao conteúdo dos escritos de mulheres. A pesquisadora americana Penelope Franklin surpreende-se com os resultados de sua pesquisa:

O que eu encontrei entusiasmou-me: a vasta maioria de jornais publicados era de homens. Os milhares de diários de mulheres não-publicados estavam em arquivos através do país - milhares, conclui, estavam nos porões, como o meu. Eu notei que diários de homens publicados eram freqüentemente estórias de exploração, guerra, política ou aventura; ou eram diários de famosos escritores ou figuras históricas. Os diários de mulheres publicados eram às vezes de pessoas famosas, mas freqüentemente eles eram [de autoria] da esposa, mãe ou irmã de um homem famoso. Porque mulheres não estavam na maior parte escalando montanhas ou correndo para o escritório, ninguém tinha considerado seus diários particularmente interessantes (Apud Gannett: op.cit, p.121).

Para Gannett, o estudo da tradição denota que o diarismo é um gênero ``elitizado, europeu, branco, heterossexual e masculino'' e queixa-se:

Até recentemente o discurso sobre diários tem sido conduzido por homens sobre homens, usando critérios masculinos para avaliar o trabalho que tem marginalizado ou elidido a tradição do diário de mulheres. O segundo problema é que diários masculinos têm geralmente sido considerados mais importantes e, além do mais, têm sido freqüentemente preservados. Outra recente e importante razão para a presente lacuna nos discursos sobre diários é que o New Criticism, a mais importante crítica literária da primeira metade do século XX, colocou enorme valor sobre a forma de escrita autônoma, autocontida, formal e deliberadamente cheia de arte, quando desvalorizou vários outros tipos de escrita, incluindo os diários (op.cit., p.119-120).

Essa revelação nos faz compreender o fato de que só recentemente diários de mulheres passaram a ser publicados de forma mais constante. Gannett lembra que ``não é à toa que as poucas diaristas famosas estão no século XX, como Anne Frank, Anaïs Nin, Anne Marrow Lindbergh ou May Sarton'' (op.cit., p.100).

Culley, por sua vez, observa que menos de 10% dos diários listados no livro do pesquisador americano Williams Matthews, autor de American Diaries: an Annotated Bibliography of American Diaries Written Prior to the Year 1861, publicado em 1945 pela Editora da Universidade da Califórnia, Bekerley; e no livro American Diaries: an Annotated Bibliography of Published American Diaries and Journal, publicado em 1983 por Laura Arskey, Nancy Pries e Marcia Reed, são diários escritos por mulheres (Culley: Op., Cit., p.24)

Em contrapartida, o próprio Culley produz em A Day at a Time - The Diary Literature of American Women from 1764 to the Present, uma antologia contendo 29 diários de mulheres de diversas classes e culturas, revelando um painel de mais de 200 anos de tradição do gênero. Também Ronald Blythe, em The Pleasures of Diaries - Four Centures of Private Writing apresenta uma antologia de 67 diaristas, dentre os quais 19 - ou seja, 28% - são mulheres.

Diários de mulheres passaram a ganhar destaque mais recentemente, sendo a maior parte deles publicada no século XX. O século XIX, considerado o século dos diários íntimos, está ligado à obra de uma francesa, Amandine Aurore Lucie Dupin, que, curiosamente, adotava pseudônimo masculino: George Sand, cujo diário intitulado Journal Intime foi publicado pela primeira vez em 1926.

Nascida em uma família de pai aristocrático, Sand (1804-76) foi educada em um convento de Paris. Chocou os padrões da época pela personalidade forte e pela forma com que buscou a própria liberdade. Em 1831 deixou um casamento de oito anos com o Barão Dudévant, com quem teve dois filhos, e, cinco anos depois, obteve o divórcio.

George Sand escreveu 70 romances e 24 peças a partir de 1831, que a tornaram largamente popular e a ajudaram a manter-se e aos dois filhos em Paris. Inicialmente de temática romântica, os escritos de Sand foram expressando uma preocupação com a reforma social, sendo a liberdade e os direitos da mulher alguns de seus principais temas.

Sand defendeu em seus livros o amor romântico pela natureza e um idealismo moral. Muito de seu trabalho é autobiográfico, como os livros História de Minha Vida (1854), Ele e Eu (1859), sobre sua relação com o escritor francês Alfred Musset (1810-1857); e Um Inverno em Maiorca (1842), sobre a relação com o compositor Frédéric Chopin (1810-1849). Viveu também com o escritor francês Jules Sandeau (1811-1883), de cujo sobrenome retirou o prefixo Sand para o pseudônimo. Sand escreveu Rose et Blanche ou La Comédienne et la religieuse (1831) em colaboração com Jules Sandeau.

O novo diário do século XX

Em busca do próprio Eu

Desde o começo da tradição, diários de mulheres acabavam expressando a vida social, freqüentemente voltada para a parte doméstica e espiritual. Seus diários as traduziam como historiadoras da família e da comunidade, recordando todos os fatos da vida como ``nascimentos, mortes, doenças, viagens e ocorrências incomuns que fizeram o tecido de suas vidas'' (Culley: op. cit., p.4).

Embora elas também tenham escrito diários que podem ser enquadrados na tipologia dos diários escrito por homens - incluindo diários políticos, de viagem, comunitários, científicos e naturalistas, espiritualistas e diários de memória pessoal - a tradição liderada pelas mulheres aparece mais freqüentemente sob a ótica do privado.

As diaristas americanas Mary Vial Holyoke (1737-1802) e Mary McLane (1881-1929) são citadas por Culley como dois exemplos claros em cujos diários se manifestam, diferentemente, o conteúdo, a forma e a função, separados por 200 anos de tradição. Holyoke é autora de um diário comunitário, considerado ``típico'' do século XVIII: ``uma crônica de quem visitou, quem adoeceu, quem nasceu e quem morreu, com eventos tradicionalmente considerados históricos'' (op. cit., p.6). Culley nota que a diarista usa o pronome na primeira pessoa somente uma vez numa seção de dois meses.

Diferentemente, Mary Mclane é o exemplo de como o diário emergiu para expressar a consciência sobre o eu. Segundo Culley, ela escreve sob a influência geral do romantismo europeu, da tradição específica do diário íntimo francês e no contexto do impacto de Freud. O pesquisador percebe que ``ela tem no pronome pessoal o pronome favorito e embora enfoque intensa e exclusivamente a própria consciência, o diário não menciona atividades de rotina diária, da família de amigos ou de qualquer outra pessoa'' (op.cit, p.7).

Ou seja, enquanto Holyoke apresenta uma narrativa de cunho histórico-social, Mclane mergulha na própria subjetividade, descrevendo seus próprios pensamentos e sentimentos. A vida interior de Mclane é seu ponto de referência.

Apesar de mais corrente e popular, essa visão dos diários exemplificada por Mclane tem predominado somente mais recentemente a partir do final do século XIX e em todo o século XX. Essa mudança na escrita representa um avanço para a expressão do eu de mulheres, antes freqüentemente silenciado pela posição de submissão e desigualdade que ocupavam e ainda ocupam na estrutura social.

Com um universo de audiência restrito, mulheres tendiam a escrever para outras amigas íntimas, a família, os filhos ou para elas próprias, através dos diários. Elas escreveram para elas mesmas ou para o diário parte do que elas podiam ou não podiam dividir com outros em seus círculos doméstico ou social (Gannett:1992, p.131).

Freqüentemente os diários de mulheres entre os séculos XVII e XIX significam a expressão de suas vidas, refletindo o tipo de papéis que elas ocupavam no meio social: donas de casa, esposas e mães e, em muitos casos, viúvas. Embora desempenhassem bem esse papel de historiadores familiares e comunitários, muitos diários de mulheres apresentavam-se inibidos em relação a aspectos como o corpo, a mente e sentimentos.

Até o século XX, diários de mulheres não eram ``auto-reflexivos nem auto-reveladores'', conforme nos informa Blodgett, que revela: ``(...) mulheres foram treinadas para não falar ou pensar sobre seus corpos; elas foram treinadas para considerar o sentimento de outras pessoas em detrimento de seus próprios, e muito da linguagem que elas usam pode silenciá-las'' (Apud Gannett: 1992, p.127) .

Blodgett observa, ainda, que ``Mendelson notou em diários do século XVII que um freqüente tema de diários de mulheres era exortar a elas mesmas para o ensino religioso de obediência marital. Elas freqüentemente reprovavam a si mesmas pela insubordinação marital'' (op.cit, p.128).

Crônicas da vida na corte

Dentro da tradição, diários de mulheres nos séculos XVI e XVII combinaram, segundo Gannett (op. cit., p.132), uma forma espiritual (confessional) e familiar. Nos séculos XVIII e XIX, muitas mulheres escreveram diários sociais. Ela cita como exemplo as bem conhecidas mulheres de classe média alta da corte, Funny Burney, Lady Cowper ou Lady Margaret Cavendish, cronistas da vida na corte; ou mesmo mulheres bem colocadas, como Hester Thrale, amiga íntima de Samuel Johnson, a qual descreveu anedotas e conversas, além das atividades correntes de grupos sociais de elite dos quais ela tinha participado.

Esses diários foram mais freqüentemente publicados porque ``sustentavam imagens públicas de homens famosos'', conforme notou Gannett (op.cit., p.132). Além de cronicar a vida ativa da corte, diários de mulheres também funcionaram como expressão da vida de outras pessoas. Elizabeth Winn, famosa diarista do século XVIII, tornou-se conhecida por registrar, em 68 volumes de diários, a extensa correspondência que manteve com o marido, o capitão de mar Freemantle, mantendo viva as atividades dele como marinheiro enquanto ela se colocava na posição de esposa.

O Novo Diário

As várias funções - espirituais (confessionais), familiares, sociais - que diários assumem ao longo da tradição realizada por mulheres, marcam uma diferença em relação à prática realizada a partir da segunda metade do século XIX. É aí, como já vimos, que o entendimento sobre o eu e sobre a consciência mental e emocional ganham contornos bem definidos e possibilita às mulheres a produção de diários com esse conteúdo.

Esse tipo de diário conhecido como o ``livro do eu'', tornou-se popular nos Estados Unidos, a partir da publicação dos diários de Marie Bashkirtseff (1860-84). A jovem artista russa os escreveu com a clara intenção de publicá-los, e contou para isso com a ajuda da própria mãe. Intuindo que morreria cedo, Marie decidiu manter o diário. Isso ficou ainda mais claro quando ela contraiu uma tuberculose. A intenção era claramente ganhar notoriedade. Segundo a autora, caso não tivesse tempo de ficar famosa com a pintura, os diários lhe dariam a fama desejada.

Os diários foram publicados pela primeira vez na França, em 1887, e foram traduzidos para o inglês em 1889, tornando-se um fenômeno popular. Muitas mulheres americanas passaram a manter diários íntimos com a intenção de se tornarem tão famosas quanto Marie, que morreu aos 24 anos, e fez o ``livro do eu'' tremendamente popular (Culley: op. cit., p.7). São exemplos dessa fase o diário de Marie Bonaparte, psicanalizada por Freud, e que mais tarde tornou-se psicanalista; e o diário de Carl Gustav Jung.

O ``livro do eu'' vai evoluir para aquilo que a escritora americana Tristine Rainer, no final da década de 1970, chamou de o Novo Diário do século XX, que está associado ``com a exploração da criatividade, crescimento pessoal (significando o crescimento do todo da pessoa), reparação ou terapia'' (Gannett: op. cit., p.141).

O Novo Diário tem como uma de suas mais conhecidas praticantes a escritora americana Virginia Woolf (1882-1941). Vítima de incesto e violência sexual desde criança até a idade adulta, a autora escreveu seus diários entre 1915 e 1941, que lhe permitiram começar um processo de reconstituição do próprio eu. Ela chegou a relatar que ``a melancolia diminui quando escrevo'' (Apud Gannett: op. cit., p.147).

Outro exemplo do uso do diário como elemento catártico foi feito pela escritora americana Sylvia Plath (1932-1963), desaparecida precocemente ao sucidar-se aos 29 anos. Ela acreditava dissipar muitos sentimentos ruins quando escrevia. Seus Journaux, escritos entre 1950 e 1952, registram muito do sofrimento enfrentado durante a curta e tumultuada vida, bem como a força que buscava para enfrentar os problemas mais íntimos.

Precoce, Sylvia Plath já escrevia, aos 10 anos, novelas e poemas que chamavam a atenção de seus professores; aos 20, vence um concurso organizado em Nova Iorque pela revista Mademoiselle. Reprovada no curso de redação em Harvard, mergulha numa profunda depressão e é tratada com eletrochoques. Aos 24 anos conhece o poeta Ted Hughes, durante os estudos em Cambridge, Inglaterra, e casa-se com ele.

O diário é escrito dos 18 aos 21 anos quando decide ser grande escritora, famosa. Nele, a escritora relata os trabalhos de verão no campo, as aspirações e convicções, demonstrando um desejo pelo lado prazeroso da vida. Isso, no entanto, não se mantém. Em 1953, tenta matar-se. Em 1962, o marido Ted Hughes a abandona. No Natal ela muda-se com os dois filhos para uma casa em Londres. Em 11 de fevereiro de 1963 suicida-se, após preparar o leite das crianças. Escreveu um bilhete e abriu o gás de cozinha2.1. Os diários foram editados por Ted Hughes, que fez questão de destruir um dos dois últimos volumes. O argumento é de que ele não gostaria que os filhos os lessem.

Além de funcionar como instrumento para purgar as dores da alma, diários de mulheres do século XX estão ocupados em resgatar a identidade perdida entre os anos de profunda submissão ao discurso masculino. Com a voz até hoje muitas vezes silenciada e pouco reconhecida, milhares de mulheres se utilizaram e ainda se utilizam dos diários como lugar no qual elas podem ser elas mesmas. ``Para mulheres, o diário tem sido um dos poucos lugares nos quais elas puderam ser escritoras e mulheres, sem paradoxo'' (Gannett: op.cit., p.147).

Uma das famosas diaristas do século XX, a francesa naturalizada americana Anaïs Nin (1903-1977) até hoje mantém milhares de seguidores, principalmente mulheres, em função especialmente dos diários que publicou. Embora tenha escrito novelas - Winter of Artifice (1939) e A Spy in the House of Love (1954), além de trabalhos críticos incluindo The Novel of the Future (1970); e dois volumes de escrita erótica, The Delta of Venus (1977) e Little Birds (1979) - ela tornou-se mais conhecida pelos diários que manteve: quinze ao todo, escritos e/ou publicados entre 1914 e 1996. Os diários de Nin são vistos como ``modelos de autonomia intelectual da mulher e de um relacionamento de igualdade entre homens e mulheres'' (Schiwy: 1995, p.256).

Diários: terapia e autodescobrimento

A evolução de diários como porta para a auto-expressão e autocompreensão de mulheres foi também impulsionada na década de 1970 pelo movimento feminista e por um conjunto de acontecimentos nos Estados Unidos. Nessa época, alguns importantes trabalhos sobre diários foram publicados.

O psicólogo americano, Ira Progroff, de orientação jungiana, desenvolveu um método estruturado de escrita de diários que promete aos praticantes o acesso a níveis profundos da consciência. Chamado de Intensive Journal, o método usa o silêncio, a associação livre e um formato de diálogo para explorar diferentes dimensões da vida do diarista. O processo está descrito no livro que o autor publicou At a Journal Workshop (1975) e também nos seminários e workshops que realizou pelo país, por muitos anos desde 1966. Progroff faleceu em 1998, vítima de uma doença neurológica.

A ``Terapia de Diários'', como o método é descrito, trabalha no sentido inverso dos diários tradicionais - que se debruçam sobre acontecimentos cotidianos -, focando nos diaristas experiências internas, reações e percepções do dia-a-dia.

O escritor é capaz de perceber experiências mais claramente e sentir o alívio de tensões e problemas. O método tem demonstrado benefícios para a saúde física e mental (...). Ele se tornou rapidamente popular e tem sido ensinado a mais de 250 mil pessoas através de uma rede de consultores de diários treinados pelo próprio Ira Progroff2.2.

Outros dois fatores que contribuíram para o desenvolvimento do Novo Diário foram o lançamento do livro publicado em 1977, pela escritora e professora americana Christina Baldwin2.3, intitulado One to One: Self-Understanding Through Journal Writing, baseado em aulas para adultos que ela vinha dando; e a publicação, em Los Angeles, por Tristine Rainer, em 1978, do The New Diary: How to use a Journal for Self-Guidance and Expanded Criativity, um guia reconhecido como um dos recursos mais completos e acessíveis sobre o uso do diário como instrumento para o autodescobrimento e a exploração do eu.

Em 1985, a piscoterapeuta Kathleen Adams, do estado americano do Colorado, diretora fundadora do The Center for Journal Therapy2.4 começou ensinando, através de workshops, a usar diários como ferramenta para a autodescoberta, expressão criativa e encantamento da vida. Em 1990, ela publicou o livro Journal to the Self: 22 Paths to Personal Growth, como resultado desse trabalho2.5.

Embora existam muitos psicoterapeutas que incorporam a Terapia de Diário nas sessões, existem relativamente poucos especialistas no assunto. Aqueles que utilizam o método pedem, freqüentemente, aos clientes para escrever um ou dois parágrafos sobre o que eles estão sentindo ou o que gostariam de trabalhar na sessão, além do que está acontecendo em suas vidas que impactam o trabalho terapêutico.

A escrita é em geral compartilhada com o terapeuta, que guia o cliente a se sentir melhor sobre os assuntos trabalhados. O tempo da escrita dura, em geral, 10 minutos e o resto da sessão é usado para trabalhar melhor o conteúdo trazido pelo paciente. A sessão é finalizada com o paciente levando para casa o compromisso de escrever em seu diário até a nova sessão. A Terapia de Diário também pode ser aplicada em grupo, com os membros sendo encorajados a compartilhar as expressões autênticas do eu.

Atualmente existe um programa de educação formal em terapia de diário/poesia em nível de pós-graduação. É o Mestrado de Artes em Terapia da Poesia da Faculdade Goddard, em Vermonte2.6, Estados Unidos.

Geralmente terapeutas têm formação em psicologia, assistência social ou áreas afins. Eles podem atender a um programa credenciado como o da Associação Nacional para a Terapia da Poesia (NATP), que cobre a Terapia de Diário como parte do currículo. A Terapia de Diário também pode ser aprendida através de programas de estudo oferecidos por instrutores ligados à NATP, como é o caso do Center for Journal Therapy, coordenado por Kathleen Adams, ou o Wordsworth Center for Poetry Therapy Training2.7, através dos quais se pode obter o registro de terapeuta.

A Terapia de Diário tem sido usada para tratar casos de angústia e perda, acompanhamento de doenças crônicas, desordem da alimentação e traumas; problemas de matrimônio e relacionamentos familiares, melhorar problemas de comunicação e de auto-estima, melhorar a perspectiva de vida e para tornar claras as metas de vida dos pacientes.

Diários como ferramenta no ensino

Também tem contribuído para o desenvolvimento do Novo Diário a utilização de diários como ferramenta no ensino. Segundo informações da The Encyclopedia of Body/Mind Disciplines, citada no site do Centro para a Terapia de Diário (v. nota 12), na década de 1980 muitos sistemas de educação pública americanos começaram a utilizar formalmente diários em aulas de língua inglesa e em várias disciplinas através do currículo. Chamados de diários dialogados ou de resposta, eles oferecem um caminho para estudantes desenvolverem pensamentos críticos e dão aos professores um método para interagir diretamente com o estudante.

Embora a proposta fosse mais educacional do que terapêutica, os professores notaram que uma simples atenção sobre questões acadêmicas ou problemas revelados, refletiam sobre a vida emocional do estudante. Os alunos freqüentemente reportavam sobre sentimentos de alívio e redução da tensão quando eles podiam escrever sobre eventos problemáticos, confusão de pensamentos e sentimentos.

Essa concepção sobre a importância de diários na auto - expressão e desenvolvimento intelectual e emocional do aluno foi favorecida pela atenção que passou a ser dada, a partir da década de 1960, nos Estados Unidos, à escrita informal. Um dos grandes incentivadores dessa prática, o pesquisador Toby Fulwiller, revela que, embora a escrita de diários seja freqüentemente depreciada no mundo acadêmico - por estar do lado oposto da linguagem formal -, mais recentemente ela vem sendo defendida por pesquisadores:

Estudiosos, incluindo Vigotsky (1962), Moffett (1968, 1982), Britton (1970, 1975), Emig (1971, 1977), Elbow (1973, 1982), Shaughnessy (19770 e Berthoff (1983) defendem que os seres humanos constroem significado no mundo explorando-os através da linguagem e da própria facilidade de se comunicar nas mais diversas formas, como, por exemplo, através do telefone, em cartas informais e também em diários. Estes têm sido reconhecidos como o local onde o pensamento independente, a especulação, a exploração são importantes. (Fulwiller: 1987, p. 1).

Esse entendimento do valor da escrita informal levou, nas décadas de 60 e 70, ao movimento chamado Writing Across the Curriculum (WAC). Na década seguinte, o WAC inspirou outro movimento referido como Leitura e Escrita Através do Currículo ou Linguagem Através do Currículo, que buscou restaurar a leitura e a escrita para o centro dos currículos das faculdades. A concepção básica defendida pelo WAC é de que a escrita deve ser um caminho para descobertas de significados, um caminho de conexões entre idéias e o eu de alguém. Com isso, os diários foram introduzidos formalmente no ensino como ferramenta de auxílio pedagógico para expressão do eu e desenvolvimento da escrita.

Por que alguém escreve um diário?

As várias funções que diários ocuparam ao longo da tradição nos dão uma idéia de que variados foram os motivos que levaram alguém a mantê-los. Avaliando essa evolução, Lowenstein observa que ``a manutenção do diário é análoga a traçar o desenvolvimento da autoconsciência''; enquanto Fothergill sugere que ela pode ser vista como ``a manifestação da história da sensibilidade'' (Apud, Gannett: 1992, p.105).

De fato, observando a tradição do diarismo sob a ótica da aproximação cada vez maior das mulheres ao gênero, e a relação que elas estabeleceram com a exploração da própria autonomia e autoconsciência pessoais, fica nítida a percepção apontada por Gannett, através do reforço de Lowenstein e Fothergill. Diários refletem a história de como homens e mulheres se autopercebiam e se autoconstruíam ao longo do tempo e, nessa evolução, os papéis que ocupavam no seio social.

A autora reconhece que, embora formalmente mulheres tenham usado diários para falar menos sobre a própria experiência, servindo muito mais a outros - maridos, filhos, família, comunidade - , é certo que isso não pode ser considerado sob uma visão negativa. Segundo ela, em vários diários de enfoque doméstico ou social que analisou, observa-se uma ``fascinante ruptura do eu'', ou seja, um rompimento das diaristas com valores e comportamentos esperados, expressando nos diários seus anseios, suas observações e críticas sobre o mundo.

Para Gannett, isso significou ``que mulheres encontraram imediato e profundo valor pessoal mesmo em diários que serviam a propostas de outros'' (Gannett: op. cit., p.137). Por isso, não é difícil imaginarmos porque, ao longo da tradição, milhares de mulheres utilizaram o gênero para expressão de suas vozes, e, a partir dos últimos 100 anos, diários passaram a ser considerados um tipo de escrita feminizado.

Cada vez mais, mulheres se sentiram atraídas pelo gênero que se foi estabelecendo como o lugar onde ``escrever foi possível e gratificante para elas'', conforme nos lembra Blodgett. A autora sustenta que diários, como gênero de recordação pessoal, funcionaram como local de resistência de mulheres contra ``o ataque patriarcal sobre a identidade e auto-estima''(Apud Gannett: op. cit., p.137). Também Culley acredita que há um senso de identidade implícito nesse ato de escrita. Para ele, ``manter um diário está sempre associado com a idéia do diarista de que a vida dele é algo remarcável'' (Culley: 1985, p.8) e merece ser lembrada.

A presença masculina na tradição dos diários do século XX

O motivo que leva alguém a manter um diário tem sido uma questão mais freqüentemente respondida tomando como base a escrita de mulheres. Autores diversos, debruçando-se recentemente sobre essa questão, a têm avaliado sob o ponto de vista da reconstrução da autonomia feminina. Dentro dessa linha está a americana Marlene A. Schiwy, que observa:

A literatura do século XX tem colocado as mesmas questões que nós temos feito na privacidade de nossos diários: Quem eu sou? Qual é o significado de minha vida? Mulheres diaristas, em particular, têm focado sobre procurar por uma identidade não governada por definições e desejos masculinos, e sobre nossa atenção para entender nosso autêntico lugar no mundo. Da autobiografia de Simone de Beauvoir aos diários de Virginia Woolf, passando pela poesia de Adrieene Rich e a ficcão de Margaret Atwood, mulheres escritoras estão reescrevendo, radicalmente, os scripts que por século as têm modelado. (Schiwy:1996, p.21).

Embora a busca por uma identidade pessoal e a exploração do que as mulheres são e o que querem na vida sejam traços marcantes da literatura de mulheres no século XX, diários desse período ultrapassaram também essa proposta. Eles não estiveram apenas filiados ao ``livro do eu'', mas abarcaram situações variadas, como os diários de guerra - que possuem muitos ícones, como Anne Frank e Emanuel Ringelblum -, sobre viagens, política e amor, por exemplo.

Mais do que uma simples identificação das mulheres ao gênero, os diários e outras formas de narrativas pessoais foram tomados como aquilo que era possível às mulheres praticarem. No entanto, essa aproximação cada vez maior dos diários ao universo das mulheres - constituída, sobretudo, como uma prática do mundo privado das adolescentes - não significou a exclusão dos homens, pura e simplesmente, da realização dessa prática.

Em diversas culturas nas quais o diarismo floresceu como prática, existem registros bem conhecidos de homens escritores de diários. Nos Estados Unidos, no século XIX ganharam popularidade Meriwether Lewis e William Clark, que escreveram suas aventuras ao mapear a Passagem Noroeste; os americanos Henry David Thoreau, que escreveu dois milhões de palavras de meditação de sua vida nas florestas e o escritor Ralpho Waldo Emerson; o novaiorquino George Templeton Strong, que manteve um diário relatando o tempo de estudante na Universidade de Colúmbia, o casamento, a carreira em Wall Street e a Guerra Civil; na Europa, a tradição dos diários foi sustentada no século XIX também por importantes figuras, como Tolstoi, na Rússia; Jonhathan Swift, na Irlanda; Charles Baudelaire, os irmãos Jules e Edmund de Gouncourt e Andre Gide, na França.

No século XX destacaram-se, entre outros, o aviador Charles Lindebergh, os assassinos convictos Arthur Bremer e Lee Harvey Oswald, o ex-presidente Richard Nixon, escritores como F. Scott Fitzgerald, Allen Ginsberg, e Truman Capote; o tcheco Franz Kafka, o austríaco Sigmund Freud, e o alemão, Thomas Mann.

Este último registrou a vida minuciosamente nos diários, mas apenas uma parte deles sobreviveu. O próprio escritor, que tinha o hábito de narrar-se nos pormenores da vida cotidiana, preferiu queimar parte deles com medo que caíssem nas mãos de nazistas ou mesmo por medo de ter a vida revelada a estranhos. O material que sobreviveu foi relativo aos escritos de 1918 a 1955, publicados em duas partes: 1918-1939 e 1940 a1955.

Em Portugal, figuram entre os que escreveram diários: Miguel Torga2.8, pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, várias vezes nomeado para o Prêmio Nobel de Literatura, publicou 16 volumes de Diário, escritos entre 1941 e 1995 (ano de sua morte), tornando-se um dos mais conhecidos autores portugueses do século XX; e Sebastião da Gama2.9, natural de Setúbal, que teve uma vida curta (1924-1952), consumida por uma tuberculose, escreveu várias obras, entre as quais o volume póstumo de seu Diário, publicado em 1958.

Também breve foi a vida de outro escritor português Manuel Laranjeira2.10 (1877-1912), que se suicidou com um tiro na cabeça, depois de se desesperar com uma sífilis nervosa. Laranjeira dedicou a vida à poesia e ao teatro. Escreveu várias obras nessa linha, sendo a primeira ... Amanhã (prólogo dramático). O Diário Íntimo foi publicado postumamente, em 1952.

Outra personalidade portuguesa autora de diários foi Ruben A.2.11, pseudônimo para Ruben Andersen Leitão. Nascido em Lisboa, em 1920, Ruben foi romancista, conhecido também como dramaturgo, cronista e historiador. Deu aulas no King's College, em Londres, e, entre outras funções, foi funcionário da Embaixada do Brasil em Lisboa. Escreveu Páginas, seis diários publicados em 1949, 50, 56, 60, 67 e 70. Faleceu em Londres, em 1975.

Também destaca-se a escrita daquele que é considerado o único diarista da Ilha de Açores. Fernando Aires publicou até agora cinco volumes de Era uma Vez o Tempo (Diário I, Diário II, Diário III, Diário IV e Diário V), registrando, desde 1988, a vida em forma de diários. Contemporaneamente também se destaca como autor de diários outro português, José Saramago, prêmio Nobel de Literatura. Os cinco tomos de diários levam o título de Cadernos de Lanzarote, aludindo à ilha de onde são escritos, a partir de 1993, aos 71 anos.

Indagado sobre o porquê de escrever diários com essa idade, Saramago revela:

O fato de estar longe de Portugal foi determinante, mas também o que chamaria uma súbita redescoberta do tempo, como se este mar, estas paisagens me tivessem feito recuperar a antiga impressão de permanência (de lentidão pelo menos) que todos tivemos na infância, quando os dias e as estações pareciam não querer acabar. A cada momento, a razão diz-me que o tempo passa, e mais rápido agora do que nunca, mas como fiz escrever na contracapa do livro `conto os dias pelos dedos e encontro as mãos cheias'. Este diário não é um sinal de guerra, mas de paz comigo mesmo2.12.

Na América Latina, Luiz Oyarzún (1920-1972) é considerado um dos maiores expoentes do gênero no Chile. Seu Diário Íntimo, recuperado pelo professor Leônidas Morales, cobre um período de 33 anos durante o qual ele vivencia muitas viagens pelo mundo, destacando, nas 600 páginas, vivas descrições da natureza2.13. Ainda no Chile, destacam-se os diários de Teresa Wilms Montt, escritos em 1915. A autora teve uma morte precoce ao suicidar-se em Paris, aos 28 anos.

Segundo Melanie Jösch, ela é mais reconhecida pela intelectualidade européia do que no próprio país. Teresa Wilms Montt escreveu parte dos diários num convento de Santiago, onde foi colocada pelos pais, sobre o qual descreve, com grande desespero, os dias que ali passou. Também fazem parte da expressão diarística latino-americana o escritor argentino Manuel Puig e o peruano José Maria Arquedas, por exemplo. No Brasil, sem grande tradição na prática diarística, como veremos mais adiante, sobressaem os nomes do barão de Langsdorff, Lúcio Cardoso, Lima Barreto, Roberto Alvim Correia e Josué Montello, dentre outros.

A partir desse largo espectro de pessoas de todas as classes, nacionalidades e idades variadas, que foram levadas por motivos diversos a manter diários, Schiwy (op. cit., p.18) elaborou uma relação que aponta algumas das propostas comuns a todos que se interessaram em manter um diário:

Essa relação apontada por Schiwy abrange muitos dos motivos que contemplaram os variados tipos de diários da tradição do gênero. Já Culley destaca, ainda, o interesse do diarista em ``segurar a passagem do tempo'', idéia associada ao que Schiwy chamou de ``criar senso de continuidade em nossas vidas''.

Segundo ele, pequenas ``mortes'' ou deslocamentos têm levado à manutenção de diários. Para o autor, ``casamentos, viagens, viuvez, são todos ocasiões que criam um senso de descontinuidade do eu. Eu era, agora eu sou; eu estava lá, agora estou aqui" (op. cit.). Portanto, manter diários de recordações pode ser uma tentativa de sustentar o sentido de continuidade quebrado ou perdido, ajudando a segurar a passagem do tempo.

Diários e a audiência

Diferentemente do romance e da autobiografia - que formam um todo artístico -, diários estão sempre em processo. Cada entrada diária representa um fragmento que é reconstituído, durante a leitura, pelo leitor. Como a vida do diarista está sempre em construção, ao contrário de outras narrativas que criam um mundo ficcional completo em torno delas mesmas - como o romance, a novela, a memória ou a autobiografia -, cada nova entrada pode ser uma surpresa para o leitor, em decorrência da estrutura do gênero.

O tempo não é olhado de um ponto fixo, como na memória e na autobiografia; ou estruturado em um todo narrativo, como no romance, mas acontece num presente contínuo. Ao ler um diário, o leitor é levado a realizar a mesma jornada do diarista, recriando com ele, em paralelo, a continuidade, a partir de uma aparente descontinuidade de fatos e eventos.

O leitor torna-se, portanto, um elo importante na estrutura que atualiza2.14 o valor da noção de continuidade de diários. Essa audiência, no entanto, nem sempre foi expressamente pretendida pelos diaristas, embora alguns autores como Thomas Mallon (Mallon: 1995, p.xvii; e Blythe: 1989, p.1) admitam que se alguém escreve - mesmo um diário -, é sempre com a pretensão de ser lido.

Autores como a diarista russa Marie Bashkirtseff escreveram com a clara pretensão de publicar os volumes de diários:

A recordação da vida de uma mulher, escrita dia a dia, sem qualquer esforço para escondê-la, como se ninguém no mundo fosse lê-la, mesmo com a proposta de ser lida, é sempre interessante. Por estar certa de que eu devo ser simpática, eu escrevo tudo, tudo, tudo. De outra forma, por que eu deveria escrever? (Apud, Culley: op. cit., p.8)

Da mesma forma, Anne Frank decidiu manter o diário com a expressa intenção de publicá-lo assim que a Segunda Guerra acabasse. Como Marie e Anne, outros autores pretendiam a publicação dos diários. A diarista May Sarton, irmã de Anais Nïn, achava que os seus jornais deveriam ser escritos para uma audiência, e que isso dava a ela uma disciplina: ``isso fez com que eu tentasse ser honesta com meus leitores e comigo mesma. Não faço de conta que as coisas são melhores do que realmente são, mas aprendo a evoluir sem autopiedade ou autoglorificação, o que sempre tem acontecido para mim'' (Schiwy: op. cit., p.259-260).

Marlene A. Schiwy também revela que Virginia Woolf se questionava a respeito da audiência.

Afinal, perguntamos, para quem se escreve?

``Eu sempre escrevo, mesmo aqui, para meus próprios olhos? Se não, para os olhos de quem?'' (Virginia Woolf Apud Schiwy., p. 259).

A questão da audiência é polêmica. Nem todos os diaristas assumiam a preocupação de escrever para um outro. Ao contrário, boa parte escrevia ``para os próprios olhos'', tendo o próprio diário funcionado como uma audiência implícita, num processo de objetivação do eu. Nesse sentido, ele funcionaria como um alterego, uma espécie de ``duplo'', no qual o escritor diria a si mesmo verdades inconfessáveis.

O Outro, nesse caso, seria ele mesmo, uma parte dele, os outros olhos, talvez os olhos da alma. Como uma criança que elege um amigo imaginário para projetar nele o que não seria capaz de dizer em nome próprio. O diário pode, então, encarnar o melhor amigo, a ``consciência'', a divisão do eu. Cabe, aqui, perfeitamente uma frase de Rimbaud: ``o eu é o Outro''. Outro que emerge nesse diálogo consigo próprio.

Alguns exemplos clássicos ilustram essa posição. A diarista americana Helen Ward Brandreth (1862-1905), que manteve o Diário de uma cortesã entre 2 de janeiro de 1876 até setembro de 1885, e escreveu na abertura: ``Eu estou determinada a manter um diário. Eu devo chamá-lo Fannie Fern'' (Culley: op. cit., p.149).

Órfã de mãe aos nove anos, ela foi criada por irmãos mais velhos e pelos tios, e manteve o diário a partir dos 14 anos. Helen relacionou-se com o diário como se fosse um amigo querido, relatando nele entre 1876 e 1885 o dia-a-dia que incluía os lances amorosos.

A diarista americana Deborah Norris, em 1835, declarou-se pela privacidade do conteúdo do diário que escrevia: ``Este livro é somente para mim mesma. Ele não conteria metade das bobagens se eu tivesse o hábito de mostrá-lo a outros''. Apesar disso, Norris chegou a endereçar o que escrevia ``aos leitores, que daqui para frente deverão examinar cuidadosamente estas páginas'' (Schiwy: op. cit., p.260).

Outra diarista, Charlote Forten, escreveu, em 1854, impressões sobre manter um diário: ``Um desejo de recordar a passagem de eventos de minha vida, mesmo se perfeitamente sem importância para outros, naturalmente possui grande interesse para mim mesma, e dos quais será prazeroso ter alguma lembrança, tem induzido-me a começar este diário'' (Culley: op. cit., p.9-10).

Mistérios e Vazios

Real ou imaginária, a audiência tem o papel de produzir no diarista o senso de um outro que o escuta e promove nele mudanças. Atendendo diretamente por leitor ou por nomes como Fanny Fern - como fez Helen Ward Brandreth -, Querida Kitty, como chamava Anne Frank seu diário - ou expressões típicas como Querido Diário, freqüente entre boa parte dos diaristas, essa audiência tem influência sobre o que é dito e como isso é dito. ``Aquela presença torna-se um poderoso `Outro' para o `Eu' do diarista. Isso modela a seleção e arranjo de detalhes dentro do diário e determina, mais do que qualquer coisa, o tipo de autoconstrução do diarista'' (Culley: op. cit., p.12).

Observando como a audiência modela a escrita do diarista, podemos citar May Sarton como exemplo para esse fenômeno. Embora a diarista admita ter optado conscientemente por publicar os diários, ela também fez uma opção consciente de omitir certos detalhes de sua vida, como informa nas páginas finais do diário A Journal of the Eightieth Year:

Pessoas freqüentemente pensam que eu me solto nesses diários escritos para publicação. Elas aparentemente não imaginam que grandes áreas de minha vida nunca são mencionadas. Eu nunca falo profundamente de uma ligação amorosa. Para este importante lado da minha vida, como relacionamentos íntimos, amizades profundas, leitores têm que ir para os romances. (Apud, Schiwy: op. cit., p.259)

Esses mistérios e vazios, como o exemplo apontado por May Sarton, ao contrário do efeito pretendido pelo diarista - consciente, ou inconsciente, de passar despercebido - pode avivar o interesse e a percepção do leitor. Culley diz que ``o que o diarista não fez, não poderia ou não deveria fazer, às vezes salta das páginas''. Segundo ele, um dos mais altos exemplos de silêncio nos diários de mulheres americanas é a linha escrita por Mary Holyoke, em 1º de setembro de 1782, na qual ela diz: ``Minha querida criança morreu às 9h30min, o que soma a oitava criança'' (Culley: 1985, p.22-23).

O que chama a atenção para Culley é o fato de a diarista ter dado à luz 12 filhos, dos quais, três apenas sobreviveram. Mas, nas páginas do diário, Holyoke não menciona o fato de ter estado grávida, nenhuma angústia em relação aos partos e nenhuma menção sobre relações sexuais. Segundo o autor, a diarista menciona apenas as recordações sobre bebês que nascem para ela e também na comunidade, e sobre a morte e o abandono deles.

A omissão de fatos ou eventos, a repetição de idéias ou aquilo que o diarista deixa escapar contribuem para formar o que James Olney, citado por Culley (op. cit., p.18), chama de ``metáfora do eu''. Os textos em geral revelam características do autor. Entretanto nem sempre isso é explicitado na obra. É preciso considerá-las nas entrelinhas, nos seus não-ditos que apontam para o ``Eu'' do autor.

O texto de um diário é conseqüência de um processo sublimatório, no qual o autor projeta, de forma muitas vezes distorcida e metafórica, seus anseios, seus desejos invioláveis. Poderíamos tomar a metáfora de Olney e acrescentar que o diário seria o reflexo do diarista. A imagem do objeto não é igual a ele mesmo, mas demonstra algumas de suas nuances, talvez as mais importantes. No exemplo de Mary Holyoke, a ausência de informações sobre as constantes perdas dos filhos faz com que o leitor depreenda muito da dor da diarista.

Do público ao privado: as várias faces de diários

A questão da audiência tem se modificado ao longo da tradição do diarismo, estando determinada pela função que diários vêm ocupando para seus autores. Mais uma vez, observamos que a evolução dessa audiência contrasta com o imaginário popular. Ao resumir a história do diarismo ao ``livro do eu'' esse senso comum também joga para o terreno do privado, do íntimo, os diários, eliminando, com isso, a possibilidade de que esses escritos originalmente tenham sido pensados por seus autores para serem publicados.

A história evolutiva de diários no ocidente demonstrou que foi somente nos últimos 100 anos que o gênero incorporou a relação com o eu, e esse tipo de escrita passou novamente a ser produzido como recordação de pensamentos e sentimentos íntimos, privados, para serem mantidos longe dos olhos de alguém.

Até evoluir a esse estágio, os pré-diários, como os diários públicos, incorporavam - diferentemente da grande maioria dos diários do final do século XIX e em grande parte do século XX - um conteúdo público. Diários - então associados ao sentido do que hoje se conhece pelo jornal comercial - tinham um sentido de dar divulgação e eram construídos de forma comunitária.

A experiência dos pillow books no século X, no Japão, mostrou-nos que diários foram escritos com a intenção de serem escondidos dos olhos de alguém. Essa tendência continuou na Europa a partir do Renascimento, com diários de homens e mulheres sendo escritos para o âmbito privado, embora com a Reforma, dentro de alguns movimentos protestantes, diários fossem trocados entre os membros desses grupos. São exemplos de diários privados aqueles escritos por Samuel Pepys, John Evelyn e Samuel Johnson, dentre outros.

Já nos séculos XVIII e XIX muitos diários foram semipúblicos, pretendidos para serem lidos por uma audiência, como foram os exemplos de diários familiares e sociais de mulheres européias; ou diários de viagem das mais de 800 mulheres americanas, que construíram uma rede de relações a partir de cartas e diários. Os diários mantidos por homens, nessa fase, por sua vez, estiveram imbuídos com o senso de uma proposta ou audiência pública, dada a natureza de seus escritos, construída com base na performance pública de seus autores. E, nos séculos XIX e XX, há um retorno, novamente, ao caráter privado das escrituras íntimas, embora, como vimos, houvesse para muitos um desejo, mesmo que implícito ou inconsciente, de que fossem um dia publicados.

A história silenciada de mulheres

A partir do final da década de 1960 e início da década de 70, na esteira do desenrolar dos movimentos feministas, surgiu em várias partes do mundo um interesse em conhecer a história silenciada da mulher. Para isso, arquivos particulares, autobiografias, diários íntimos tornaram-se, então, objeto da atenção de pesquisadores voltados para desvendar, através de narrativas autobiográficas de mulheres comuns, a história que não estava escrita.

Já que as mulheres historicamente estiveram distanciadas da vida pública, esse arquivo documental privado, além da história oral, passou a ser o método utilizado para se entender como elas viviam. ``Passou-se a dar tônica à vida privada, ao cotidiano, ao corpo e à medicina'', revela a historiadora francesa Michelle Perrot2.15. E os diários íntimos tornaram-se indispensáveis para a compreensão desse processo. No Brasil, como veremos adiante, um dos ícones desse interesse foram os diários de Carolina Maria de Jesus, uma catadora de papel, mãe de três filhos, que sensibilizou o mundo com a narrativa realista da experiência numa favela de São Paulo, no início da década de 1960.

O Testemunho Narrativo Feminino é um gênero literário que se caracteriza por relatos íntimos de mulheres encontrados em diários e anotações diversas. O gênero ganhou expressão a partir da década de 1970, quando artistas passaram a publicar depoimentos de personagens femininas de vários países. Nessa época, alguns relatos chegaram a ganhar o Prêmio América da Academia Americana de Letras (...) Grande parte dos testemunhos chegou ao Brasil há poucos anos através da USP2.16.

Esse mesmo valor histórico já tinha sido observado em várias partes do mundo, a partir do exame da produção de documentos pessoais variados. Nos Estados Unidos surge grande interesse pela reconstrução da história do país através do estudo de material autobiográfico, como cartas e diários escritos por cidadãos comuns ao longo dos séculos.

Segundo a pesquisadora Rebecca Drake, no site Civil War Diaries: Key to the Past2.17, tornaram-se importantes relatos como os de Rebecca Cox Jackson, uma ex-escrava afro-americana que se tornou conhecida como uma visionária religiosa, e descreveu a transformação espiritual dos anos de 1830. Em 1865, Eliza Andrews, do estado americano da Geórgia, escreveu sobre a devastação deixada pela guerra civil.

Conforme Drake, Emma Balfour, que escreveu o mais popular de todos os diários locais durante a guerra civil americana, retratou entre maio e junho de 1863, como testemunha, um dos episódios mais importantes do conflito: a Batalha de Raymond, ocorrida no coração de Vicksburg, Missisipi, onde morava. Dessa época também é o diário do soldado que lutou em Vicksburg, Merrick Wald, que se tornou famoso também por testemunhar o conflito.

Como lembrado no site The Voices of Victims2.18, mais recentemente, durante a Segunda Guerra Mundial, vítimas do holocausto produziram uma farta literatura sobre o tema, ao legar à humanidade documentos importantes, como diários, cartas, poesias, fotografias e arte.

Dentre os mais conhecidos relatos desse tempo, estão: O Diário e a Vida de Hannah Senesh. Durante onze anos, entre 1933 e 1944, essa judia húngara escreveu sobre o dia-a-dia e o trabalho de resistência que produziu em seu país para ajudar judeus nos anos em que a terra foi invadida pelos nazistas. Hannah terminou sendo executada em 1944, tornando-se a partir daí uma legenda pela coragem e convicção.

O Diário da Jovem Moshe, escrito pela adolescente polonesa Moshe Flinker é outro testemunho vivo do holocausto. Em 1942, a garota e a família, que vivia na Holanda, foram forçadas a fugir do nazismo para a Bélgica. A Gestapo descobriu e todos foram mandados para o campo de concentração de Auschwitz, onde morreram. O diário é uma viva lembrança das recordações da garota sobre a fé e o sofrimento daqueles tempos.

Outro importante relato dos horrores do holocausto foi produzido pelo pediatra e advogado judeu, Janusz Korczak. Ele começou o diário em 1940 e colocou-o de lado por dois anos. Em 1942, ao sentir o crescimento dos horrores, começou a recordar pensamentos e impressões da vida no gueto de Varsóvia. Morreu em agosto, na câmara de gás de Treblinka. O diário descreve as condições brutais do gueto e a crueldade do nazismo.

A vida no gueto de Varsóvia foi também descrita entre 1940-43 por um detalhado e famoso diário mantido pelo historiador Emmanuel Ringelblum. Intitulado Notes from the Warsaw Ghetto, não é exatamente um diário típico. É o resultado de uma sistemática visão da vida do gueto: das atitudes dos soldados alemães recuperando-se em hospitais militares locais, das várias técnicas de punição. Tudo isso feito de dentro e de fora do gueto, a partir de entrevistas com refugiados, ladrões, amigos, ou mesmo com a polícia.

O interesse por narrativas autobiográficas como fontes históricas revelou-se também no episódio dos supostos diários de Hitler, uma versão falsa publicada em 1983 pela famosa revista alemã Stern, que acabou desmascarada com a prisão dos suspeitos. Dois anos antes a revista pagara em torno de 10 milhões de marcos a um misterioso Doutor Fischer. Este dizia ter os originais dos diários de Hitler que teriam sido trazidos da Alemanha escondidos dentro de um piano.

O misterioso Doutor Fischer, na verdade Konrad Kujau, acabou sendo desmascarado, acusado pela perícia de falsificar, com a ajuda do repórter Gerd Heidemann, os supostos manuscritos de Mein Kampf e pinturas de Hitler. Heidemann pegou 4 anos e meio e Kujau 4 anos de cadeia2.19.

Grande expectativa girou também em torno dos diários completos daquele que é considerado o mentor do Terceiro Reich, Joseph Goebbels (1897-1945). Desta vez o mundo pôde comemorar, em 1992, as 1.600 fichas de microfilme relativas a 75 mil páginas dos diários de Goebbels, encontradas no Arquivo do Exército Vermelho, em Moscou, onde permaneceram abandonadas por 50 anos. O material foi microfilmado por segurança pelos nazistas entre 1944-45 e refere-se a anotações datadas de 1923 a 1945.

Diários de Goebbels de 1925/26 já tinham sido publicados em alemão e os relativos ao período 1942-43 foram publicados em 1948 após sobreviverem a uma polêmica sobre a autenticidade do material. Os escritos foram encontrados após a ocupação russa da Alemanha, quando soldados soviéticos queimaram parte do material do Terceiro Reich enquanto se preparavam para levar um outro tanto para a Rússia.

O editor, Louis P. Lochner - então chefe do escritório da Associated Press na Alemanha -, conhecedor do estilo de Goebbels, foi chamado a contribuir para o esclarecimento da originalidade dos diários, fato que ele acabou comprovando.

A recuperação do material em 1992, nos arquivos soviéticos, mesmo que em forma de microfilme, cumpriu a função de revelar os bastidores do nazismo, que teve em Goebbels uma de suas mais fortes legendas. David Irving, um inglês, conhecido pesquisador do assunto, e o primeiro a examinar completamente todo o arquivo russo, constata que os diários de Goebbels são importantes por registrar alguns dos maiores fatos produzidos pelo nazismo, como ``o plebiscito do Saara e as invasões de Praga e Pearl Harbor (...) documentando os métodos e estratégias mais escônditas da liderança nazista''2.20. A partir desses arquivos, Irving publicou, em 1995, Goebbels: the Mastermind of Third Reich, uma biografia de Joseph Goebbels.

História, Antropologia, Sociologia

Se, de um lado, diários íntimos e outros escritos autobiográficos têm se constituído em importantes elementos para preservar ou recuperar o lugar de determinados fatos na história, por outro lado eles também têm se revestido de importância para os estudos sociológicos e antropológicos.

Esse fenômeno tem crescido em importância desde a década de 1960, quando algumas formas de escrita autobiográfica vêm sendo utilizadas no trabalho auxiliar desses campos de estudos. Os registros da vida e do trabalho de pesquisadores, realizados nos diários de campo, têm sido considerados importantes para a análise metodológica das descobertas científicas realizadas.

Do mesmo modo nos estudos sociológicos, na chamada análise institucional - e a exaltação dessa produção, diga-se de passagem - é visto como uma forma de serem elucidadas as relações dos cientistas com as instituições sociais ligadas à pesquisa, como uma forma de buscar, não apenas a verdade da pesquisa, mas a verdade do sujeito pesquisador. Nos estudos etnográficos, sobretudo os da etnografia crítica, tanto os estudos sobre o diarismo quanto a própria produção do diário também são incentivados como uma forma de questionamento sobre a metodologia utilizada pelo pesquisador, em decorrência de uma certa ética e de uma certa postura em face da forma de se fazer ciência. Finalmente, nas pesquisas educacionais, incentiva-se a sua produção, considerando-a não só como instrumento de pesquisa, mas também como instrumento de ensino e aprendizagem. (Machado: 1998, p.23)

O pesquisador espanhol Joan Bestard Camps observa uma mudança nos parâmetros discursivos tomados pela Antropologia e pelas Ciências Sociais a partir da década de 1960. Segundo ele, têm-se produzido reflexões acerca do trabalho de campo, a partir da análise da etnologia do texto. Essa visão de análise se diferencia do referencial que colocava o problema do conhecimento antropológico em termos de paradigma teórico e da legitimidade desse conhecimento.

Atualmente a discussão está colocada em destacar o texto paralelo do pesquisador, carregado de reflexividade e, como lembra Josep R. Llobrera, da dificuldade de separar o conhecimento científico supostamente impessoal de uma experiência profundamente pessoal da relação com o Outro.

Se antes se falava em termos de epistemologia e metodologia, atualmente fala-se em termos de retórica e narratividade (...) Os velhos modelos de narrativa realista da etnografia têm deixado de ser válidos e tem crescido o afã por experimentar formas novas de representação, em criar novos textos e novas narrativas em que se registram as diferentes vozes do Outro. A questão da mudança na definição das culturas tem sido desprezada em razão da mudança na estrutura narrativa dos textos etnográficos e todo o problema do conhecimento antropológico parece reduzir-se a uma disputa em torno de novos gêneros literários para a representação etnográfica. Os novos tempos necessitam de novos escritores, novos autores e novos textos2.21.

Parece complexo o debate que se processa no seio da antropologia sobre a pesquisa de campo enquanto prática e dos métodos utilizados para realizá-la. A divisão que se processa entre a antropologia tradicionalista, ``que não abre mão daquele lado científico, sistematizante e generalizante da disciplina'', e a nova antropologia - que enfatiza a narratividade da experiência pessoal na relação com o Outro, como método para entender a cultura - é alvo ainda de grandes discussões.

A chamada crítica pós-moderna dentro dos estudos antropológicos vem sendo questionada quando deslocou e relativizou o papel do pesquisador no trabalho de campo que objetivava o entendimento da cultura. A visão do pesquisador como alguém que procurava compreender a complexidade cultural a partir de um ponto de vista externo a essa cultura foi substituída.

Em lugar dessa visão clássica, passou-se a dar importância à intersubjetividade desse sujeito pesquisador na relação com os elementos da cultural local.

A alternativa proposta foi a construção de `etnografias experimentais', tendo como modelo o diálogo, ou melhor, a polifonia. O objetivo final, no que diz respeito ao autor, seria fazer com que ele agora se diluísse no texto, minimizando em muito a sua presença, dando espaço aos outros que antes só apareciam através dele (...) Note-se que o antropólogo não se encontra mais numa situação privilegiada em relação à produção de conhecimentos sobre o outro. Sua posição é relativizada. Ele não é mais aquele que re-elabora uma experiência para explicitar a realidade de uma cultura com uma abrangência e coerência impossíveis para aqueles que a vivem no cotidiano. Não é mais um sujeito cognoscente privilegiado, mas igualado ao nativo e tem que falar sobre o que os iguala: suas experiências cotidianas2.22.

Embora seu método perdure até hoje como referência para a antropologia clássica, o trabalho de Bronislau Malinowsky sobre a cultura trobiandesa é considerado a gênese do conceito de relativismo na relação observador-observado dentro do trabalho antropológico empregado pelos experimentalistas. Ao fundar o método de imersão total na pesquisa de campo, ele instituiu o que os críticos pós-modernos da antropologia pregam: a importância da alteridade para preservar as diferenças culturais, com um ganho para as identidades locais que estão no foco do observador.

Realizado na década de 1920, o método etnográfico de Malinowsky é conhecido por ``observação participante''. Penetrando na cultura estudada, o etnólogo partilhava a experiência do local, buscando compreender do ponto de vista do nativo, progressivamente, as inter-relações entre todos os fatos observados e, a partir daí, a definição da cultura do grupo.

No entanto, ``ao demarcar a diferença e a distância entre as culturas e, com isso, a impossibilidade de que uma fosse avaliada em função dos valores e da visão da outra, acabou-se, paradoxalmente, dificultando a possibilidade de se trabalhar a diferença como crítica cultural'' (Caldeira Apud Lacerda: op.cit, p.5).

No Brasil, Gilberto Freyre, um dos maiores nomes das ciências sociais, inaugura, em livros como Casa Grande & Senzala (1933) e Sobrados e Mocambos (1936), novos pontos de vista, introduzindo nas ciências sociais o cotidiano como objeto relevante. O autor tratou, de forma inusitada para os padrões da época, aspectos sexuais da vida familiar, da contribuição do escravo na formação da cultura brasileira, da alimentação e da raça. ``Se cientistas sociais podem pesquisar hoje, com legitimidade, a condição da mulher, as minorias sexuais, espaço doméstico, a família e parentesco, devem muito ao trabalho de Freire'', lembram os pesquisadores Gilberto Velho, César Benjamin e Cilene Areias2.23.

Aspectos da tradição dos diários pessoais no Brasil

A tradição dos diários pessoais e a produção de estudos

A exemplo do que vem acontecendo em países como os Estados Unidos e a França, os estudos críticos sobre narrativas autobiográficas vêm crescendo de forma sistemática nas últimas décadas no Brasil, a partir do interesse revelado por estudos acadêmicos em várias partes do país. Os trabalhos neste campo despontaram de forma tímida na década de 1970, mas vêm ganhando força desde as décadas de 80 e 90, com as mais variadas abordagens, especialmente aquelas voltadas para as escrituras íntimas, entre elas o diário, como importante objeto no resgate de campos como o da história cultural e da história da educação.

O educador espanhol Antônio Viñao acredita que este aumento de interesse esteja ligado ao crescente espaço dado para "o sujeito ou sujeitos, ou seja, para a subjetividade e a privacidade, para o pessoal, o cotidiano e o íntimo", dentro dos campos da educação, história e da história da educação (In: Mignot, Bastos & Cunha: 2000, p.9).

Viñao, no entanto, revela não saber reconhecer uma origem única para essa revalorização das escrituras pessoais. Para ele, o crescente interesse nesse tipo de escritura resulta de uma série de mudanças em vários campos historiográficos e educativos.

Para o educador, uma das prováveis causas poderia ser o destaque dado no campo da história social à biografia de personagens que ajudaram a construir a história da luta de trabalhadores e de movimentos sociais. Ele aponta também como fator desse crescimento, o interesse dentro da história cultural por escrituras ligadas ao cotidiano, ao pessoal, ao familiar e ao privado, especialmente nos estudos de história da cultura escrita que passam a valorizar as práticas de escrita e leitura como práticas sociais afetadas por quem lê e escreve3.1.

Viñao observa também, a partir da década de 70, dentro do campo da história da educação, um aumento de interesse pela história do currículo, da realidade e práticas escolares, do cotidiano e das culturas escolares, das reformas educativas e de sua aplicação prática e da profissão docente.

Muitas vezes, segundo ele, a história da profissionalização e feminização docente tem passado por relatos de vida e escritos autobiográficos, entre eles o diário de alunos, professores e supervisores. E, finalmente, para Viñao, a memória tem sido tema recorrente para historiadores e pesquisadores de outras áreas, como fonte de ``(re)construção'' do individual ou social.

Segundo o pesquisador espanhol, esse novo interesse pela subjetividade implica, necessariamente, numa mudança de perspectiva: ``o sujeito que retorna não é mais o mesmo que antes interessava" (op. cit., p.10). Ou seja, a "leitura" dos cenários é feita a partir da participação de novos atores que passam a contar sob várias perspectivas.

A primeira é a do enfoque do "olho móvel", ou seja, a realidade é contemplada a partir de vários pontos de vista. "Cada um deles, com sua parte de verdade, oferece- nos aspectos que os outros silenciam ou ocultam" (op.cit., p. 11).

A outra mudança vem da micro-história. Segundo Viñao, é a capacidade de captar aspectos localizados em espaços não-visíveis dentro de uma perspectiva mais geral. A escala de observação seria então reduzida e voltada a analisar elementos contidos nas contradições, fissuras, interstícios existentes em sistemas prescritivos e normativos.

A terceira mudança de perspectiva seria ``(re)situar'' o gênero no enfoque de historiadores, trazendo a voz silenciada de mulheres ao centro das atenções. Isso tem sido feito através de narrativas em que o privado, o pessoal, o íntimo, o subjetivo têm tido especial importância frente a exclusão do âmbito público.

Foco dos Estudos

No Brasil, os importantes estudos e pesquisas envolvendo a escrita diarística têm se revelado um misto dos fatores apontados por Viñao. Entretanto, o que parece se destacar é o interesse dos diários como fonte de estudos no campo da educação, especialmente na relação ensino-aprendizagem, ao lado das pesquisas que buscam ressaltar a contribuição de mulheres para a história social, a partir de suas vidas registradas em diários.

Deste último ponto de vista, podemos destacar a atuação de vários grupos de estudos espalhados pelo país. Vignot, Bastos & Cunha, por exemplo, no artigo Tecendo Educação,História, Escrita Autobiográfica3.2 apontam as produções de vários pesquisadores reunidos em 1999, no Simpósio Nacional de História, promovido em Florianópolis pela Associação Nacional de História (ANPUH), sob o tema ``História/Memória/Educação: as leituras possíveis de documentos pessoais''.

No ano seguinte, a fertilidade dos trabalhos em torno da importância da escrita autobiográfica na História da Educação levou as pesquisadoras a organizarem e publicarem o livro Refúgios do Eu, Editado em 2000 pela Editora Mulheres, de Santa Catarina. A obra traz artigos importantes de pesquisadores que vêm se ocupando, não apenas sobre diários, mas sobre a escrita autobiográfica em geral, incluindo textos sobre memória, cartas, agendas.

A obra inclui o ensaio de Maria Helena Câmara Bastos, intitulado O diário de Cecília Assis Brasil (1916-1928): práticas de leitura de uma moça gaúcha, apresentado pela primeira vez no XII Congresso de Leitura e Escrita, na Unicamp, em julho de 1999. Maria Helena faz no estudo um esforço para resgatar o que lia a jovem Cecília de Assis Brasil na Primeira República. A autora consultou, para tanto, os diários de Cecília reunidos em 1983, pelo jornalista Carlos Reverbel, a partir de vários cadernos.

Através dos hábitos de leitura registrados no diário, Maria Helena depreende sobre o que lia Cecília de Assis Brasil. A pesquisa, segundo ela, ``possibilita analisar o prazer proporcionado pelo livro e pela leitura como espaço de privacidade, de tranqüilidade pessoal, de intimidade da leitora com o mundo imaginário e o real, ou como dimensão de insignificância na medida em que a leitura fica inserida em seu dia-a-dia''. (op. cit., p.156)

Refúgios do Eu traz também discussões contemporâneas sobre a passagem da escrita diarística do suporte papel para a tela do computador, através do texto da pesquisadora Zahidé Lupinacci Muzart, do Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Santa Catarina e fundadora da Editora Mulheres. Com um enfoque semelhante ao que desenvolvemos nesta dissertação, Muzart faz em Do Navegar e de Navegantes, título do ensaio, um comparativo - mesmo que de uma forma ligeira - entre diários de mulheres do século XIX com os diários on-line existentes na internet.

Diários no processo ensino-aprendizagem

Além do trabalho desse grupo de pesquisadoras, a maior parte da região Sul do país, Vignot, Bastos & Cunha apontam também os trabalhos no campo da História da Educação desenvolvido pelo Grupo de Estudo Docência, Memória e Gênero (Gedomge), que reúne professores da rede pública do estado de São Paulo e alunos da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (Feuspe), sob a coordenação de professores dessa unidade.

Segundo revelam, o grupo tem se tornado referência para os estudos sobre escrita autobiográfica no campo da educação:

O grupo tem se dedicado desde o início da década de 90 a discutir e propor modos de análise acerca da formação de professores. Temas relacionados à memória e história da profissão docente têm sido constantemente explorados em seminários e publicações patrocinados pelo Gedomge, do ponto de vista de suas considerações individuais e coletivas . (Sousa, Apud Mignot, Bastos & Cunha, p. 24)

No campo de pesquisa da relação ensino-aprendizadagem, também em São Paulo, vem se destacando a produção de vários centros de Pós-Graduação, como o Instituto de Estudos da Linguagem (IEL), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e o Programa de Estudos Pós-Graduados da Universidade de São Paulo. No IEL, teses e dissertações vêm sendo produzidas utilizando o instrumento de diários dialogados na avaliação da relação ensino-aprendizado, inclusive de língua estrangeira.

Em 1996, Luiz Antônio de Knop Tonon defendeu dissertação de mestrado sobre o processo ensino-aprendizagem de língua estrangeira. A dissertação Um Olhar sobre a Observação na Sala de Aula: por um ensino reflexivo3.3 procurou investigar o papel da observação no desenvolvimento do ensino da língua estrangeira. Para tanto, o pesquisador partiu de dados obtidos de vários instrumentos, entre os quais, os diários utilizados em sala de aula.

Em outra pesquisa de mestrado, defendida em 1994 na Unicamp, o objeto também são diários íntimos. Sexualidade e Discurso: o Verbo Feito Carne, escrita por Egon de Oliveira Rangel, aborda as relações entre discurso e sexualidade, tomando como estudo de caso O Diário Completo de Lúcio Cardoso e um manual de sexologia, do doutor David Reuben. O autor usou o diário como elemento para verificar, através do instrumento da análise do discurso, ``o 'efeito sedutor' obtido pela obra. Já o manual de sexologia serviu como elemento para descrever e explicar aquilo que ele chama de 'efeito enformador' do discurso em relação ao seu destinatário''3.4.

Estes rápidos exemplos demonstram a riqueza cada vez mais crescente da produção acadêmica e científica em torno dos diários como instrumento nos estudos de diversas áreas do conhecimento, especialmente daqueles que examinam na educação a relação entre ensino e aprendizado; na história cultural, o diário como elemento de resgate para a memória e práticas educacionais. Além disso, a narrativa diarística enquanto linguagem, está sendo cada vez mais objeto de interesse daqueles que se ocupam em lê-lo como lugar de registro de uma prática individual dentro do coletivo social.

Nesse sentido, nota-se a dinâmica da produção acadêmica em torno das narrativas autobiográficas, inclusive a diarística, que atinge também outras instituições através do país.Na Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisa de mestrado também sobre a relação ensino-aprendizagem foi trabalhada e defendida por Cleo de Arruda Martini, no mestrado em Linguística Aplicada.

Ela realizou uma investigação sob o título Um estudo etnográfico sobre o uso de diários dialogados na sala de aula de inglês como língua estrangeira3.5. A pesquisadora examinou a funcionalidade desse tipo de diário como canal de comunicação na interação professor-aluno.

Longe de esgotar a lista de produções sobre diários como objeto de investigação científica, pretendemos aqui apontar para a diversidade e multiplicidade dos trabalhos desenvolvidos em muitos pontos do Brasil em que vem se inserindo a narrativa diarística. O nosso objetivo aqui é indicar a existência dessa área de estudos ainda jovem no país, mas que, pela variedade de trabalhos, tende a ser sistematizada. Esperamos que, através de seus desdobramentos, possa contribuir para compreendermos os diversos significados e sentidos dessa prática social.

A presença do gênero no Brasil

Apesar da profusão das produções científica e crítica, os estudos sobre a narrativa diarística no Brasil enfrentam pelo menos duas situações: a primeira é a não-correspondência entre essa produção e a conseqüente divulgação.

Grande parte das pesquisas realizadas nas instituições do país não consegue deixar o estreito circuito dos encontros científicos e dos registros muitas vezes fechados dos anais e publicações acadêmicas, e chegar até as prateleiras e vitrines de livrarias do país.

A segunda é a dispersão das fontes diarísticas espalhadas por acervos pessoais, bibliotecas e instituições através do país. Combinados, os dois fatores tornaram especialmente difícil acessar o material. Esse problema de acesso às fontes de diários também é vivido por outros pesquisadores, como revela Zahidé Lupinacci Muzart, ligada ao Curso de Pós-Graduação da Universidade de Santa Catarina e fundadora da Editora Mulheres. Segundo a autora, ao desenvolver estudos comparativos entre diários de mulheres dos séculos XIX e XX tem colhido algumas decepções:

Tenho procurado diário de mulheres do século XIX. Em primeiro lugar, os de viajantes estrangeiras. Esgotados, desde suas primeiras e quase sempre únicas edições, só consegui alguns microfilmes, enviados por bibliófilo (...) Os diários de escritoras brasileiras são os mais difíceis de encontrar. Este é o problema real desse tipo de pesquisa: encontrar os diários, pois se há os publicados, a maioria esconde-se em gavetas ou já se perdeu para sempre como, por exemplo, as memórias de Inês Sabino, intituladas Através de Meus Dias, manuscrito desaparecido(...)3.6.

Tendo em vista essas variáveis, procuramos neste capítulo colaborar no sentido de contribuir para trazer elementos que possam dar uma idéia sobre a escrita diarística no Brasil e, ao mesmo tempo, apontar para a necessidade da realização de futuros estudos acadêmicos e críticos sobre este gênero de narrativa, que venham a mapear a tradição, como ensaiamos realizar aqui.

Primórdios da prática diarística

A prática diarística no Brasil nasce com o Brasil Colônia, com os diários de viagem de navegadores e membros de expedições que cruzaram o Atlântico e desembarcaram na costa brasileira. Embora essa fase da história tenha durado quase 300 anos, poucos são os diaristas conhecidos. Um dos exemplos mais famosos é o do navegador Pero Lopes de Sousa, que manteve um diário da expedição empreendida ao Brasil, juntamente com o irmão, Martim Afonso de Sousa, entre os anos de 1530 a 1532.

Antes de Pero Lopes, o episódio do achamento do Brasil foi registrado pela famosa Carta de Pero Vaz de Caminha, em forma de diário, e também por um piloto anônimo. A narrativa deste suposto piloto confirma o que escrevera Caminha ao Rei Dom. Manoel I, o Venturoso. No diário, o piloto anônimo faz uma narrativa rápida da viagem de Cabral, editada pela primeira vez, em italiano, com o navegante ainda vivo. Os originais, no entanto, foram perdidos. Cabral morreria entre 1520 e 1521, vítima de malária contraída em Calicute, na Índia.

Para os historiadores, o autor do diário provavelmente teria sido João de Sá, um dos escrivães da frota de Cabral, que resolveu não se identificar por ter sido pago para narrar a viagem. As duas narrativas, mais um estudo sobre os céus da nova terra, de autoria do mestre João Faras, que acompanhou a expedição, compõem o livro Os três únicos testemunhos do descobrimento do Brasil, editado em 1999, pela Lacerda Editores, do Rio de Janeiro3.7.

Diários do Pau-Brasil

Sérgio Milliet, em seu Diário Crítico, observa que o historiador Nelson Werneck Sodré, ao interpretar o desenvolvimento literário brasileiro, denominou a fase de pré-colonização do Brasil, de ``momento do pau-brasil''. E o próprio Milliet, apoiando-se em Sodré, indaga-se: ``O que se encaixará nela?'':

As cartas dos escrivães das tropas, os diários de bordo, as epístolas dos primeiros jesuítas, alguns documentos de arquivos particulares (...) os ensaios de gramática no idioma indígena. Curiosamente as primeiras obras não são propriamente de nossa literatura, mas de interesse para ela, escrevem-se em francês e em latim de preferência, e seus autores são na maioria membros da Companhia de Jesus. (Milliet : 1981, 187-188)

O diário de Pero Lopes de Souza marca nesse ``momento pau-brasil'', a fronteira da passagem de um Brasil pré-colonial para o Brasil Colônia, descrevendo o reconhecimento das terras e a ocupação oficial da nova colônia. O diário foi publicado pela primeira vez em 1839 por Francisco Adolfo de Varnhagem, o visconde de Porto Seguro, sob o título Diário da Navegação da Armada que foi à terra do Brasil em 1530, a partir de um códice descoberto na Biblioteca da Ajuda, em Portugal.

Varnhagem ainda o publicaria mais duas vezes, em 1861 e 1887, após a segunda edição realizada em 1847 pela Assembléia Provincial de São Paulo. O diário ganhou, ainda, uma quinta edição, feita por Paulo Prado, que a imprimiu em 1927 na Typographia Leuzinger, no Rio de Janeiro. Para Varnhagem, ``o Diário de Pero Lopes de Sousa serviu para esclarecer um período de mais de 20 anos da história do Brasil quando a Carta de Pero Vaz de Caminha era apenas revelação do que se passara durante dias'' (op. cit, p.467).

A antropofagia em Hans Staden

Ainda no século XVI, o diário Duas Viagens ao Brasil registra as aventuras do artilheiro alemão Hans Staden no Brasil. Capturado pelos tupinambás, ele descreve a experiência de ter sido prisioneiro de índios antropófagos por nove meses e de ter sido quase trucidado até que consegue escapar e retornar à Alemanha, onde publica o diário ainda no século XVI. O material foi reeditado no fim do século XIX na Alemanha e traduzido no Brasil no início do século XX. O diário do viajante Hans Staden transformou-se em documento para o entendimento da cultura indígena, especialmente do ritual de canibalismo comum entre os índios tupinambás, do litoral paulista, que fizeram Staden cativo.

Funções e tipos de diários

Embora tenhamos adotado na gênese da tradição geral dos diários a classificação de Fothergill, acreditamos que a prática da escritura dos diários no Brasil não seguiu, necessariamente, uma linha evolutiva. Ela surgiu no século XVI, com os diários de viagem, e foi se desenvolvendo a partir das diversas funções que esse tipo de escritura passou a exercer para os seus autores.

Ao longo dos 500 anos de Brasil, diários aparecem sob várias tipologias, sem exercer, necessariamente, uma ordem evolutiva. Assim, além dos diários de viagem, podemos observar a presença de diários como os de guerra, diários de naturalistas, diários íntimos, diários criativos e diários políticos, dentre outros, que marcam não exatamente uma tradição, mas refletem a presença desse gênero narrativo também no Brasil.

Diários de Viagem

Dado o caráter de território descoberto, os diários no Brasil surgem com os primeiros viajantes e exploradores. Embora o diário de viagem nasça no século XVI, com o descobrimento, ele vai perpassar toda a história de 500 anos de Brasil, com o exemplo de muitos diaristas. Demonstra, portanto, que na fase colonial houve apenas uma coincidência entre a história do Brasil, pela via da exploração e da descoberta, e a origem dos diários no Brasil, pelos diários de viagem.

Mais de trezentos anos depois de Pero Lopes de Souza, outro diário nasce das experiências vividas por mais um integrante da corte portuguesa. O diário do imperador Dom Pedro II tornou-se famoso por retratar, com riqueza de detalhes, a viagem empreendida entre 1859-1860 pelo governante às províncias brasileiras da Bahia e Pernambuco.

Intitulado Diário de D. Pedro II ao Norte do Brasil, ele foi escrito de próprio punho pelo imperador, muitas vezes durante a noite, ou nos poucos espaços que sobrava de uma agenda cheia de compromissos na viagem. O diário revela detalhes do estilo de administrar de Dom Pedro II, preocupado ele mesmo em acompanhar pessoalmente os rumos da nação.

Conforme revelou Dom Pedro II no discurso feito à Assembléia Geral em 11 de setembro de 1859, a viagem foi programada com o objetivo de que ele conhecesse melhor as províncias do país e se inteirasse dos problemas de cada uma delas. Deu preferência naquele momento àquelas situadas ao norte do Rio de Janeiro (Espírito Santo, Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco) temendo que não encontrasse tempo hábil para percorrer outras no intervalo entre as sessões legislativas.

Os diários de 1862 estavam praticamente inéditos até que a americana Mary Wilhelmine Williams publicou um pequeno extrato, revela o editor baiano Pinto de Aguiar, na apresentação do volume Diário de D. Pedro II ao Norte do Brasil, editado em 1959 pela Progresso, da qual era dono.

``O material relativo à Bahia e Pernambuco foi transcrito e passado a limpo pelo próprio Dom Pedro II, das anotações tomadas em cadernos de bolso ou agenda'' (Pedro II: 1959, p. 9), conforme revela Hélio Viana, em trabalho publicado no Museu Imperial do Rio de Janeiro. Segundo ele, os manuscritos referentes a Pernambuco sobreviveram, ao contrário do que aconteceu com a parte relativa à Bahia.

Pinto de Aguiar revela também que o então diretor do Museu Imperial, Alcindo Sodré, editou no anuário do órgão trecho referente à viagem de Dom Pedro II à cachoeira de Paulo Afonso. Já o texto sobre a viagem a Pernambuco foi publicado pelo Arquivo Público daquele estado em 1952. A edição da Editora Progresso foi realizada em 1959, em conjunto com a Universidade Federal da Bahia, seguindo um desejo do reitor Edgar Santos de homenagear, com a parte relativa à Bahia, o centenário do diário do imperador Dom. Pedro II.

O testemunho de Maria Graham

Antes de Dom Pedro II, uma inglesa, Maria Graham (1785-1842), publica em 1824, pela primeira vez, o diário que escreveu no período que esteve no Brasil, parte dele em companhia do marido, o capitão da Real Marinha Inglesa, Thomas Graham. De passagem para o Chile, os Graham chegam ao Brasil a 21 de setembro de 1821, e encontram a província de Pernambuco, por onde chegam, em plena revolução.

O diário de Graham, Jornal of a voyage to Brazil and residence during the years 1821, 1822, 1823 (Longman, Londres, 1824)3.8 testemunha a revolta que depôs o governador português Luiz do Rego Barreto. Graham também é testemunha de outro episódio, a Confederação do Equador, servindo ela mesma de intermediadora entre os revoltosos e o Lord Cochrane, comandante inglês a serviço de Dom Pedro I, a quem Graham conhecera no Chile3.9.

Viajando no Paratii

Contemporaneamente, um dos ícones dos diários de viagem no Brasil é o navegador paulista Amyr Klink (1955), que escreveu e publicou pela Companhia das Letras três relatos sobre as aventuras num barco a remo, o lâmpada flutuante, e no barco Paratii, realizadas entre 1984 e 1998. As viagens deram origem a Cem Dias Entre o Céu e o Mar (1985), Paratii Entre Dois Pólos (1992) e Mar Sem Fim, todos transformados em sucesso de vendas.

Registros Baianos

Viajantes e navegadores baianos têm, contemporaneamente, mantido registros em forma de diários sobre viagens realizadas pelo país e exterior ou, simplesmente, cruzando mares. O baiano Mário Padre descreveu no diário Através do Brasil a viagem que fez com a mulher, Maria José, e o filho Luiz Henrique, ao redor do Brasil, e através de alguns países vizinhos à Bacia do Prata. O diário, segundo Adonias Filho - que assina a orelha do livro publicado em 1979 pela Editora Ébano, do Rio de Janeiro -, ``vale como registro de um Brasil em crescimento (...) Relata a maneira de ser dos brasileiros, sempre disposta à amizade e à convivência''.

A família saiu de Salvador num fusca em 1º de janeiro de 1977 e percorreu 30 mil quilômetros de estradas.Depois de percorrer grande parte do Brasil, atravessando os estados da Bahia, Minas, Goiás, Mato Grosso, Mário Padre e a família atravessaram Foz do Iguaçu, com destino ao Paraguai, depois à Argentina e Uruguai.

O percurso de volta foi feito do Sul ao Norte do Brasil, passando por Belém. Dali, tomaram 800 quilômetros de estradas, dentro da Transamazônica. Cruzaram outras vias até chegarem a Petrolina e Juazeiro, na Bahia; e de Juazeiro até Salvador. A viagem foi encerrada em 17 de março, depois de dois meses e 17 dias de aventura, onde foram registradas as cidades por onde Mário Padre e a família passaram, a distância entre elas e Salvador, e detalhes como a importância histórica, econômica e cultural desses lugares.

Volta ao Mundo

Um dos mais atraentes diários de viagem contemporâneos foi escrito pelo navegador baiano Aleixo Belov. Reconhecido por ser o primeiro brasileiro a dar duas voltas ao mundo num veleiro em solitário, ele escreveu quatro diários sobre essas aventuras. Três dos quais narrando, numa trilogia, a aventura empreendida entre Salvador e a Índia.

O primeiro diário, A Volta ao Mundo em Solitário, foi publicado em 1981, logo após retornar da primeira viagem. A narrativa foi iniciada a 19 de março, dois dias depois da partida em Salvador no veleiro Três Marias, de 36 pés. Termina um ano e quatro meses depois, com a chegada a Salvador, depois que o navegador percorreu mais de 25 mil milhas, passou 188 dias em terra e outros 233 no mar.

Não bastasse uma volta ao mundo, cinco anos depois da primeira viagem, Belov resolve voltar ao mar para realizar mais uma grande aventura entre Salvador e a Índia. Passou 21 meses no mar, atracou e desatracou em 46 portos e percorreu 30 mil milhas. Ao final dessa aventura em redor do mundo, iniciada a 15 de março de 1986, Belov tornou-se o primeiro brasileiro a dar duas voltas ao mundo num veleiro. Da viagem, resultou a trilogia: Em Busca do Oriente - Segunda Volta ao Mundo, também editado pela Bigraf; Em Busca das Raízes e A Caminho de Casa.

As aventuras no mar também são alvo da escrita diarística de um outro navegador, o baiano Michel Neder Kalil. Ele registrou em Viajando Velejando, composto sem data pela Gráfica Central, em Salvador, a viagem de ida e volta que fez num barco a laser entre Salvador e o Rio de Janeiro. Nas 117 páginas do diário, Kalil descreve a partida, as dificuldades e alegrias vivenciadas no percurso realizado durante todo o mês de janeiro até o dia 17 de fevereiro de 1987.

Diário de um anônimo

Em 1984, um outro baiano, o ex-secretário de Estado Joalbo R. de F. Barbosa, resolveu visitar em Paris, na França, os dois filhos, Joe e Ângela, e os netos Ricardo e Renata. A viagem de 18 dias pela França e estendida à Alemanha e Luxemburgo foi registrada num diário publicado, seis anos mais tarde, sob o título Rabiscos de um Diário.

Escrito entre 31 de março e 18 de abril de 1984, o diário de 48 páginas relata a passagem de Joalbo pelo roteiro escolhido e o encontro com a família. O diarista registra as visitas que realizou aos museus de La Marine e ao Louvre, em Paris; a ida até à catedral de Estrasburgo, na França, e a Stuttgard, na Alemanha; e, novamente, o retorno a Paris. O diário é marcado pela satisfação do autor em rever a família e de visitar importantes pontos turísticos do mundo, como a capital francesa.

Viagem a Macau

A visita a Macau, na China, a convite do governo chinês, resultou para o professor e acadêmico baiano, Edivaldo M. Boaventura, numa narrativa publicada em forma de diário. Porto de Abrigo - Diário de uma Viagem a Macau foi publicado em 1998 pela Vozes e registra a viagem realizada entre os dias 8 e 18 de abril de 1997.

Diretor do jornal A Tarde, em Salvador, Boaventura conta, no livro, ter aceito o convite do conselheiro da Embaixada Portuguesa no Brasil, Luís de Souza, extensivo a outros representantes da imprensa brasileira. O roteiro da viagem incluiu além de Macau, Hong Kong, a província de Gumgdong e Cantão.

Embora narrado em estilo diarístico, com datas referenciando os eventos, o livro parece tratar-se mais de uma memória dos dez dias de viagem. Como testemunha, o autor do Diário de uma Viagem a Macau descreve o imaginário sobre Macau, os aspectos econômicos, políticos e administrativos e os detalhes físicos da região. Ressalta os museus do Grande Milênio e do Vinho e outros monumentos. Descreve as atividades realizadas em Hong Kong. Na visita a Cantão ressalta elementos locais, como a culinária chinesa e a universidade. O livro traz, ao final, a relação das datas de atividades na programação da viagem.

Diários de guerra

Os diários de guerra têm seus primeiros registros ainda no Brasil colonial, com a narrativa de testemunhos de exploradores estrangeiros que estiveram no Brasil. Esse tipo de diários, no entanto, atravessa muitos períodos da história brasileira, pontuando através da narrativa de diaristas, eventos bélicos em que o Brasil participou - como diários sobre a Guerra do Paraguai ou o conflito em Canudos no final do século XIX.

História Pernambucana

Entre os mais antigos relatos de guerra sobre o Brasil está o diário do soldado francês, Ambrosio Richshoffer, de 17 anos. Ele fez parte da expedição da Companhia das Índias Ocidentais, organizada pela Holanda, que invadiu em 1630 o vilarejo de Olinda, em Recife. O diário registra a aventura iniciada em abril de 1629 e concluída em dezembro de 1632, tornando-se um importante documento para a história pernambucana.

O diário foi publicado pela primeira vez em 1677, quando Ambrosio tinha 65 anos. A edição em alemão intitulada Descrição da viagem ao Brasil e Índias Ocidentais foi realizada por Josias Staden. A segunda edição, também em alemão, data de 1930, e foi impressa em Haia, na Holanda, por Martinus Nijhoff, dentro de uma coleção com depoimentos de soldados que vieram ao Brasil na primeira metade do século XVII.

No Brasil, a primeira edição do diário foi publicada em 1897, em Recife, pela Typographia a vapor de Laemmert & Comp, traduzida da primeira edição alemã, por Alfredo de Carvalho. Não por acaso, cem anos depois, o Departamento de Cultura do governo do estado de Pernambuco reedita o diário, em forma de fac-símile à primeira edição brasileira, dentro da Coleção Pernambucana.

Nessa nova edição, a narrativa de Richshoffer recebe o título de Diário de um Soldado, editada num só volume junto com as memórias do padre João Baers, publicadas originalmente em 1630, na Alemanha. Baers viajou na mesma expedição de Richshoffer, que conquistou Olinda em 1630, e suas memórias intituladas Olinda Reconquistada, também são um rico testemunho da tomada de Pernambuco pelos holandeses.

Lacuna de uma guerra

Outro registro diarístico sobre guerras é o diário do tenente do Exército e engenheiro baiano André Rebouças. Intitulado Diário - A Guerra do Paraguai, foi publicado em 1973 pelo Instituto de Estudos Brasileiros, órgão da Universidade de São Paulo. O objetivo da publicação foi preencher uma lacuna deixada pelos diários do tenente publicados em 1938 pela Livraria José Olympio Editora.

Na introdução ao volume, Maria Odila Silva Dias esclarece que a edição da José Olympio deixara de incluir o trecho do diário referente à Guerra do Paraguai, registrado entre 15 de março e 23 de junho de 1866. Essa parte dos manuscritos que estava desaparecida, reapareceu pelas mãos de Monteiro Lobato, que os entregou, em 1966, ao Instituto de Estudos Brasileiros.

O capítulo publicado no Diário sobre a Guerra do Paraguai (pela José Olympio), refere-se à Campanha do Uruguai e interrompe-se em março de 1866 às vésperas da invasão do Passo da Pátria pelas tropas aliadas. Nessa primeira parte Rebouças descreve a experiência como primeiro-tentente de engenheiros junto ao Exército do general Osório, a partir de 28 de junho de 1865, quando desembarca em Montevidéu, um mês após o Tratado da Tríplice Aliança. Critica a falta de planos da guerra e as condições dos soldados; testemunha a revolta dos brasileiros em talvez ter que se defender; e descreve o desempenho do general Osório em deslocar as tropas de volta para a província (Rebouças: 1973, p.03).

É este mesmo espírito combativo que aparece nas páginas do Diário - A Guerra do Paraguai, editado pelo Instituto de Estudos Brasileiros. Nesta parte inédita, o tenente narra as operações em que tomou parte junto ao Forte Itapirú; e no acampamento de Passo da Pátria e Tuiuti, em território paraguaio, entre 16 de abril e 23 de junho.

O diário do tenente André Rebouças é tido como um documento importante para a história do conflito entre o Brasil e o Paraguai, especialmente por seu caráter de narrativa-denúncia.

Testemunho de Canudos

Outro documento etnográfico importante para a história brasileira foi produzido por um dos mais importantes escritores brasileiros, Euclides da Cunha. Destacado pelo jornal O Estado de S. Paulo para cobrir a Guerra de Canudos, o jornalista se utilizou de uma caderneta onde fez anotações sobre toda a movimentação de tropas no povoado de Canudos, no interior da Bahia.

O caderno de bolso que estava em poder de José Carlos Rodrigues foi entregue ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia. Em 1975, a Editora Cultrix publicou-o e delegou a Olímpio de Souza Andrade a tarefa de realizar a introdução, notas e comentários, o qual chegou a considerar o "caderninho", o nascedouro de Os Sertões.

O manuscrito de Euclides da Cunha é a matriz de Os Sertões, matriz que contém em germe, na sua letra difícil, as primeiras expressões do escritor no sertão (...) a revelar o escritor no momento exato em que contactava a existência de novas gentes, coisas e paisagens. (Cunha: 1975, p. XIX).

Ainda segundo Olímpio de Souza Andrade, Euclides da Cunha deixou três cadernetas: "esta sobre Canudos; outra mais pessoal, de anotações de leituras sobre diversas regiões brasileiras; e a terceira sobre o sertão baiano, misturadas com assuntos diversos, provavelmente relatos sobre a revolta da Esquadra, em 1893" (id, ibid., p. XX).

Diários Criativos

Como vimos no Capítulo I, na Europa e Estados Unidos, os diários criativos ou Commonplace Books, são uma categoria de pré-diários, considerada pelo autor inglês Thomas Mallon, importante, para muitos autores, na realização de uma obra. As anotações registradas em cadernos, agendas ou material semelhante, serviram e continuam servindo ao longo da história, no processo criativo de muitos escritores, poetas e artistas de um modo geral.

No Brasil, o escritor Oswald de Andrade manteve em 1918 um diário duplamente criativo. Criativo no conteúdo e na forma; e também como função, nos moldes apontados por Mallon. Na primeira descrição, o diário intitulado O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo, além de ser pessoal, é coletivo.

Oswald o escreveu entre 30 de maio e 12 de setembro de 1918. Pessoal, porque foi escrito por Oswald e, coletivo, porque contou com a ajuda dos amigos. Circulam no diário vários colaboradores, que se utilizam de pseudônimos: João de Barros, que no diário é Pedro Rodrigues de Almeida; Miramar e Garoa, Oswald de Andrade; Viviano, Edmundo Amaral; Ferrignac e Ventania, Ignácio da Costa Ferreira; e Bengala, Léo Vaz; Guy, para Guilherme de Almeida. São autores do diário, ainda: Monteiro Lobato, Menotti del Picchia, dentre outros.

Segundo Mário da Silva Brito - que prefacia ao lado de Haroldo de Campos, a edição, feita em 1992 pela Globo -, o caderno de 200 páginas transforma-se num diário dos freqüentadores da garçonière mantida por Oswald na Rua Líbero Badaró, 67, 3º andar, sala 2. Ele observa:

No enorme caderno, escrito a tinta roxa, verde e vermelha ou a lápis, às vezes, há de tudo: pensamentos, trocadilhos (inúmeros), reflexões, paradoxos, pilhérias com os habitués do retiro, alusões à marcha da guerra, a fatos recentes da cidade, a autores, livros e leituras, às músicas ouvidas (das eruditas às composições populares americanas), a peças em representação nos palcos de São Paulo, às companhias francesas em tournée pelo Brasil. Há mais, porém: há colagens, grampinhos de cabelo, pentes, manchas de batom, um poema pré-concreto de Oswald, feito com tipos de carimbo, cartas de amigos grudadas em suas páginas, afora charges da imprensa com legendas adaptadas para zombarias com os integrantes do grupo, enigmas pitorescos, recortes de jornais e, inclusive, o cartão do usuário em que se lê: ``de la part de Décio de Paula Machado''. Soltas entre as páginas do caderno, flores murchas e pequena bandeira norte-americana de seda (Andrade: 1992, p. VII) .

Perpassando todo esse universo multifacetado narra-se o desenvolvimento de uma história de amor: a relação entre Oswald e Deise, a quem todos se referem de Cíclone no diário, que tornou-se amante do escritor. Misteriosa, Deise exerce fascínio entre os freqüentadores da garçonière e provoca extremos ciúmes em Oswald pela variedade de casos amorosos:

Junho 27- Cyclone voltou! No grande olhar desfallecido traz a vermelhidão trachomica de velhas noites de libertinagem...(Fialho é agora o meu papel-carbono!). Falla-nos do Braz, d'esse arripiador Braz conandoylesco! Falla-nos do sr. Pontes e do sr. Paulino...Cyclone voltou! Musa gravoche do vicio ligeiro!

V.[Ass] (id, ibidem, p. 56)

A tumultuada relação entre o casal, e a força de Deise, alinhavam todo o diário. A amante de Oswald e freqüentadora intermitente da garçonière, é também quem dá o fechamento à narrativa. Deise engravida e acirra os ciúmes de Oswald, que convence-a a abortar. Ela sofre de hemorragias. Agrava-se seu estado de saúde e Oswald opta por casar-se com ela. Deise termina morrendo a 24 de agosto de 1918, aos 19 anos.

Segundo Haroldo de Campos - em notas ao prefácio à edição de O Perfeito Cozinheiro -, encerrado o diário a 12 de setembro de 1918, Oswald ainda acrescenta posteriormente o recorte de jornal do dia 25 que anuncia o falecimento de Deise, "colado, na última guarda, com a data, à mão" (Op. Cit., p. XXIII).

Mário da Silva Brito vê em O Perfeito Cozinheiro:

Além do testemunho de um tempo da belle époque paulistana, da atmosfera e do espírito em que se formava uma geração, é, no tocante a Oswald, documento existencial que reflete os seus anos de aprendizagem, não só literária e artística, mas de vida ela mesma, com seus júbilos, dramas, conflitos e sofrimentos: inicia-se sob o signo do riso e do otimismo, é jocoso e pilhérico no começo; vai, a pouco e pouco, crescendo em termos de inquietação, melancolia, angústia, dúvidas e suspeitas, para atingir, ao final, o plano de lágrima e do trágico com a morte da bela Miss Cíclone, figura símbolo para o grupo de uma outra mulher que então se forjava - a mulher moderna, em busca de liberdade, de afirmação, de independência (Op. Cit., p. XI)

O Perfeito Cozinheiro também exerce para Oswald uma função importante: serviu de apoio para várias de suas obras. Como um Diário Criativo, o escritor recolheu dele o clima, falas e nomes para seus personagens de Os Condenados, Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande, como lembra Mário da Silva Brito:

Do ângulo da estrutura, do caricato das personagens, estes dois últimos livros derivam do diário, nele se enraízam, ali começam, inconscientemente. Todo o processo fragmentário de Oswald nasce dessa experiência pessoal de diarista e um pouco também das suas leituras do Journal dos irmãos Gouncourt, cuja écriture artistique buscou assimilar, notadamente em Os Condenados. Machado Penumbra, de João Miramar, é certamente um dos freqüentadores da garçonière. A visão de crimes e traições, de bas-fond e desagregação de Os Condenados decorre dos mistérios que cercavam Miss Cíclone. Os nomes grotescos e humorísticos, e, por isso mesmo críticos de Miramar e Serafim,em nada diferem, como espírito ou ciência, dos pseudônimos e apelidos usados em O Perfeito Cozinheiro. (op. cit., p. XII)

O Perfeito Cozinheiro torna-se, assim, não um diário qualquer, mas um documento que por si só é revolucionário em sua forma: um diário coletivo que testemunha a passagem de um tempo de alguns dos que mais tarde viriam a transformar, pela forma de ler e estar no mundo, a literatura e as artes brasileiras. Líder da vanguarda modernista, Oswald de Andrade rompeu, com sua literatura, as barreiras que amarravam gêneros como a poesia e o romance.

As sementes dessa literatura revolucionária já estavam no caleidoscópico O Perfeito Cozinheiro que, como vimos, originou criativamente os romances ou ``invenções'', como Oswald preferia chamar, Memórias Sentimentais de João Miramar, de 1924; e Serafim Ponte Grande, de 1933.

Essas obras, segundo Haroldo de Campos, não mais se afinam com o conceito tradicional de romance, ou seja, de uma obra acabada, bem feita, do realismo oitocentista: "O Miramar de Oswald é um caleidoscópio de 163 fragmentos que devem ser montados cinematograficamente no espírito do leitor e onde um capítulo pode ser um poema "pau-brasil", um excerto de cartão postal ou uma simples linha humorística ("Minha sogra virou avó")" (Campos: 1977, p.30) . Tão caleidoscópico quanto o estilo de O Perfeito Cozinheiro.

Diário de Naturalistas

Os fenômenos da natureza, a geografia, o clima, as florestas, a fauna e a flora de um modo geral parecem ser o motor que move a escrita dos diaristas naturalistas. São pessoas como o inglês Charles Darwin, por exemplo, que, em geral, estão mais interessadas em pesquisar e conhecer novos fenômenos e espécies naturais e utilizam-se, muitas vezes, do diário como base para esses registros.

No Brasil, este foi o caso do herborizador alemão, Ludwig Riedel, que em 1820 partiu da antiga cidade russa de Leningrado, atual São Petersburgo, para a Bahia. Ele fazia parte da famosa expedição do alemão Grigory Ivanovitch Langsdorff, que passou oito anos percorrendo mais de 16 mil quilômetros no interior do Brasil.

Ludwig Riedel planejava seguir até o Rio de Janeiro, destino inicial da expedição de Langsdorff, mas interrompeu a viagem permanecendo em Ilhéus do início de 1821 a fins de 1822, antes de novamente se reencontrar com a expedição de Langsdorff, no Rio de Janeiro.

Segundo nos informa Moema Augel, Riedel escreveu à mão o diário, em cadernos de notas, sem título e sem assinatura. Ela diz, ainda, que "o diário não foi feito para ser publicado, sendo íntimo, particular. São notas quase sempre breves, "telegráficas", com a preocupação de registrar o trabalho diário do herborizador" (Augel: 1979, p. 21). Este, conforme Moema, concentra-se em coletar plantas e conservá-las. O diário registra, também, a carência material e financeira e o estado de saúde instável do diarista.

As anotações vão desde a partida de São Petersburgo à chegada à Bahia em 4 de janeiro de 1821, e a Ilhéus quatro dias depois, após 36 dias de viagem. A 31 de janeiro parte para coletas e mapeamento da Baía de Camamu, chegando a Ilhéus a 3 de fevereiro de 1821, onde permanece até os primeiros dias de novembro de 1822. No início de dezembro chega ao Rio de Janeiro, onde se junta no dia 11 ao grupo de Langsdorff.

Fantástica expedição

A Expedição Langsdorff, realizada entre 1821 e 1829, foi retratada em mais de mil páginas de diários com anotações manuscritas em grande parte feitas pelo líder da expedição, o alemão Grigory Ivanovitch Langsdorff (1774-1852), consul geral da Rússia no Rio de Janeiro.

Membro extraordinário da Academia de Ciências de São Petersburgo, o barão Langsdorff, médico, botânico, zoológo, antropólogo, filólogo, geólogo, navegador e visionário, conseguiu convencer o czar russo Alexandre I a bancar o sonho: atingir o Amazonas pelo interior do Brasil, usando como prioridade as vias fluviais para, através dos rios Negro e Branco, alcançar a Venezuela e passar pelas Guianas, assim como pelas províncias da costa leste do Brasil, até chegar ao Rio de Janeiro pelo litoral.

Para atingir este objetivo, Langsdorff convocou renomados profissionais: além de Ludwig Riedel - considerado o fundador do maior e mais antigo herbário da América Latina, no Museu Nacional -, os zoológos Eduardo Menétriès e Christian Hasse, o astrônomo russo Nester Rubtsov e ainda o jovem e talentoso pintor Johann Moritz Rugendas, depois substituído por Aimé-Adrien Taunay e Hercules Florence. A expedição é considerada um dos mais importantes acontecimentos culturais e científicos do país.

A expedição de Langsdorff foi relatada em três volumes de diários publicados em 1997 e 1998 pela Editora Fiocruz, em co-edição com a Associação Internacional de Estudos Langsdorff e a Casa de Oswaldo Cruz, organizados por Danúzio Gil Bernardino da Silva. O primeiro volume inclui os trechos do Rio de Janeiro a Minas Gerais, cumpridos entre 8 de maio de 1824 a 17 de fevereiro de 1825, antes mesmo da partida oficial da expedição. O segundo volume refere-se ao trecho de São Paulo, cumprido entre 26 de agosto de 1825 e 22 de novembro de 1826. O terceiro volume relata a viagem pelo Mato Grosso e Amazônia, entre 21 de novembro de 1826 a 20 de maio de 1828.

Preparada desde 1821, a expedição de Langsdorff dá início ao empreendimento a 30 de agosto de 1825 quando sai em direção a Santos no veleiro Aurora, em companhia de Rubtsov e de dois pintores. Junta-se a Riedel e Hasse que seguiram por terra acompanhando a expedição.

Embora seja conhecida pelo aspecto trágico, a expedição de Langsdorff é considerada a primeira tentativa de exploração científica de uma ampla área do Brasil Central. O valor é inestimável quando se observa a importância do material obtido pela expedição. Segundo o pesquisador Ulysses Caramaschi,

apenas 14 das 31 espécies figuradas eram conhecidas; nove foram descritas por outros autores enquanto transcorria a viagem; e oito continuavam desconhecidas mesmo ao término desta, sendo descritas muito tempo depois. Uma delas, a serpente Bothrops moojeniI, só viria a ser realmente conhecida 140 anos após ter sido maravilhosamente figurada por Hercules Florence (Caramashi, Apud Mello Filho, p. 16).

Vale lembrar que o próprio Langsdorff cuidou de perto desse acervo. As descrições nos diários são minunciosas. E antes de enlouquecer e perder a memória, ele enviou a São Petersburgo ``100 mil exemplares de plantas de várias espécies, animais empalhados, minerais, mapas, objetos etnográficos e as 386 pranchas com desenhos e aquarelas, além das mil páginas de diários - um tesouro que forma o mais completo inventário do Brasil na primeira metade do século XIX'' (Barreira Apud Monteiro & Kaz, p. 400). O acervo de Langsdorff permaneceu esquecido durante 200 anos em São Petersburgo, atual Leningrado.

Diários Pessoais

O eu como objeto do diário também aparece na escrita diarística no Brasil. Diários como instrumento de expressão do eu foram usados por homens e mulheres, sem distinção de raça, cor ou condição social, especialmente durante o século XX, quando, seguindo uma tendência, o hábito da escrita de diários se espalhou pelo mundo.

No Brasil, entre os exemplos mais conhecidos, está o diário de Carolina Maria de Jesus, uma mineira de origem humilde que retrata a realidade de uma vida dura passada numa das favelas de São Paulo, na década de 1950. Separada, três filhos, catadora de lixo para sobreviver, o drama de Carolina Maria de Jesus chamou atenção de muitos brasileiros e de muitos estrangeiros, ao ser publicado em 1960. O repórter Audálio Dantas, do jornal Folha da Noite, foi quem a descobriu em 1958, durante uma entrevista na favela do Canindé, onde a diarista morava.

Hoje, o conteúdo de Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada é objeto de estudo de vários pesquisadores. A Universidade de Miami desenvolve o Projeto Carolina de Jesus em parceria com o Núcleo de História Oral (NEHO) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, reunindo toda a literatura produzida em torno dos diários e da vida da brasileira.

O livro tornou-se best seller no Brasil e foi traduzido e publicado em outros 13 idiomas. Segundo José Carlos Sebe Bom Meihy, pesquisador no CEHO da vida e da obra de Carolina, Quarto de Despejo "tem cerca de um milhão de cópias vendidas em todo o mundo, sendo, inclusive, o texto brasileiro mais publicado em todos os tempos3.13.

Carolina escreveu, ainda, mais três livros: Casa de Alvenaria, seu segundo diário publicado em 1961, foi traduzido e publicado em inglês em 1977, pela Editora da Universidade de Nebraska; Diário de Bitita (1982), que forma com o primeiro uma trilogia vivencial da autora, e Provérbios e Pedaços da Fome (1963). Ela escreveu, sem sucesso, muito poemas, contos e fragmentos de memórias. Morreu em 1977, esquecida, num pequeno sítio no interior de São Paulo.

Sobre Carolina existem, ainda, Cinderela Negra: a saga de Carolina de Jesus, trabalho conjunto do professor Robert Levine, da Universidade de Miami, e de José Carlos Sebe Bom Meihy.. Os dois pesquisadores escreverem também Meu Estranho Diário, publicado em 1996 pela Editora Xamã.. Há, entre outros trabalhos sobre Carolina de Jesus, o livro Os Diários Não-Editados de Carolina Maria de Jesus, traduzidos por Nancy Naro e Cristina Mehrtens, da Editora da Rutgers University (1999)3.10.

Sebe observa ser reduzida a publicação de diários no Brasil:

Há na história da publicação no Brasil poucos diários em geral. Os diários femininos são ainda mais raros, e curiosamente os três que existem remetem sempre a pessoas marginais do padrão oficial. O primeiro deles é o da favelada Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo, de 1960; o segundo é o da louca Maura Lopes Cançado, O Hospício é Deus, de 1965, e finalmente um terceiro escrito por uma empregada doméstica, Ai de Vós, de 1983. Por lógico seria enganoso dizer que as mulheres brasileiras não escrevem diários, o que não se verifica, e isso é interessante, é uma cultura pública de leitores deste gênero que é tão prezado em outros quadrantes3.11 .

Embora Sebe aponte apenas três os diários publicados de mulheres, outros ainda compõem esta lista. Entre eles, destacam-se Minha Vida de Menina, diário da mineira Helena Morley, pseudônimo da dona de casa Alice Dayrell, escrito no final do século passado, aos 15 anos, e publicado pela primeira vez em 1942. O diário registra impressões sobre os acontecimentos da vida de Helena entre 1893 e 1895, quando cursava a Escola Normal de Diamantina.

Alice teceu considerações extremamente sensíveis sobre o casamento e a maternidade. O seu testemunho representa, atualmente, uma preciosa fonte documental sobre a condição feminina no fim do século XIX. Minha vida de Menina traz os registros diários sobre o cotidiano de Alice: a escola, a vida em família, as festas, os passeios, as amizades. O diário recebeu inúmeros elogios de crítica e foi traduzido para o francês, inglês e o italiano. No Brasil, teve várias edições, a mais recente da Companhia das Letras. Alice Dayrell faleceu no Rio de Janeiro, em 19703.12.

Baronesa de Langsdorff

Do século XIX também são as anotações diárias de Victorine Emilie, baronesa de Langsdorff, que narra a viagem que fez ao Brasil acompanhando uma missão assumida pelo marido, Émile, o barão de Langsdorff. Ele veio, a mando da corte francesa, negociar o desejado casamento de François d'Orléans, príncipe de Joinville, com a princesa D. Francisca, irmã de D. Pedro II. Os diários revelam a importância da personalidade da baronesa para o sucesso da missão, mostrando um poder articulador e decisivo de Victorine no processo.

Escrito entre 1842 e 1843, o diário permaneceu em manuscrito até 1954 quando a publicação foi autorizada pelo neto da baronesa, o Barão de Langsdorff. A associação Les Amis des Musées de la Marine, de Paris, estava interessada na contribuição dos diários com informações sobre os últimos tempos da navegação à vela3.14. Ele faz parte do Diário da Baronesa, conjunto de diários escritos por Victorine desde os 15 anos até o final da vida. O hábito de registrar a vida em forma de diários foi estimulado pelo pai, o conde de Saint Aulaire, embaixador francês em Londres.

Apesar de a baronesa ter passado apenas seis meses no Rio de Janeiro e ter mantido contatos limitados a uma faixa restrita da população, seu diário singulariza-se pela espontaneidade e pela penetração. Apresenta dados sobre a indumentária, a etiqueta, o mobiliário, as relações familiares, políticas e religiosas, como quase todos os autores de livros de viagem. Contudo, não permaneceu na aparência exterior do observado. Tentou penetrar mais fundo, através de diálogos prolongados e reflexões abrangentes; mesmo comparando o seu diário a outros não destinados ao público, até agora não foi encontrado nenhum que transmitisse melhor relações interpessoais e sentimentos3.15.

Zahidé L. Muzart observa que a baronesa de Langsdorff escreve uma história paralela àquela marcada pela predominância do discurso masculino, história essa que Victorine se empenha em ir ``escrevendo e inscrevendo-se nas entrelinhas, à margem. Nele (o diário) não se encontra um olhar ``isento'', neutro. É um olhar profundamente crítico (...) Suas interrogações são os da européia branca, culta e nobre. Mas ao final de quase um ano há uma virada com sua relativa ``adoção'' do país e de seus habitantes''3.16.

A contribuição de Vauthier

Contemporâneo de Maria Graham, um dos mais conhecidos engenheiros estrangeiros no Brasil, o francês Louis Léger Vauthier, que viveu no Brasil entre 1840 e 1846, deixou também como legado o Diário Íntimo. Vauthier chegou à província de Pernambuco com a missão de construir e administrar obras públicas, como o primeiro Theatro Santa Isabel, em Recife. Ele também ajudou os senhores de engenho a enfrentar o período da seca, propondo soluções para a falta d'água que atingia a plantação de cana-de-açúcar.

O diário de Vauthier foi presenteado ao antropólogo Gilberto Freyre pelo amigo Paulo Prado. Traduzido, foi publicado pela primeira vez pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1940. Em 1960, foi incorporado à segunda edição da obra de Freyre, Um Engenheiro Francês no Brasil, publicada pela José Olympio Editora. O segundo tomo é dedicado ao diário, que foi revisto e aumentado. Junto ao texto do diário foram publicadas também as Cartas Brasileiras de Louis Léger Vauthier e por um índice onomástico e temático3.17.

Em 1940, na primeira edição de Um Engenheiro, o diário íntimo havia sido utilizado por Freyre numa abordagem antropológica, que reuniu além do diário, arquivos de história pessoal das famílias, anúncios em jornal, cartas e outras fontes, para compor um retrato da influência francesa nos hábitos, no patrimônio e na cultura de Pernambuco3.18. Através dos diários, Freyre pôde ter uma idéia clara de como era vista a cultura, a administração, a sociedade pernambucana pelos olhos de um francês.

O Baú de Freyre

Freyre, inclusive, tem o nome incluso entre os brasileiros que se utilizaram no século XX da prática diarística para registrar a vida. Ao lado do pernambucano surgem o nome de outros diaristas conhecidos, como os escritores Lúcio Cardoso, Josué Montello, Lima Barreto e Roberto Alvim Correia (Diário: 1950-1960), por exemplo.

Os diários de Freyre foram publicados pela primeira em 1975, sob o título Tempo morto e outros tempos: trechos de um diário de adolescência e primeira mocidade, 1915-1930. O texto constitui-se em fragmentos dos diários,organizados para publicação por Maria Elisa Dias Collier, com acompanhamento do próprio autor.

Examinando o material que ajudava a organizar, Freyre revelou terem sido as notas tomadas e abandonadas por ele durante um bom tempo. Quando novamente se interessou por continuar a registrar a vida, alguns desses registros, fez segundo ele:

em sinais taquigráficos; outros, com certo amor literário; todos, com uma sinceridade consigo mesmo de que agora quase se orgulha (...) há nas notas um misto de lirismo anárquico e de tentativa de organização: a de um adolescente e depois um jovem na sua primeira mocidade a buscar dar alguma ordem aos começos do seu pensar, do seu sentir, do seu viver, do seu existir. Ao seu preexistir e ao seu pós-existir - dadas suas preocupações com seu futuro e até com o futuro de sua gente, em particular, e do homem, em geral3.19.

Segundo Freire, os registros são incompletos porque faltam relatos de acontecimentos e de experiências que ele considera importantes sobre a adolescência e a primeira mocidade. O material foi devorado por traças após terem sido deixados durante anos, após a Revolução de 1930, num baú.

Diários Políticos

Um dos mais importantes políticos que o Brasil produziu no século XX, o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas, legou ao Brasil um documento sem par para a compreensão da história recente brasileira, da qual ele foi um dos atores mais destacados. Os seus diários, publicados em 1995 pela Siciliano/Fundação Getúlio Vargas trazem os registros mantidos ao longo de doze dos 18 anos de vida pública, entre 1930 e 1942. As notas tomadas ao fim do dia traziam os principais eventos políticos, mas também registros de pensamentos pessoais e da relação extraconjugal que mantinha. Getúlio governou o Brasil duas vezes: entre 1930-1945, por um golpe de estado, e de 1951-1954, quando encerrou a vida com um tiro no peito.

Organizados pela neta do ex-ditador, Celina Vargas do Amaral Peixoto, e por Leda Soares, os diários foram publicados depois do trabalho de dois anos e meio de uma equipe checando nomes e fatos das notas deixadas por Getúlio. As anotações geraram dois volumes contendo 1.200 páginas. Os registros são iniciados em 3 de outubro de 1930 e 27 de setembro de 1942, resultando os diários num importante registro do cotidiano de um presidente envolvido em suas funções (e com as paixões) e com os principais fatos, decisões e eventos que envolveram a recente história brasileira.

Do papel ao computador: o novo status dos diários íntimos pessoais

Diários On-line - a primeira onda

O desafio de postar diários pessoais na internet fez parte do que a americana Chris Sherman, editora assistente do Search Engine Watch (http://searchenginewatch.com) chamou de "primeira onda da web escriturável". Segundo ela, este período esteve limitado pela oferta de ferramentas que facilitassem a postagem de diários on-line na rede. "Você tinha a chance de usar um editor simples, providenciado por serviços grátis, como ofereciam os sites comunitários Geocities e Angelfire, ou usar o próprio recurso com editor HTML. Mas isto requeria conhecimentos4.1, lembra Sherman.

A "segunda onda da web escriturável" surgiu mais recentemente com o fenômeno dos weblogs na rede, "páginas de comentários atualizados freqüentemente. Eles são menos como sites tradicionais e mais como comentários sobre o corrente estado da web", define. Esta nova onda, conforme Chris Sherman, faz a internet retornar à proposta inicial de Tim Berners-Lee (http://info.cern.ch), seu criador, de torná-la uma mídia participatória, onde usuários seriam capazes de ler e publicar documentos.

A intimidade na rede

O fenômeno da primeira onda teve início há sete anos quando pessoas comuns começaram a realizar um ritual que foi ficando cada vez mais freqüente: construir um site pessoal e nele, diariamente, depositar o diário ou jornal íntimo on-line. Em 1994 quando começaram a surgir, as home pages de diaristas podiam ser contadas na rede. Atualmente isso não é mais possível.

Seja a partir dos Estados Unidos, onde tudo começou, passando por outros países das Américas, como o Brasil; Europa, ou da geograficamente distante Austrália, milhares de diaristas de várias partes do globo utilizam a rede mundial de computadores para se expressar.

O início do fenômeno é um pouco controverso em relação à autoria. A americana Carolyn Burke é largamente alardeada como a primeira pessoa a manter um diário on-line. Em janeiro de 1995 ela postou na rede o Carolyn Diary (www.carolyn.org) e ficou bastante conhecida quando no outono americano de 1996 foi capa das revistas U.S News e Report World, ao ser citada por fazer parte do projeto textit24 Hours in Cyberspace". Envolvendo a produção de um livro de fotografias e um site na internet (www.24hoursincyberspace.com), o projeto elencou pessoas e instituições que faziam a rede mundial de computadores mais humana.

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Figura 1 - Carolyn Diary

Apesar da repercussão e da boa fama do site, o pioneirismo de Carolyn cai por terra quando confrontado com a ousadia e a performance de outro americano, Justin Allyn Hall. em janeiro 1994, com apenas 19 anos de idade, Hall inaugurou na rede o diário Justin's Links from the Underground4.2, passando a fazer dele um livro aberto sobre a própria vida, publicando tudo em detalhes: bebedeiras, divagações à toa, as doenças sexualmente transmissíveis que contraiu, viagens, amizades, as aulas na faculdade, namoros, o suicídio do pai e até as próprias fotos, algumas delas tiradas nu ou urinando.

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Figura 2 - Página de Justin Hall

Desde então, mais e mais pessoas foram-se juntando ao pioneirismo de Justin Hall e Carolyn Burke e encontrando os mais diferenciados motivos para manter on-line a narrativa das próprias vidas. Seja como confessionário, local de catarse, partilha, promoção de autoconhecimento, milhares de escritores de diários íntimos encontram nesses e em outros parâmetros a justificativa para a decisão de escrevê-los e publicizá-los.

A web design e programadora de web tv, C.J. Silverio, 35 anos (julho 2001), começou a escrever o diário on-line chamado Ceej`s Black Book em 1996, aos 30 anos. ``Decidi escrever meu diário porque eu queria tocar outras pessoas diretamente, intimamente. Porque estou fascinada pela idéia de deixar que outras pessoas saibam o que se passa em minha mente''.

Como C.J. Silverio, a americana Diane Patterson também faz parte do grupo de pioneiros de diários na rede. Por dois anos, a partir de 1996, ela postou o diário on-line denominado The Paperwork, após sair da Carolina do Norte para fazer um mestrado em roteiro de cinema, na Universidade da Carolina do Sul. Exatamente como fizeram as mais de 800 mulheres americanas no século XIX, a idéia de Diane era "continuar mantendo os laços com os familiares e amigos deixados para trás4.6 .

O Paperwork durou dois anos, até que Diane resolveu a partir de junho de 1998 manter um novo diário Nobody Knows Anything (www.nobody-knows-anything.com), no qual buscou estabelecer uma nova identidade como profissional de cinema. Através dele, a diarista documenta a vida, que inclui ser uma roteirista de Hollywood, mãe e comentarista social. Diane é autora de um dos trabalhos mais referenciados no gênero de diarismo on-line, intitulado Why Web Journals Suck (www.nobody-knows-anything.com/websuck.html), um ensaio em que analisa o potencial dos diários on-line. Em 1999 ela recebeu um prêmio, o Legacy Award pelas contribuições à comunidade de diaristas.

Justin Hall admite que entre os motivos que o movem a escrever um diário íntimo está a necessidade de partilhar as experiências:

Porque nós estamos sozinhos. Nós necessitamos de mais amigos ou ouvidos simpáticos, pessoas que possam ouvir nossas estórias e falar-nos as suas próprias, ou nos dizer onde elas foram mudadas. Nós gostamos de ler as estórias de outras pessoas porque elas nos ajudam a afirmar a nós mesmos. Fora dali nós não estamos sozinhos (...) colocar nossas vidas on-line não significa conduzir nossas vidas on-line, mas utilizar um veículo de partilha sem precedentes. Nós interagimos no mundo real e usamos o ciberespaço para colaborar, dividir e conjurar novas possibilidades. 4.3

Desse jeito aberto, Justin foi conquistando fãs e atraindo cada vez maior número de leitores. Segundo Justin:

A web é uma oportunidade para fazer bem nossos quinze minutos de fama. Já que as páginas da web atingem qualquer meio existente, você pode construir seu site em sua própria imagem. Você pode ser único, porque não existem expectativas. Muitas pessoas criam home pages pessoais movidas apenas por amor e curiosidade(...) Isto é o que é rico e maravilhoso na web. Quando você descobre a ``página do trenzinho elétrico'' (...)alguma garota apaixonada por trens pode sentir-se influenciada a construir a própria home page em que ela venha colocar uma foto da própria trilha, onde apareça ela e o filho brincando com os trens e uma lista de esquemas de trens que ela mesma desenhou. Talvez outros entusiastas sejam inspirados a construir suas próprias home pages e logo existirá uma comunidade de entusiastas de trens 4.4

Tudo indica que o raciocínio de Hall estava correto. Pelo menos no que se refere ao entusiasmo de novos diaristas, o processo tem acontecido dessa maneira e o próprio Justin tem servido de exemplo. Em 1997, fascinado pelos diários íntimos do então estudante na internet, o cineasta americano Doug Block resolveu seguir os passos dele e, estimulado, montou com a ajuda de Justin, a própria home page onde passou a escrever os diários íntimos.

A experiência de Block fez parte de um conjunto de iniciativas que incluía a realização do filme documentário Home Page sobre os diaristas on-line.

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Figura 3 - Home Page, o filme

Lançado em 1999 no circuito comercial de Nova Iorque, o roteiro de Block chegou até mesmo a receber o prêmio do festival americano Sundance, de melhor documentário. ``Você não pode fazer um documentário pessoal deste tipo com conceitos tão rígidos... A única coisa que eu realmente sabia era que eu não sabia que a questão era sobre o nível pessoal que é. Aos poucos eu descobri isso quando eu me deixei levar''4.5.

Brasileiros pouco empolgados

No Brasil, a possibilidade de postar diários on-line na rede usando a linguagem HTML não empolgou muita gente. Poucos foram os sites disponibilizados na rede que resistiram ao tempo. Entre estes está o Diário de Bordo (http://www.diario.hpg.ig.com.br/diario_escritor.htm) do estudante universitário Renato Gaiarsa, residente em Salvador.

Aluno do curso de publicidade da Universidade Católica do Salvador, Renato usou o diário para postar o que acontecia no dia-a-dia, além de idéias, pensamentos, críticas, letras de música.

Segundo ele, "este site não quer dizer nada, não tem que dar explicação (...) eu só quero desabafar, berrar, protestar anonimamente (...) nesse mundo cão, já feito, segmentado e já traçado. Eu só quero berrar da maneira que me cabe4.7, adverte em relação à proposta do diário on-line. O diário postado pela primeira vez em janeiro de 2000, resiste polemizando depois que Renato postou em junho um comentário sobre o filme Três Histórias da Bahia, criticando a produção e direção do filme. O comentário foi reproduzido na web gerando irritação no diretor do filme, José Araripe.

Outras propostas de diário não seguiram adiante, como o diário on-line de Catherine Neuve (www.meudiario.ezdir.net), ver imagem abaixo. Ela iniciou o diário em janeiro de 1999, realizando apenas duas entradas. A proposta segundo Catherine era "passar o que sinto, pensamento, idéias, paixões". Embora tenha pretendido dar seqüência aos escritos, delineando no diário uma previsão de entradas até dezembro de 2000, o diário não foi adiante.

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Figura 4 - Diário de Catherine Neuve

Em Via Láctea, uma jovem paulista narra o dia-a-dia conflituado. O diário (http://orbita.starmedia.com/$\sim $dianastars/eu.html) criado em fevereiro de 1999 põe à mostra as dificuldades enfrentadas na relação com a família. Ela conta, entre outras coisas, a decisão tomada pelos pais de mandá-la para morar com os avós numa cidade do interior do Rio de Janeiro e as dificuldades para conciliar vida corrida com a escritura do diário.

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Figura 5 - Via Lactea

A autora do diário prefere não se identificar. Fala dos amigos, exibindo fotos de atores para representá-los. A diarista costuma demorar para atualizar o Via Láctea, que recebeu a última entrada em 06 de fevereiro de 2001.

A scribe tribe

Figuras como Justin Hall e o amigo, o famoso escritor Howard Rheingold - autor reconhecido de livros como Virtual Reality (1991) e The Virtual Community (1993) -, sonharam em 1996 com uma comunidade virtual onde fosse possível reunir pessoas que pudessem falar, em forma de narrativa na rede, da própria experiência.

Para isso, eles fundaram juntos em novembro daquele ano o Electric Minds (http://www.minds.com), um site que tinha o objetivo de reunir pessoas com interesses comuns, mas que terminou um ano depois por falta de patrocínio. Howard Rheingold reacendeu o desejo de incentivar a formação de comunidades na rede e reativou o Eletric Minds, que funciona atualmente no site http://www.abbedon.com/eletricmunds/html/home.html .

O Eletric Minds é ele mesmo um ponto de encontro de várias comunidades, estimuladas a se formarem e a participar do site, que as lista por temas de interesse de a a z. Traz também artigos sobre assuntos ligados à formação da internet, discutidos sobre vários prismas; chat de discussões, a "língua falada na internet", dentre outros recursos para atrair e manter os interessados.

Foi também nessa época, em 1996, que passaram a surgir os primeiros indícios de que algo diferente estava acontecendo na rede mundial de computadores, em direção à formação de uma nova comunidade: a tribo de escritores e diaristas, a scribe tribe. Acalentado também pelo próprio Justin - que incentivava desde 1994 com o próprio exemplo na web page, e também dando dicas para que mais pessoas criassem a própria página pessoal -, o desejo começava por outras vias a se tornar realidade.

O primeiro guia para a scribe tribe, o Open Pages (http://www.hedgehog.net/op), foi fundado em julho de 1996 por uma diarista autodenominada de Kat (http://www.aloha.net/õphelia). O site, como outros que viriam a surgir, é um anel (webring) e agrupa centenas de páginas de diaristas de várias pontos do globo. Ele parte do princípio de que "nenhuma vida é insignificante (...) a experiência de alguém pode trazer algo para nossas vidas: pensamento, perspectiva, risos, lágrimas4.16.

O Open Pages surgiu com a proposta clara de tornar-se uma comunidade de escritores de diários, reunindo pessoas de diversas partes do mundo num local onde elas pudessem dividir "triunfos e tribulações pessoais". Quando fundado, o site esperava tornar-se "um anel de expansão global trazendo experiências humanas para a alma coletiva da web4.17.

Em março de 1996 surgiu um dos anéis de sites mais conhecidos, o Often (http://www.ounce.com/often/requirements.html), em seguida outros também foram ganhando destaque, como o Archipelago (http://www.spies.com) - que funcionou entre abril de 1997 a setembro de 2000 - e o Metajournals (http://www.metajournals.com). Atualmente há um sem-número de anéis de sites ligando os diaristas na rede.

Esses webring funcionam como um portal que agregam páginas ou grupos de páginas de diaristas. Neles, os escritores obtêm informações básicas sobre o anel, podem conferir os sites existentes ou encontrar links para outros anéis de site; obter dicas de como se deve fazer para se tornar um diarista e, entre outras coisas, ter conhecimento sobre as regras que cada webring utiliza para manter a página do diarista.

Os critérios são variáveis, especialmente no que se refere à freqüência dos registros que cada membro deve lançar nos diários. Muitos, como o Often, exigem que os filiados publicizem os diários senão diariamente, pelo menos quatro vezes por semana. Outros como o Archipelago são mais flexíveis, cobrando a freqüência uma vez a cada sete dias, no mínimo; ou uma vez a cada mês, como o Open Pages.

Além deste, alguns dos mais conhecidos webrings da Scribe Tribe são o Webring 4.8 - site de navegação para todos os links da net. Inclui pesquisa que possibilita encontrar outros links de interesse; Gay Diary Ring4.9 - link de jornais dedicados a mostrar casos de gays, lésbicas e bissexuais; Journal Windows4.10 - link de diaristas que "abrem candidamente ou honestamente suas almas"; Just my Words 4.11 - aberto a escritores de jornais que querem dividir suas jornadas; Little Bastard4.12- dedicado a escritores de jornais que incluem algo de não ordinário; On Display 4.13- outra série de links de jornais.

Isto dá apenas uma ínfima idéia da quantidade de diaristas presentes na web e da variedade de temas em que estão agrupados. Na Scribe Tribe há diários para todos os gostos. Além de sites tradicionais como os de Hall ou de Carl Steadman, Julie Petersen, Diane Pattersen, e C. J. Silverio, há também na web diários ou jornais temáticos que agregam pessoas que por algum motivo se identificam.

O Diet Diaries 4.14, por exemplo, traz como lema: "a dieta perfeita não tem que permanecer secreta". O site foi criado para ajudar pessoas a dividirem experiências relacionadas à perda de peso através de dietas. Criar o diário, segundo o inventor do site, foi uma maneira de fazer com que pessoas tímidas em falar da própria experiência tivessem um local ideal para fazê-lo.

Outro exemplo de site na scribe tribe, que agrupa diaristas por tema, é o Diarist.Net4.15. O anel abriga diaristas com características em comum: Angst Pages, dos diários depressivos; Artists, de diaristas envolvidos com arte; Asians on-line, somente para asiáticos e asiáticos; Back Talk, diários com fórum de mensagem interativa; Best Years of Our Lives, diaristas que têm em comum a data de graduação no ginásio; Colored Pages, diaristas descendentes de africanos e latinos; Funny Pages, diários de humor; Hear Here, diários que incorporam Real Audio ou outra mídia, dentro outros.

O site, editado pelo norte-americano Ryan Kawailani Ozawa, que vive no Hawaii, tem contribuído para avivar o interesse pela manutenção de diários e jornais na rede. Há três anos ele vem promovendo um concurso para premiar as melhores sites de diaristas. Intitulado The Diarist Awards , o prêmio valoriza habilidades e premia tanto as melhores entradas quanto os melhores sites.

Na categoria melhores entradas estão os gêneros: Best Comedy Entry (Melhor Entrada Cômica), Best Dramatic Entry (Melhor Entrada Dramática), Best Romantic (Melhor Entrada Romântica), Best Guess (Melhor Entrada sobre Convidado), Best Collaborative (Melhor Entrada Colaborativa), Best Account of a Public or News Event ( Melhor Entrada sobre Relato de Evento ou Notícia Pública); Best Rant ( Melhor Entrada Pessoal, Articulada, Urgente), Best Outstanding ( Melhor ntrada de Destaque).

Já os sites concorrem nas categorias: Best Journal (Melhor Jornal), Best Writing (Melhor Texto) , Best Design (Melhor Design) , Best Use of Multimedia (Melhor Uso de recursos Multimídia) , New Journal ( Melhor Jornal Novo) , Experience Journal (Melhor Experiência de Jornal) , Legacy Award (Melhor Legado).

Os membros da comunidade de escritores de diários espalhados pela rede se encontram diariamente através de uma lista de discussão fundada em novembro de 1998, a scribe tribe, que possui 293 participantes e está hospedada no egroups do buscador Yahoo.

Assuntos os mais variados são discutidos através de e-mails trocados na lista. Questões sobre a manutenção de diários manuscritos e on-line aparecem com freqüência. Os membros da scribe tribe também se interessam em discutir temas específicos levantados pelo grupo, como por exemplo, poesia e hobbies.

É também com o incentivo do DiaristNet e de outro anel, o Metajournals, que há dois anos os diaristas vêm se encontrando fora do ambiente da rede. Em 2000 os participantes da lista de discussão saíram do ambiente virtual para se encontrar no mundo real durante o JournalCon 2000, um congresso realizado para reunir e congregar diaristas. O encontro foi realizado durante três dias, de 6 a 8 de outubro, em Pittsburgh, estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Participaram do evento cerca de 40 diaristas, que assistiram a palestras proferidas por alguns dos mais importantes nomes do diarismo on-line.

Para discutir a organização do encontro, foi elaborado um site (http://www.JournalCon.com), que funcionou como um fórum de discussão para os envolvidos no seminário. O JournalCon 2000 abordou temas como O passado e o futuro do diarismo On-line; Comunidades de Jornal & Controvérsias e Diários e Jornais para o Autor: escrever como uma carreira.

Os palestrantes incluíram alguns dos mais importantes nomes do diarismo on-line como Carolyn Burke (www.carolyn.org), Diane Patterson (www.nobody-knows-anything.com), Stephen Schalchlin (www.bonusround.com), Columbine (www.inu.org), Patrick Cleary (www.spies.com/$\sim $xingcat/iteration), Dreama (www.bluesilver.org/mdwn), Pamela Ribon (www.pamie.com), Beth (www.xeney.com) e John Scalzi (www.scalzi.com/whatever).

Entre eles esteve o músico americano Stephen Schalchlin, autor do diário on-line (www.bonusround.com) - Living in the Bonus Round -, onde destaca a luta para sobreviver à Aids. O diário começou em março de 1996 como "uma carta de adeus ao mundo". A narrativa de Stephen transformou-se em um autodocumentário dos dias em que seu médico lhe disse que nunca mais o veria, tal a gravidade do caso. O diarista escreve por acreditar que "o poder da cura nasce da capacidade de mostrar a própria alma". E usa os diários para alcançar esse objetivo.

O site do JournalCon serviu também como ponto de encontro para os diaristas e escritores de jornais antes e após o evento. Uma lista de discussão, a journalcon-chat@egroups.com, permitiu que diaristas e organizadores partilhassem os detalhes e arranjos que estavam sendo feitos para organizar o encontro.

Terminado o seminário, o site hospedou informações, como a opinião dos organizadores, palestrantes e assistentes; fotos, além de permitir o bate-papo através do JournalCon Scrapbook, um 'album de recordações" que reuniu através de links para as páginas de diaristas tudo que foi escrito, gravado e fotografado sobre o evento.

Dentro do site do JournalCon foi produzido um link para a edição 2001, que começou a ser discutida logo após o encerramento do encontro de 2000. Com opções circulando entre os participantes das listas do JournalCon - journalcon@egroups.com -, e scribe tribe - ScribeTribe@egroups.com-, foi possível realizar uma votação entre três cidades norte-americanas, Chicago, Los Angeles e Las Vegas, para sediar o evento. O local escolhido foi Chicago, que acolheu a nova edição do JournalCon entre 12 e 14 de outubro de 2001.

Blogs: a segunda onda

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Figura 6 - Blogger

Quando muita gente se perguntava sobre o futuro dos diários on-line, em 1999 uma nova ferramenta foi criada, impulsionando com grande força o fenômeno dos diários pessoais na rede mundial de computadores. No mês de julho daquele ano, a empresa Pitas (www.pitas.com) criou o primeiro software grátis e em agosto o americano Evan Williams, da empresa Pyra Labs, criou ferramenta semelhante, o Blogger (www.blogger.com), que se transformaria no ícone de um conceito que revolucionaria a criação e postagem de páginas pessoais na internet.

Depois destes, outros softwares despontariam, transformando radicalmente alma da rede: GrokSoup (www.grouksoup.com); Edit This Page (www.editthispage.com) criado em 1999 pelo desenvolvedor Dave Winer, da empresa UserLand (www.userland.com); VelociNews (www.velocinews.com), Weblogger (www.weblogger.com), Squishdot (http://squishdot.org), Grohol (www.grohol.com); GreyMater (www.noahgrey.com/greysoft), entre centenas de outros.

O principal diferencial da nova ferramenta é que ela trouxe velocidade na criação, postagem e atualização dos ciberdiários, democratizando o acesso de não-especialistas em linguagens como html, ftp, dentre outras, à construção e manutenção das páginas pessoais. Com isso, qualquer pessoa que domine noções básicas de inglês pode ter um weblog ou blog, como passaram a ser chamados os diários criados com este modelo de ferramenta que se assemelha a um editor de textos.

Além de ser fácil de usar, o software é gratuito, e o conteúdo postado não passa por qualquer tipo de censura. Para usar a ferramenta não é necessário baixá-la no micro; usa-se diretamente em qualquer computador conectado à internet. Em geral, é só seguir um passo-a-passo.

No hospedeiro Blogger (www.blogger.com), por exemplo, clica-se no botão start now da página. Um formulário aparece na tela e o usuário o preenche para se cadastrar. Depois disso, cria-se um título e faz-se uma descrição do weblog. No Blogger o usuário pode escolher se deseja tornar público ou não o diário.

O próximo passo é escolher o endereço do site, que traz o padrão nomeescolhido.blogspot.com. A parte final é a escolha de um entre os seis templates, (modelo do blog) oferecidos. Assim que escolher com que cara ficará o blog, aparecerá uma tela no formato editor de textos onde o novo blogueiro escreverá o que mais lhe convier. Depois disso, basta clicar em post and publish para publicar o blog.

Para criar links e colocar negritos e itálicos, há um menu de ícones na parte superior da tela. Mas, quem quer ter um diário on line mais sofisticado no Blogger precisa entender de webdesign, porque para pôr imagens, precisa entender da linguagem HTML

Já em outros editores, como o Manila (www.weblogger.com), da empresa UserLand (www.userland.com) o processo de feitura do blog é ainda mais simples. Assim que o endereço é criado com o botão Start here, uma janela é aberta com a nova URL no formato: http://fulano.weblogger.com. Neste editor, para incluir imagens, não é necessário conhecer a linguagem HTML, basta ir à secção Pictures, que fica na própria página do usuário, e clicar em Procurar. Para publicar a imagem, basta clicar em Edit e, no campo que aparece, digitar entre aspas o nome que foi dado para ela. Os textos podem ser escritos diretamente nesse campo.

A origem do termo

Embora o software tenha surgido em 1999, o termo weblog foi cunhado em dezembro de 1997 por outro americano, Jorn Barger, editor do robot wisdom weblog (www.robotwisdom.com), quando os textitblogs começavam a despontar. Segundo uma das blogueiras pioneiras, a americana Rebecca Blood, autora de Weblogs: a history and perspective4.18, em 1999, o desenvolvedor de web, Peter Merholz, em seu blog Peterme.com (www.peterme.com), anunciou que passaria a chamá-los de wee-blog. Com o uso, o termo foi inevitavelmente reduzido para blog e o dono do site passou a ser chamado de blogger (blogueiro).

Rebecca revela que em 1998 quando os blogs podiam ser contados na rede, Jesse James Garrett, editor do blog Infosift (www.jjg.net/infosift), recolheu pela primeira vez endereços de 23 blogs existentes e depois mandou-os para Cameron Garrett, que os publicou no site que mantinha, o Camworld (www.camworld.com). A partir daí, outros editores de blogs passaram a mandar os endereços para serem incluídos na lista. Em 1999, outros anéis de site surgiram, como o Eatonweb Portal http://portal.eatonweb.com/portal/portal.php3), da blogueira Brigitte Eaton, considerado por Rebecca, "a mais completa lista de weblogs disponível4.19.

Este portal dá uma idéia da presença dos weblogs no mundo, divulgando numa lista o número de blogs cadastrados por país. Dos 2996 diários virtuais (29/12/2001) postados no Eatonweb, oriundos de 33 países, a grande parte, 2715, tinha origem nos Estados Unidos. O Brasil figura em terceiro lugar com 36 blogs cadastrados, logo atrás do Reino Unido, que possui 66 diários. O Eatonweb cadastra os blogs por quatro categorias: país, assunto, língua e ordem alfabética.

Para ser incluído em anéis como o Eatonweb Portal, a exigência é que seja considerado um weblog, que tem por principal característica a presença de links e de "entradas datadas", marcas do software. Quando o editor Jorn Barger cunhou em 1997 o termo weblog aos diários, ele o descreveu como: "Um weblog (às vezes chamados de blog, uma 'página de notícia' ou um filtro) é uma página da web onde umweblogger ( às vezes chamado de blogueiro ou pré-surfista) 'loga' (linka) todas as outras páginas da web que ele/ela considera interessantes4.20 .

Outro blogger pioneiro, o desenvolvedor Dave Winer, da UserLand, autor dos blogs Scripting News (www.scripting.com) e DaveNet (http://davenet.userland.com), por sua vez, define em The History of Weblogs, os blogs como "um tipo de tour contínuo, através de um guia humano que você já conhece (...).Freqüentemente atualizados num tipo de improvisação em tempo real, os blogs apontam para eventos interessantes, páginas, estórias e acontecimentos em qualquer lugar na web4.21.

Filtro de notícias

Esse perfil de blogs descrito por Jorn Barger ganhou desde o início muitos adeptos, chegando a ser festejado como um movimento de um jornalismo de notícias revolucionário, porque feito por amadores, leigos. A internet daria, assim, régua e compasso para pessoas comuns produzirem o próprio conteúdo noticioso, jornalístico, independente das empresas do ramo, bem aos moldes dos fanzines e jornais mimeografados que proliferaram nas décadas de 1970/80. Daí porque freqüentemente os blogs são alvo desta comparação. ``Se a mídia não nos satisfaz, façamos nossa própria mídia. Se não produz o que queremos ler, produzamos nosso próprio conteúdo'', propõe o jornalista Fabiano Oggh4.22.

O próprio Jorn Barger, um dos blogueiros que fizeram o pioneirismo dessa forma de expressão na internet, tem no seu Robot Wisdom Log, um exemplo de weblog como filtro de notícias. Ele vinha mantendo usuários da rede informados, recolhendo em seu Wisdom Robot o que de mais importante e atual ele considera esteja circulando em termos de notícias. O blog reflete também o interesse de Jorn por computação, inteligência artificial e a ficção de James Joyce, música e cultura popular. Mas, em 13 de dezembro de 2001 ele anunciou no weblog a necessidade de parar com o trabalho de atualização em função de problemas financeiros.

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Figura 7 - Blog de Jorn Barger

Outro blog nesta linha é o do jornalista Jim Romanesko, que mantém o Obscure Store and Reading Room (www.obscurestore.com), um site em sentido oposto, que levanta na web artigos publicados na imprensa on-line sobre assuntos que Jim acha interessante trazer como link para seus webreaders. As notícias têm como característica o lado curioso, sinistro, muitas vezes histórias sobre o submundo de crimes, roubos e assassinatos.

Como na edição de 28/12/2001 ele se reportou a uma matéria que noticiava um recorde batido por um adepto do nudismo, que dirigiu nu por 15 mil milhas dentro dos Estados Unidos. A reportagem linka para o Des Moines Register, um jornal do estado de Iowa. Mas Obscure Store traz também links para as últimas notícias postadas por agências e, como não poderia deixar de faltar, para outros weblogs.

Romanesko também é autor do MediaNews (www.poynter.org/medianews), um site premiado como o melhor em 2000 na área de notícias, recebendo em São Francisco, Califórnia, o Webby Awards, considerado o Oscar da web. O MediaNews filtra informações sobre jornalismo e a mídia de um modo geral, transformando o site em referência para o assunto.

Mudando o perfil

Este tipo de blog de filtragem se apresenta também com características mais interativas com as notícias. Muitos blogueiros não se contentam apenas em garimpar links interessantes na rede, mas acoplam a eles suas próprias impressões, através de comentários. Acrescentam fatos que ilustrem a notícia ou pontos de vista que tragam novas luzes ao material.

Este é o caso do psiquiatra de Massachussets, Estados Unidos, Eliot Gelwan, editor do Follow me here (www.world.std.com/$\sim $emg/blogger.html), um blog postado pela primeira vez em novembro de 2000. O blog consiste em links recolhidos a partir de notícias veiculadas em sites na web, sugestões de livros, comentários sobre o que Gelwan considera interessante focar.

Seus interesses variam bastante, indo desde desenvolvimentos técnico e científico na área da saúde, notícias sobre arte e cultura e temas ligados à sua profissão, como depressão e loucura, por exemplo. Como não poderia faltar, Gelwan também mantém links para outros weblogs. Follow me here ficou famoso depois que foi citado como link por Jorn Barger, em seu Robot Wisdom, site que inspirou o próprio Gelwan a manter um próprio.

Com este perfil de filtro, só que mais específico para notícias consideradas quentes, ficou famoso o Metafilter (www.metafilter.com), uma blog colaborativo, fundado em julho de 1999, que atrai pessoas interessadas em contribuir com links e comentários. Ao usuário são apresentadas três caixas de diálogo: uma para acrescentar uma sugestão de site, outra para dar um título a esse site sugerido e a terceira para ser postado qualquer comentário sobre o link sugerido.

Outro exemplo é Michael Sippey, um editor pioneiro que vem mantendo na web desde 1995 o site Stating the Obvious (www.theobvious.com), filtrando informações sobre tecnologia, computadores e internet. A página linka artigos sobre esses temas, aos quais Sippey tece comentários, discute e acrescenta informações. Ele resume o trabalho como sendo "observações sobre tecnologia, com ponto de vista4.23.

Filtro temático

Outros blogs filtram informações temáticas, como é o caso de Dan Gillmor News, editado pelo jornalista Dan Gillmor, um dos mais importantes na cobertura do Vale do Silício, nos Estados Unidos. Ativo dentro do site Silicon Valley.com o blog postado no endereço (http://web.siliconvalley.com/content/sv/opinion/dgillmor/weblog/), traz links, comentários, notícias sobre ciência e tecnologia, entre outros assuntos capturados na internet para aqueles interessados nos temas.

O site do Silicon Valley, com características de portal de notícias, traz a coluna Good Morney Silicon Valley, assinada por John Paczkowski (www.siliconvalley.com/opinion/gmsv), de leitura quase obrigatória para quem é interessado em tecnologia.

Também nesta linha está o Tomalak's Realm (www.tomalak.org), editado por Lawrence Lee, outro blogueiro pioneiro, com links e informações sobre tecnologia, comércio na rede, propriedade intelectual, jornalismo on line, dentre outros ligados ao que ele chama de "desenho estratégico da web".

Outro blog interessante é o 802.11b Networking News (www. também sobre tecnologia, marketing na web e comércio eletrônico, mantido pelo desenhista gráfico e colunista Glenn Fleishman. O site é dedicado aos interessados no protocolo que dá nome ao blog, o 802.11b, uma tecnologia para utilização de redes sem fios. Segundo Glenn, o protocolo foi inicialmente usado para TCP/IP, mas também está ligado a compartilhamento de comunicação em rede, via modelos básicos de computadores PC e Apple Talk.

Jornais aderem aos blogs

A exemplo de cidadãos comuns que decidiram manter seus próprios filtros de notícia, embora em número reduzido, blogs também são usados por empresas jornalísticas com o objetivo de apresentar o que de melhor e de mais quente há em termo de informações para serem consumidas.

Este é o caso de jornais como o inglês The Guardian (www.guardian.co.uk/weblog), postado pela primeira vez em abril de 2000; o australiano The Melbourne Age (www.theage.com.au/weblog), que parou de ser atualizado em junho de 2001, o San Francisco Chronicle (www.sfbg.com/Slife/sfblog), que também deixou de circular em maio de 2001.

Aqui no Brasil temos o No. (www.no.com.br), que possui três weblogs: a coluna O que há, do jornalista Pedro Dória, a página de Economia editada por Flávia Velloso e J. Teixeira da Costa e o Notícias na rede, com links recolhidos por Leonardo Pimentel.

Blogs como diários íntimos

Em pouco tempo os diários virtuais no formato blog evoluíram de filtro de notícias para um conceito mais diretamente ligado aos tradicionais diários íntimos, antes trancados a sete chaves. De fato, muitos deles são utilizados como lugar exclusivo onde o blogueiro conta o dia-a-dia, faz confissões, desabafos, bem aos moldes do diarismo tradicional. Este uso também é facilitado pela estrutura de registro do blog, com datas que se sucedem.

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Figura 8 - Supervixen

Blogs com esta função de diário íntimo on line são facilmente encontrados na rede, como é o caso da página de Gabriela Trevisan, estudante de jornalismo, blogueira do Supervixen (http://www.gabisupervixen.cjb.net). No diário, ela faz revelações, fala de namorados, rock, do mundo à sua volta. O blog traz também links para outros blogs e sites de música.

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Figura 9 - Chatterbox

O dia-a-dia também é o principal no conteúdo do blog da jornalista brasileira Fernanda Guimarães, que mora desde 1992 na Califórnia, Estados Unidos. Através de seu blog Chatterbox (www.fezocaon-line.com/blurbs), Fernanda consegue atualizar os amigos e parentes sobre o que se passa em sua vida. O diário virtual é como se fosse um convencional. Lá, Fernanda fala sobre o dia-a-dia, exibe fotos, faz comentários e aproveita para falar também sobre o que se passa em outros blogs.

É com os blogs de brasileiros que circulam na rede que ela, por sua vez, se atualiza sobre o Brasil. "Com os blogs cheguei mais perto do dia-a-dia no Brasil. Ao lê-los, sei dos detalhes da rotina da minha gente, aprendo gírias, me atualizo sobre o que rola em shows, novelas4.25, revela.

Já o universo pessoal da estudante de publicidade Cintya F. é narrado no seu blog: Cindy F. (http://cindyfashion.blogspot.com), no ar desde junho de 2001. No diário virtual Cinthya fala do dia-a-dia, das preferenciais musicais, de poesia, paixão; das reflexões interiores:

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Figura 10 - Cind F

"Hoje acordei meio indecisa, entre continuar fazendo um curso universitário, que nem é obrigatório por lei, para exercer a profissão que tanto gosto (Publicidade e Propaganda) ou fazer um curso de design de Publicidade na Escola Panamericana de Artes''4.24, escreve Cintya na entrada registrada em 5 de novembro.

Mundo via Blogcam

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Figura 11 - Envyme

No mesmo perfil de blog como diário íntimo, confessional, é o Envyme She screams (http://bath-water.net/envyme/weblog.html), editado pela brasileira de prenome Carolina, que mora em Miami, nos Estados Unidos, desde garotinha. Carol, como todo mundo a chama, mantém este diário no formato blogcam, onde adiciona narrativa sobre o dia-a-dia, as relações familiares, as decepções amorosas de adolescente, a relação com o mundo blog, entre outros dados da vida cotidiana.

A prática de narrar a vida on line em blogs que usam webcams tem sido rotina para milhares de ciberdiaristas nos quatro cantos do mundo. Um único portal o Weblogs with Webcams (www.ringsurf.com/netring?ring=blogcams;action=info;b=) cataloga 89 membros ativos (12/12/2001) desde que passou a funcionar em setembro de 2000. Neste site estão agrupados não apenas blogs convencionais, mas páginas pessoais no formato de diários com o recurso da webcam.

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Figura 12 - Catarro Verde

As múltiplas faces dos blogs

Mas, outros tantos blogs vão além da proposta de serem meros diários virtuais.

Eles realizam uma mistura de página pessoal, fórum, com links, comentários e pensamentos pessoais, ensaios ou lugar onde se escreve de tudo ou sobre nada. O autor tem liberdade de escolha. O que vale é o simples fato de falar, de participar. ``As portas escancaradas de qualquer blog podem exibir desde críticas ácidas a determinados problemas sócio-políticos até baixarias (até então) impublicáveis. A liberdade internética inclui isso: cada um faz a sua opção do que ver''4.26, observa o jornalista Paulo Bicarato.

A efervescência do mundo blogger passa por uma multiplicidade de sites, com características tão variadas quanto permita a expressão humana. Faces de um comprometimento com um discurso político, como se manifestou o blog Catarro Verde, ao apontar um plágio no discurso de despedida da renúncia do senador Antônio Carlos Magalhães ao Senado. Segundo o blog, o discurso foi uma cópia do de Afonso Arinos de Melo Franco, em 1954, próximo à morte de Getúlio Vargas.

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Figura 13 - Marketing Hacker

De perfil escrachado, reflexo da personalidade do blogger paulista Sérgio Farias, seu editor, o Catarro Verde (http://catarro.blogspot.com) não perdoa derrapadas de políticos, artistas, e está antenado com o que acontece no cenário nacional. Ao estilo do colunista Macaco Simão, da Folha de S. Paulo, o editor Sérgio Farias não poupa apelidos, as tiradas inteligentes e sarcásticas. Intitulando-se primeiro site brasileiro hospedado no editor Blogger (www.blogger.com), o Catarro Verde mistura tudo isso a informação, poesia e comentários da vida pessoal, tornando-se um dos mais atraentes.

Visualmente bem cuidado, o blog Marketing Hacker, do blogueiro Hernani Dimantas, também dá sua contribuição, oferecendo um site bem variado, objetivando levar ao mercado informações com uma visão mais humanista. Traz informações sobre internet, mercado, tecnologias, marketing, entre outras.

Fórum de greve

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Figura 14- Jornalistas da Gazeta Mercantil

Utilizando bem esta fonte de liberdade de expressão, jornalistas da Gazeta Mercantil construíram um movimento de resistência durante a greve que deflagraram pelo pagamento de salários atrasados e de melhores condições de trabalho. O blog intitulado Jornalistas da Gazeta Mercantil (http://gazeta.blogspot.com), funcionou como local onde as informações sobre o movimento grevista iniciado em outubro de 2001 foram partilhadas.

O blog foi instrumento importante para o compartilhamento das informações. Grevistas, funcionários que continuaram trabalhando, jornalistas de outros veículos e até mesmo diretores da Gazeta acessavam o diário virtual. A linha editorial do blog se constituiu de informações sobre horários, informes e resultados das assembléias, orientações trabalhistas, arrecadação de fundos, tudo recheado com muito humor.

Essas informações foram acessadas por profissionais de sucursais, regionais e correspondentes internacionais que se mantiveram informados sobre os rumos do movimento. Ao final, o Tribunal Regional de São Paulo considerou a greve legal. O movimento foi considerado histórico. Durou 25 dias e mobilizou 250 funcionários. Embora a Justiça tenha dado ganho de causa, os funcionários continuam lutando para receber os direitos e o blog tem sido fórum ideal para as discussões e encaminhamentos das informações entre os empregados.

Jornalismo e informação

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Figura 15- Ponto media

Jornalismo e informação também são conteúdo do blog Ponto Media (www.ciberjornalismo.com/pontomedia.htm), editado pelo jornalista português Antônio Granado. Atualizado de segunda a sexta-feira, o site ativo desde janeiro de 2001 traz informações e curiosidades sobre jornalismo tradicional e on line, jornalistas e o mundo mídia (veja imagem acima). Fala também de tecnologia, desenvolvimento web e design, por exemplo, sendo muito útil a quem se interessa pela área.

Também nesta linha jornalística, mas com um tom pessoal, é o blog da jornalista brasileira Alessandra Proli, paulista de 26 anos (dezembro 2001). Intitulado Vida de Redatora (www.exquisite.com.br/redatora/index.php), o diário (veja imagem abaixo) foi postado pela primeira vez em janeiro de 2001 com a proposta de exibir informações sobre as atividades de jornalista de Alessandra, acompanhadas sobre narrativas do dia-a-dia.

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Figura 16 - Vida de redatora

Comunidades bloggers

A estrutura dos blogs permite que o usuário além de tecer sua própria performance, copie e cole links na sua página na internet. Isso tem favorecido a interligação dos blogs, cujos editores têm formado verdadeiras comunidades na web. No Brasil, os blogs foram aparecendo lentamente no início de 2000 e já no final daquele ano começavam a se formar as comunidades blogueiras que estão hoje ativas na rede.

Entre os primeiros divulgadores está o analista de sistemas de Brasília, Marcus Amorim, que criou em março de 2000, o blog (http://www.zamorim.eti.br) quando, segundo ele, ainda não existiam ciberdiários em português. O weblog traz comentários sobre temas variados como política, curiosidades científicas, informática e assuntos sem importância.

Logo foram surgindo outros blogs espalhados pelos quatro cantos do país, que se transformariam numa comunidade barulhenta, que agita a rede com entradas postadas a cada minuto e informações as mais variadas. Um verdadeiro burburinho se forma com as constantes idas e vindas de editores de blogs aos diários virtuais que circulam pela rede.

É comum quem tem um blog falar e/ou visitar o blog do outro, formando com isso verdadeiras vizinhanças dentro da rede. ``Quem acompanha o weblog de um invariavelmente acaba se deparando com comentários sobre o do outro. Alguns são pessoas que se conhecem há anos. Outros, gente nova que ao lançar o blog acaba se reunindo ao grupo'', observa o jornalista Pedro Dória4.27. ``As pessoas conversam entre os blogs, fazem links, citam o que um escreveu, o que o outro comentou. Vira uma pequena comunidade''4.28, confirma a blogueira e designer carioca, Lia Caldas (www.liacaldas.com/speed).

Não é difícil verificar a prática deste conceito de vizinhança. No mundo blogger de microportais, por onde circulam informações sem que seja necessário passar pelos grandes portais da rede, há muitos vizinhos famosos. A imprensa tem se incumbido de ressaltar o trabalho de muitos editores de blogs e eles acabam ficando mais conhecidos entre os vizinhos, que fazem questão de visitá-los.

Entre os mais citados estão blogueiros paulistas como a jornalista Flávia Durante (http://www.blahblahblog.rg3.net) - , o artista gráfico e webdesigner Mario AV (www.marioav.com), o designer Tom B (http://tom-b.com); Jean Boechat (www.boechat.com/tele), editor de Telescópica; Nando Pereira, autor de Wowblog do

Nando (www.euviprimeiro.com.br/nando); Zamorim (www.zamorim.eti.br); Cristiano Dias (www.crisdias.com/weblog) e Fernanda Guimarães (www.fezocaon-line/blurbs), brasileiros nos Estados Unidos, por exemplo.

Há também bloggers como Nemo Nox, autor do blog Por um Punhado de Pixels (http://www.nemonox.com/ppp), um brasileiro que agita de Nova York, onde vive, a comunidade blogger.

O diário virtual dele é bem cuidado graficamente. Webdesigner, Nemo Nox também é autor de três sites culturais, o fanzine Burburinho (www.burburinho.com), e as revistas digitais Esfera (http://nemonox.com/esfera) e Pijama Selvagem (http://nemonox.com/pijamaselvagem), que chamam a atenção pelo grafismo e o conteúdo informativo.

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Figura 17 - Por um punhado de pixels

O blog dele, Por um Punhado de Pixels foi, inclusive, cotado pelo blog TopBlogs (http://topblogs.vila.bol.com.br), - uma seleção dos cinco melhores postados no site feito por Cristina Aspesi - como o melhor blog (em setembro 2001). Os critérios foram "design, conteúdo, texto, impacto e extras4.29.

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Figura 18 - Delicias Cremosas

Blogs coletivos

Blogs coletivos também chamam a atenção, a exemplo do Delícias Cremosas (www.deliciascremosas.com), composto por 13 mulheres de Recife, Rio, Porto Alegre e São Paulo. Com uma linguagem solta e pra lá de pornográfica, as mulheres soltam a língua no diário, falando de temas que vão desde a poesia ao homossexualismo.

As entradas são picantes e cheias de bom humor. No Delícias destaca-se a gaúcha Cris Camargo (http://lavanderiadacris.hpgig.com.br), com entradas irreverentes que alimentam os leitores do blog, como este desejo de feliz natal aos leitores postado em 23 de dezembro:

Keridus leitores e leitoras, esta delícia cremosa que vos tecla, deseja que o Papai Noel erótico (aquele que não faz HoHoHo e sim ooooooh, ooooooh, oooooooohhhh) traga um saco de bucetas quentinhas para os hômi ( e pras muié que - nham! - sejam chegadas) e um contêiner de CARALHAS ciclópicas e insaciáveis para as muié (e para os homé que - ui! -não têm medo de serem felizes). FELIZ NATAL!!!!!!!!!!!!!

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Figura 19 - Absurdetz

Outro diário coletivo é o Telescópica (www.boechat.com/tele), escrito por Jean

Boechat, Ale Boechat e Leo Boechat. Há ainda o Absurdetz (www.mundissa.com/absurdetz), site criado para criticar os erros cometidos contra a língua portuguesa, encontrados em blogs e na web.

Norberto Takeyama, o Norbies, criador do Absurdetz também idealizou outro blog coletivo, o Eu Odeio - Onde os Chatos se Reúne (www.pixelburner.com.br/odeio), um lugar onde cada um dos nove blogueiros destilavam suas queixas sobre o que mais odeiam. O site esteve ativo até o mês de abril.

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Figura 20 - Eu odeio

Há outros como, Undertraxx (www.undertraxxx.hpg.ig.com.br); e o Baforentas Conectadas (www.baforentas.com), no ar desde abril de 2001, editado por seis homossexuais de goiânia, que falam da "cena gay tupiniquim".

Anéis reforçam vizinhança

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Figura 21 - Concatenum

Outro blog igualmente bem citado na mídia e no ranking do Topblogs é o Concatenum.com, do paulista Denis Dias, que tem como lema "tecnologia, internet e conversa fiada4.31. Além de se ater à proposta, Denis Dias é responsável por fazer o blog funcionar como um anel, reunindo de uma só vez mais de mil sites brasileiros.

O webloger possui um dispositivo chamado Controle Remoto que permite ao blogueiro ou qualquer visitante entrar e sair de até 80 blogs como se estivesse mudando de canal. Ele é também o primeiro site hospedeiro que pode ser acessado por computadores de mão da linha Palm.

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Figura 22 - Arredores

No Brasil, o anel de site Arredores (http://ring.cabaretvoltaire.com/arredores), criado pelos blogueiros Caio Costa e Jean Boechat, sedia 911 blogs (30/12/2001), reforça o sentimento de comunidade. "Estar linkado ao Arredores fortalece a sensação de vizinhança'', diz Caio Costa.4.30

Nos Estados Unidos, há, como vimos, anéis de site como o Eatonweb Portal, Weblogs (www.weblogs.com) e o Metafilter (www.metafilter.com), entre centenas de outros espalhados pelos cinco continentes, que formam também verdadeiras comunidades. O site Bird on Wire (http://students.washington.edu/lwinn/bird/ map/map_results.html) dá uma idéia de como os blogs se espalharam na rede. Mantido por um editor identificado no endereço de e-mail por lwinn, o weblog oferece condições para que os blogueiros contribuam postando informações sobre seus sites para formar um futuro mapa mais completo sobre a geografia do fenômeno blog.

Embora a proposta seja interessante, verifica-se que ela apenas aponta, de forma incompleta, uma tendência da presença de blogs nos 22 países registrados em pontos bem distantes, como Canadá, China, França, Nova Zelândia, Estados Unidos e Brasil, por exemplo.

Nas informações referentes ao Brasil, existem apenas três sites registrados no mapa: todos do brasiliense Marcos Zamorim, um dos blogueiros pioneiros no Brasil: Zamorim (www.zamorim.eti.br), Zé Povão (www.zamorim.eti.br/zepovao) e Alta Rotação (www.zamorim.eti.br/patina), quando se sabe que há milhares de blogs nativos espalhados pela rede. Só o site Concatenum (www.concatenum.com) possui 1001 blogs agregados (dezembro 2001).

O espraiamento e a diversidade de interesses da comunidade blogger pelos quatro cantos do mundo podem ser medidos por outros anéis de site. O Pitas Webring (http://nav.webring.com/hub? ring=pitas&list), fundado em abril de 2000, possui 46 sites (dezembro 2001); o australiano Aussie Blogs (http://j.webring.com/ hub?ring=assieblogs&list), fundado em março de 2000, possui 165 sites (dezembro 2001); Blogs By Women (http://bonni.net/blogsbywomen), com 478 sites, foi fundado em junho de 2000 reunindo weblogs de mulheres; Blogsters (http://c.webring.com/hub?ring=digitalblog&list), postado pela primeira vez em maio de 2000, possui 164 sites agregados (dezembro 2001); CollegeBlog Webring (http://x.webring.com/hub?ring=collegeblog&list), é um anel de site mantido por estudantes universitários. Fundado em abril de 2000, possui 104 sites (dezembro 2001).

Há ainda o neozelandês Kiwi Blogs (www.kbailey.net/kiwiblog.html), formado por blogueiros neozelandeses nativos e os que vivem foram do país; e o Webloggers (www.jishnu/webloggers), criado em fevereiro de 2000, é anel que aceita qualquer blog; The Subterraneans (www.onfa.net/subterraneans) um anel de site coletivo que reúne weblogs de oito crianças, alunos de uma escola de Toronto, Canadá; Xaea.com (www.xaea.com), um anel de web surfers e desenvolvedores da rede; Gblogs (www.gblogs.threadnaught.net), um anel de blogs inglês, criado em 2000, possui 386 weblogs (dezembro 2001).

Como não poderia deixar de faltar, há portais para blogcams, como o Blogcams, the Ring (http://metzeger.ws/blogcams), reunindo 84 membros (dezembro 2001) e o Weblogs with Webcams, postado pela primeira vez em setembro de 2000 e que reúne 89 membros ativos em dezembro de 2001. No Brasil, além dos já citados Concatenum, ativo desde outubro de 2000 e o portal Arredores (http://ring.cabaretvoltaire.com/arredores), sediando 911 sites (30/12/2001); há outros como o Exquisite (www.exquisite.com), que sedia 12 blogs.

Mundo sem Aids

A força desta agregação blogueira foi usada pelo americano Brad Graham4.32 para o sucesso de sua proposta: transformar o dia 1º de Dezembro, dedicado internacionalmente à luta contra a Aids, no dia sem weblogs (A Day With (out) Weblogs4.33).

Lançada a partir de seu weblog Bradlands (www.bradlands. com), em 1999 foram apenas 50 adesões. Em 2000, perto de 700 e em 2001, mais de 800 blogueiros de várias partes do mundo, inclusive do Brasil, aderiram à campanha, usando a página principal do weblog para postar bottons, imagens da campanha e links que falem sobre o HIV/AIDS; links de notícias sobre pesquisas, descobertas e tratamentos ou outros temas relacionados à doença.

A idéia foi chamar a atenção para a Aids, uma doença ainda sem cura. A campanha de Brad Graham incluía não apenas blogueiros, mas também diaristas e outros donos de páginas pessoais na rede. "Focar sobre a Aids por um dia - O Dia Mundial da Aids - e ajudar a espalhar informações sobre a doença e seu tratamento, aqueles que nós perdemos e aqueles que sobrevivem. Por que a Aids ainda não acabou e porque você faz a diferença4.34, apela Graham na página da campanha (www.linkandthink.org).

Toda essa movimentação da comunidade blogger no mundo já pode ser medida desde o mês de agosto de 2001, com a criação de uma ferramenta, o buscador Blogdex, desenvolvido pelo Laboratório de Mídia do Instituto de Tecnologia de Massachussets (MIT). O Blogdex rastreia as visitas que são feitas aos sites e lista os links que são postados nos blogs. Com isso, é possível conhecer as páginas mais populares e quais são os links mais usados, formando com isso uma idéia de quais assuntos despertam o interesse das pessoas que circulam nessas comunidades.

Segundo Cameron Marlow, que desenvolveu a ferramenta, "a idéia é interpretar o estado das comunidades de usuários de weblogs em tempo real4.35, revela. O brasileiro Cristiano Dias já está fazendo uso dessa ferramenta em seu blog Cris Dias (www.crisdi as.com/weblog).

Morando em Nova York, esse analista de sistemas resolveu criar o Cris Dias, um blog onde ele fala de si mesmo e comenta sobre o que se passa à sua volta: o clima e a cultura novaiorquinas, cinema, literatura, o que acontece pela web de interessante, além do que lê nos blogs que costuma visitar.

O diário tradicional X o diário contemporâneo: Processos de continuidades e rupturas

A Cena Virtual

A ilusão consiste em crer que haveria "conhecimentos" ou "informações" estáveis que poderiam mudar de suporte, ser representadas de outra forma ou simplesmente viajar guardando ao mesmo tempo sua identidade. Ilusão porque aquilo sobre o que versam as teorias do conhecimento: saberes, informações e significações são precisamente efeitos de suportes, conexões, proximidades, interfaces (Pierre Lévy).

Antes de delimitarmos os processos de continuidades e rupturas que sofre o diarismo na passagem do modelo tradicional para o formato on-line, é preciso, em primeiro lugar, retratarmos o cenário em que o diário digital está inserido.

A cena em que o diário on-line aparece se desenvolve a partir de meados da década de 1990 quando a internet começa a ganhar massa crítica. Compreendida como "um grande oceano do novo planeta informacional, alimentado por muitos rios" (Lévy: 1999, p. 126), a internet confirmaria, no final do século XX, a expectativa de que poderá cumprir o destino previsto por Tim Berners Lee, seu criador: "ser uma mídia participativa onde todos pudessem ler e publicar documentos5.2.

É certo que o exercício dessa democracia participativa ainda não pode ser festejada pelos que defendem o acesso maciço de cidadãos de todo o mundo à rede mundial de computadores. Mas, o seu crescimento de forma exponencial já anima, indicando que mais cidadãos estão tendo acesso à grande rede.

Assim como os correios cumpriram bem a tarefa de intermediar a correspondência entre os indivíduos, a rede telefônica e o computador pessoal teriam alcançado o seu fim verdadeiro: possibilitar a existência da WWW (World Wide Web), observa Pierre Lévy. A internet, como rede digital, consolidar-se-ia como espaço de "prática de comunicação interativa, recíproca, comunitária e intercomunitária, horizonte de mundo virtual, vivo, heterogêneo e intotalizável, no qual cada ser humano pode participar e contribuir" (Lévy: op. cit., p. 126).

Desde seus primórdios que a regra da partilha tem sido tomada como verdade por quem se utiliza da internet. O entrelaçamento de computadores situados em pontos geograficamente distantes permitiu a troca de informações, a partir da utilização das redes telemáticas (junção das telecomunicações com a informática), entre as quais a internet é uma das mais pulsantes.

Programas de computação como o IRC, MUD, MOO, CHATs foram criados, possibilitando conexões em tempo real na rede, produzindo novas formas de sociabilidade num novo ambiente de convivências denominado de ciberespaço. William Gibson definiu em Neuromancer o ciberespaço como um "espaço de alucinação consensual",5.1. Este, é palco de uma revolução que, segundo Marcos Palacios, "estaria subvertendo a percepção da tecnologia como algo apartado da vida e do cotidiano5.3.

Na modernidade, esta crítica, caracterizada como a Dialética do Iluminismo, foi colocada por membros da Escola de Frankfurt, especialmente Adorno e Horkheimer. Através dela, os filósofos discutem os efeitos perversos da idéia de progresso sustentado na técnica, que teria um preço elevado demais para ser arcado pelas massas oriundas do proletariado industrial. A razão (técnica) em vez de conduzir à emancipação - com mais conforto, saúde e progresso para os indivíduos -, tornou-se instrumento de dominação e, a partir da hecatombe de Hiroshima e Nagasaki, transformou-se em ameaça real à destruição total, pondo em risco a própria sobrevivência da humanidade.

Simbiose homem-máquina

A revolução a que Palacios se refere teria se instaurado com a simbiose entre o homem e a máquina. O motor desta simbiose se deu quando, na contemporaneidade, as redes telemáticas passaram a estruturar a cultura e as relações sociais. Gradativamente os processos comunicativos foram sendo afetados e reconfigurados, criando condições para a emergência de novas formas de sociabilidade.

Novas teias de relações são construídas a partir de trocas simbólicas entre seus participantes e aos poucos elas foram sendo reconhecidas como parte de uma nova realidade, a realidade virtual. Esse espaço formado pelas redes e serviços telemáticos delineou assim um ambiente de convivência que permite a troca complexa de sinergias, competências e saberes entre os indivíduos que formam este coletivo. Em contraposição ao modelo em árvore, linear, dos media tradicionais (jornal, rádio, tv) o modelo em rede estrutura o ciberespaço na forma circular do rizoma (Deleuze-Guatari).

André Lemos observa ser 'obvia" a semelhança entre as estruturas rizomáticas e o ciberespaço. "Ambos são descentralizados, conectando pontos ordinários, criando territorialização e desterritorialização sucessivas. O ciberespaço não tem um controle centralizado, multiplicando-se de forma anárquica e extensa, desordenadamente a partir de conexões múltiplas e diferenciadas5.5.

O ciberespaço inaugura, assim, um modelo de comunicação em rede, aberto, indeterminado pela imprevisibilidade do agir de seus atores no relacionar-se em tempo real com as diversas faces das interfaces e com os nós de hipertexto. Segundo a pesquisadora portuguesa Lídia Oliveira, professora da Universidade de Aveiro, este é um espaço marcado pelo hibridismo enquanto linguagem "porque acolhe simultaneamente escrita, imagem, som, vídeo, unidos pela estrutura do laço (link) e da interatividade que faz com que se designe como hipermídia". Ela constata:

É neste ambiente comunicacional em que as fronteiras se diluem que se desenha uma nova geografia que deixa de ter como elementos estruturantes o espaço e o tempo e passa a ter como estrutura os nós de conhecimento e de aglutinação motivacional como ímanes de atração dos habitantes deste novo espaço, o ciberespaço. Uma das particularidades dos sujeitos que utilizam o ciberespaço enquanto espaço de vivência é o nomadismo (Makinomoto, 1997), na medida em que a ausência de atrito espaço-temporal convida à mobilidade, mobilidade essa que é dirigida pelas necessidades de informação, de saber e de pertença. Geram-se deste modo novos mapas cognitivos e novos laços sociais5.4.

A própria Lídia indaga: "o que é que procuram os novos nômades?". Tomando as constatações de Cláudio Cardoso, ela responde: 'E certo que procuram informação, mas procuram também a relação, a afirmação e a pertença a grupos" (apud Cardoso 1997;1998).

O partilhar, o dividir as experiências, segundo Lídia Oliveira, é outro objetivo de quem participa do processo da comunicação em tempo real na cultura tecnológica. 'E a partilha de informação e de conhecimento que hoje constitui qualquer comunidade - seja ela social ou política, cultural ou científica - determinando não só a sua forma como os seus objetivos" (Apud Carrilho e Caraça, 1995:84). Uma comunidade virtual é construída, segundo Lévy, "sobre as afinidades de interesses, de conhecimentos, sobre projetos mútuos, em processo de cooperação ou de troca, tudo isso independentemente das proximidades e das filiações institucionais" (Lévy: 1999, p. 127).

Estruturada em rede, a comunicação contemporânea vai se refletir, portanto, na forma de os indivíduos se relacionarem. No paradigma anterior da modernidade, o modelo de conhecimento seria o da representação, onde "a idéia de verdade corresponderia a uma imagem exterior que se procura formar como verdadeira"; na contemporaneidade, o modelo é o da simulação, "comprometido com as idéias de eficácia e de realidade como o que se cria e se modifica no processo de comunicação", observa a pesquisadora Aline Veríssimo Monteiro.

Neste último modelo, "a comunicação seria uma atividade técnica de criação - inclusive de sujeitos e de verdades", lembra Aline. Ela diz, ainda, que o foco da atividade de conhecer da modernidade está no sujeito, enquanto que na contemporaneidade está no exercício dos meios de comunicação, que se utiliza dos processos de criação e de simulação para o ato de comunicar.

Neste sentido, Lídia Oliveira chama a atenção para o fato de que, embora a chamada "Sociedade de Informação" tenha compreensivelmente colocado ênfase na informação, esta deve ser vista como "um instrumento ou componente para a realização da sociabilização", indicando que "o ser humano tem tanta necessidade de informação quanto de sociabilidade5.6.

A comunicação estruturada em rede produz um tipo de sociabilidade específica, com características que a diferem do modelo anterior existente na modernidade, embora o modelo atual não anule ou substitua o anterior. O agenciamento sócio-técnico, com um imbrincamento homem-máquina nunca antes visto, levou ao estabelecimento de contatos sociais estruturados pelos meios técnicos (o computador ligado em rede), que se diferenciam do modelo anterior.

O indivíduo marcava uma distância em relação ao objeto. Agora, nas "coletividades pensantes homens-coisas" da era da informática articulam-se indivíduos, instituições sociais e técnicas de comunicação. O individualismo da modernidade deu lugar a coletivos inteligentes, comunidades virtuais, que, pela identidade, aproximação de interesses, vêm produzindo uma efervescência na rede. A interconexão, tida por Lévy como o motor que impulsiona desde o início o ciberespaço, torna-se o elemento que fomenta a vida on-line:

Passamos das noções de canal e de rede a uma sensação de espaço envolvente (...)Para além de uma física da comunicação, a interconexão constitui a humanidade em um contínuo sem fronteiras, cava um meio informacional oceânico, mergulha os seres e as coisas num mesmo banho de comunicação interativa. A interconexão tece um universal por contato.

Essas interconexões crescem com a efervescência das comunidades virtuais que atuam no ciberespaço. Reunidas em torno de interesses comuns, pela necessidade de partilhar saberes, de atuar cooperativamente na rede. Por este espírito de unidade que reúne diversidades, Lévy diz que as comunidades virtuais se organizam em coletivos inteligentes. Quanto mais vibrantes, atuantes, efervescentes, as comunidades virtuais gerarão mais interconexões na rede.

O novíssimo diário

A editora do Search Engine Watch, Chris Sherman, não poderia ter utilizado melhor metáfora para definir as duas fases que marcam até agora o fenômeno do diarismo on-line. As duas ondas da web escriturável apontam para pelo menos duas características ligadas à própria natureza deste fenômeno: o movimento e a capacidade de, com sua textura fluida, ir construindo ou desconstruindo desenhos nas areias dessa praia chamada ciberespaço.

O diário on-line contemporâneo, ou como podemos já o denominamos, o novíssimo diário, trouxe de volta a web a seus primórdios, ao tempo da escrita, no qual, por deficiências tecnológicas, o texto era prioridade em qualquer site. Como lembra o designer e blogger brasileiro, Nemo Nox:

Numa sociedade dominada pelos meios audiovisuais, voltávamos subitamente ao domínio do texto. Depois, com a aproximação da mítica banda larga, a web começou a ser invadida pelo visual e fomos inundados por sites bonitos, porém, desprovidos de conteúdo. Para muitos que não tinham o que dizer, numa paráfrase de mau gosto a McLuhan, o design passou a ser a própria mensagem, a única mensagem5.7.

O mérito deste retorno está no fato de que a rede mundial de computadores, como apontou Sherman, tende para o que vislumbrara Tim Berners Lee, seu criador. Ser um recurso, "uma mídia participatória onde todos pudessem ler e publicar documentos5.9. "(...) poucos imaginavam que poderia haver tanta verborragia espalhada pelo mundo, e legiões de escribas se lançaram à web mal os obstáculos para a publicação foram contornados5.10, observa Nemo Nox.

Os "obstáculos" a que o blogueiro Nemo Nox se refere, são as interfaces que, simplificadas, mudaram radicalmente a face da rede. Quando em janeiro de 1994 Justin Hall postou pela primeira vez seu diário on-line na web, antes teve que aprender códigos de linguagem html5.8 (hipertext, markup language) e entender de protocolos ftp (file transfer protocol) para poder vê-la no ar.

Com o surgimento de centenas de ferramentas de edição, como o Blogger (www.blogger.com), da empresa Pyra Labs, ou o Manila (www.weblogger.com), da empresa UserLand (www.userland.com), as facilidades de postagem de diários virtuais na internet aumentaram consideravelmente. Não há mais necessidade de ser especialista em construção de páginas para editar e postar conteúdo pessoal num dos milhares de blogs que circulam na rede mundial de computadores. O processo é simples e rápido e pode ser feito de qualquer computador ligado à internet, o que antes, com o uso de editores na linguagem html, isso não era possível. O filosófo francês Pierre Lévy lembra que:

No momento em que a maioria dos usuários definitivamente não é mais informata profissional, quando os problemas sutis da comunicação e da significação suplantam os da administração pesada e do cálculo bruto que foram os da primeira informática, a interface torna-se o produto nodal do agenciamento sociotécnico (LÉVY: 1998, p. 177).

Lévy diz que o objeto técnico, com suas redes de interfaces, vem se espraiando desde sempre no universo social provocando mudanças e, muitas vezes, sem que sejam necessárias grandes inovações. `As vezes bastam pequenas reformas nas sociedades das coisas para gerar grandes efeitos na ecologia social. Gutenberg passou anos regulando problemas na prensa, na tinta, na liga de chumbo e estanho...", observa (id. Ibidem, p. 181).

Da mesma forma, podemos dizer que os desenvolvedores de softwares do Vale do Silício passaram alguns anos regulando a "prensa" do browser que permitiria a facilidade de acesso à edição e postagem de diários virtuais na rede.

Antes disso, revoluções já tinham atingido o mundo da informática, a partir da década de 1940, afetando diretamente a relação do homem com a máquina. Entre 1940 e 1960 a Revolução da Tecnologia da Informação foi impulsionada pelo chamado "complexo acadêmico-industrial-militar". Neste período, o governo americano investiu, através das agências do Departamento de Defesa, somas consideráveis para o desenvolvimento do computador e sua aplicação no sistema de defesa e no comando e controle de guerras.

A segunda revolução, que Castells chama de a "revolução dentro da revolução5.11, ocorre a partir de 1970. O microprocessador foi inventado em 1971, no Vale do Silício, Califórnia, por um engenheiro da Intel, o que levou à criação do microcomputador, o Apple, por Steve Wozniack e Steve Jobs, em 1976.

No final da década de 1970, um conjunto de interfaces que originou o Desktop Publishing (DPT) afetou a estrutura da editoração eletrônica, possibilitando maior automação de indivíduos, organizações e empresas no processo de produção gráfica. "Ao abrir novos espaços para a publicação descentralizada, o DPT impôs pouco a pouco toda uma reorganização dos circuitos de comunicação das empresas, das pequenas edições e do jornalismo", lembra Lévy (op. cit. p. 178). A partir da década de 1980, o mouse permite manipular ícones e janelas, aprofundando ainda mais a relação homem-máquina.

A noção de interface, segundo Lévy, pode ser usada para analisar todas as tecnologias intelectuais. Na relação homem/máquina ele a define como "o conjunto de programas e aparelhos materiais que permitem a comunicação entre um sistema informático e seus usuários humanos" (p. 176). Neste caso, a interface tem como função facilitar a comunicação entre o indivíduo e a máquina, propondo-se enquanto dispositivo, a simplificar o alcance dos objetivos que se procura estabelecer.

Simplificada da primeira para a segunda onda, a interface para edição e postagem de diários virtuais estendeu, como vimos, o alcance da "web escriturável". Permitiu que literalmente milhares de usuários a utilizassem para postar na rede uma espécie de ato performático individual nos diários on-line, que contêm desde informação de caráter pessoal, íntimo, passando por expressões literária, política e narrativas individuais de toda ordem.

Lévy diz que a interface é o dispositivo que opera as duas dimensões do devir: "o movimento e a metamorfose". Para ele, o computador não comporta uma visão estática ou logicizante porque a interface é o elemento que vai encarnar a mudança:

Basta que seja conectada uma nova interface (a tela catódica, o mouse, uma nova linguagem de programação, uma redução de tamanho) à rede de interfaces que constitui o computador no instante t, e no instante t + 1 se terá obtido um outro coletivo, uma outra sociedade de microdispositivos, que entrará em novos arranjos sociotécnicos, mediatizará outras relações, etc. (Lévy, op. cit., p. 177)

Esta imagem traduz bem a outra imagem trazida por Chris Sherman sobre as "duas ondas da web escriturável". Agenciando a interface a comunicação de um conteúdo cada vez mais pessoal na rede, possibilita-se aquilo que Lévy diz passar através da interface: "outras interfaces". Chega-se aqui neste caso específico, aos diários on-line, cheios de conteúdo pessoal, de subjetividade individual, carregados de uma de suas principais características: a presença de links. Links estes atualizados a cada segundo, que conduzem a nós de um imenso hipertexto, metamorfoseante na velocidade dos bits, sem que seja possível definir seus contornos e seus limites.

Neste cenário do ciberespaço o ator, peça principal de um coletivo pensante, inteligente, desempenha um papel fundamental. Segundo Lévy, ao ser orientado pela natureza da interface, o ator "abre, fecha e orienta os domínios da significação, de utilizações possíveis de uma mídia". É ele quem tem em vista "outros atores e outras interfaces a captar, deslocar, envolver, desviar e deformar, conectar e metabolizar" (op. cit., p. 182). No caso dos diários on-line, é quem agencia, no meio metamorfoseante do ciberespaço, a cada onda, o renovar dos desenhos na areia.

Processos de Continuidades e Rupturas

Em nossa análise dos processos de continuidades e rupturas do diário de suporte papel para o suporte computador, tomaremos como objeto de análise um dos mais conhecidos diários de guerra: O Diário de Anne Frank, escrito entre 12 de junho de 1942 e 1º de agosto de 1944, por Anne Frank, uma adolescente de 13 anos. Do ponto de vista da garota, ele retrata a vida no Anexo Secreto, o esconderijo em que estiveram por dois anos Anne e a família fugindo da Gestapo.

Para uma análise mais completa, buscaremos como contraponto ao presente estudo, os diários de guerra on-line. Usaremos como foco de análise dois casos: Um deles é o diário de Ivanka Besevic, uma jornalista de 74 anos, de Belgrado, Yugoslávia. Através do site Sisters under Siege (www.keepfaith.com), ela dá o testemunho diário sobre a Guerra do Kosovo, ocorrida entre março e junho de 1999. Morando na capital iugoslava, Ivanka transmite ao mundo a experiência de viver sob o cerco das bombas lançadas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), graças a um site produzido nos Estados Unidos pela filha. Ivanka transmite ao mundo os dias vividos sob o cerco das bombas lançadas sobre Belgrado e todo o reflexo emocional e material da experiência.

A dor de Ivanka, dos familiares e amigos durante a experiência da guerra pôde atravessar fronteiras e gerar indignações de toda a ordem. No site Sisters under Siege aparecem fotos de Ivanka, do cachorro da família e, à esquerda, um calendário que cresce a partir de um marco zero, que coincide com o início da guerra. De forma crescente, a diarista narra os 77 dias em que viveu sob o cerco de bombas, tiros, execuções e atrocidades de toda ordem.

O segundo site analisado é o do também iugoslavo, o cineasta que se apresenta com as iniciais A. G. Utilizando o site War Diaries (www.webcinema.org/war-diaries) ele relata, através de um diário escrito e outro filmado, o testemunho do desenrolar da guerra que assiste. Através do site War diaries5.12 A.G. documentou diariamente o sofrimento que vivia ao assistir a cidade sendo bombardeada e praticamente a vida toda mudar por causa da guerra que durou entre março e junho de 1999.

Um aspecto especial que ressaltamos nestes dois diários on-line é o fato de tanto Sisters under Siege quanto War Diaries terem saído do ar, ou seja, foram desativados da rede, sem inclusive, que os motivos e o tempo desta decisão fossem disponibilizados. Apesar deste detalhe, decidimos mantê-los como referenciais de nossa análise, porque consideramos ser este desaparecimento parte da natureza instável e fractal dos elementos da cibercultura.

O impacto da articulação sócio-técnica

As formas de comunicação e interação possibilitadas pelas novas tecnologias inserem-se no seio da cultura letrada e a modificam. Em As Tecnologias da Inteligência - O Futuro do Pensamento na Era da Informática, Lévy chama a atenção para as mudanças técnicas que em períodos sucessivos alteraram a configuração do imaginário, de saberes e especialmente da forma de partilha dos grupos. Ele faz um paralelo entre as culturas oral, impressa e de base informática, observando que estas últimas modificaram a face das relações sociais dentro da cultura contemporânea, mas continuou a incorporar as formas desenvolvidas em períodos anteriores.

Entre essas formas, as quais ele chama de pólo, os recursos dos períodos sócio-técnicos da oralidade e da escrita são utilizados pelos indivíduos para desenvolver as habilidades que hoje os fazem se presentificar na rede: ``As representações e as maneiras de ser da oralidade continuam a transmitir-se, independentemente dos circuitos da escrita e dos meios de comunicação eletrônicos" id, ibid. p. 84) diz Lévy. Na oralidade, é a memória o elemento que sustenta toda a cultura, baseando a relação espaço-tempo deste tipo de sociedade. O tempo tem a forma de círculo.

Lévy chama a atenção para o fato de que a maior parte dos conhecimentos de que nos servimos no cotidiano, "nos foram transmitidos oralmente, e a maior parte sob a forma de narrativa (histórias de pessoas, de famílias ou empresas). Dominamos a maior parte de nossas habilidades observando, imitando, fazendo e não estudando teorias na escola ou princípio nos livros" (id, ibid.).

O segundo pólo, o da impressão, impactou fortemente a sociedade, a partir do século XV, com a invenção da imprensa no ocidente por Gutenberg, Esta tecnologia teve grande repercussões nas formas de organização e representação social, promovendo a efervescência no campo cultural e estabelecendo, segundo Lévy, "o tempo da história".

A impressão afetou diretamente a forma dos registros, gerando impactos diretos na cultura oral baseada na memória limitada: "sem escrita não há datas nem arquivos, não há lista de observações, tabelas de números, não há códigos legislativos, nem sistemas filosóficos e muito menos crítica destes sistemas. Estaríamos no eterno retorno e na deriva insensível da cultura oral..." (id., ibid., p. 96) .

Embora revolucionária, a tecnologia da impressão não modificou imediatamente as práticas sociais, como a escrita e a leitura. "Os primeiros impressores começaram a produzir livros que inicialmente pareciam cópias manuscritas, porém logo foram adquirindo seu próprio formato e sua aparência, tornaram-se mais uniformes e o mercados de livros se expandiu rapidamente" (Thompson: 1998, p. 56). Já a leitura permanecia sendo uma prática eminentemente oral e pública:

Índices de instrução eram relativamente baixos entre alguns setores da população urbana, como mulheres, crianças e a classe operária não especializada, e entre os camponeses, que constituíam a maioria da população nos inícios da Europa moderna. Daí não se conclui que indivíduos destes grupos fossem totalmente refratários ao mundo dos impressos. (...) é provável que em algumas ocasiões, por um motivo ou por outro, alguns livros fossem lidos em voz alta para pessoas reunidas em determinados lugares. Tais ocasiões podem ter incluído reuniões rotineiras de família e de amigos, festas e festivais especiais, como também encontros de grupos de afinidade especial, como assembléias protestantes secretas que se reuniam para ler e discutir a Bíblia (Thompson, Po cit., p. 60).

O terceiro pólo, de base informática, promove uma revolução nunca antes vista, comprimindo a relação espaço-tempo e modificando a face social e cultural da sociedade contemporânea. O tempo pontual das redes vai alterar a forma como se dão as interações no espaço virtual, reduzindo distâncias e aproximando no tempo e no espaço os indivíduos. A interatividade entre o homem e a máquina vai afetar diretamente as interconexões em tempo real e as relações entre os indivíduos.

Neste novo ambiente de convivências que é criado no espaço entre redes ligadas por todo o mundo, novas formas de socialidade vão surgir, novas formas de expressão individual vão aparecer, dando lugar neste emaranhado, a um veículo secular de expressão: o diário virtual ou ciberdiário. Este gênero discursivo, que atravessou séculos mudando de natureza, de pública a privada, de privada a pública, reconhece-se na contemporaneidade dentro desta nova articulação sócio-técnica estampada pelas redes telemáticas.

Nesta abordagem que visa mapear os processos de continuidades e rupturas do gênero diário, na passagem do universo técnico manuscrito/impresso para o on-line, vamos defender com Lévy, que

A ilusão consiste em crer que haveria "conhecimentos" ou "informações" estáveis que poderiam mudar de suporte, ser representadas de outra forma ou simplesmente viajar guardando ao mesmo tempo sua identidade. Ilusão porque aquilo sobre o que versam as teorias do conhecimento: saberes, informações e significações são precisamente efeitos de suportes, conexões, proximidades, interfaces (Pierre Lévy: 1998, p. 184).

Em nosso entender, o suporte de base digital e em rede do diário on-line mudou a sua identidade, porque acrescentou-lhes outros tipos de interfaces. A entrada do computador ligado em rede permitiu o surgimento da internet, cujo uso foi potencializado pelos desenvolvimentos de elementos de interface, como softwares, programas de computador que permitiram a explosão da socialidade em rede.

O ciberdiário como produto cultural de uma nova sociedade estruturada por um modelo de comunicação baseada na informação, também faz a sua passagem para este novo universo, amplificando algumas características do modelo de base analógica, que é o diário impresso. Ele incorpora novos elementos como o tempo real, a velocidade na publicização, as conexões velozes em rede dos nós de hipertextos, com ligações imediatas; a memória ilimitada. Este diário digital incorpora, também, outra natureza do meio técnico em que está imerso: deixa de ser privado, para tornar-se público. O tornar-se público neste caso, além de ser inerente à estrutura da rede (pública), é móvel para a socialidade dos tempos da contemporaneidade.

O ``caldo cultural'' dos diários impressos

O diário impresso, por sua vez, imerso no "caldo cultural" da modernidade, baseado, na linearidade do "tempo histórico" e da cultura de massa, incorpora um tipo de processo produtivo bem diferente do universo virtual da contemporaneidade. A privacidade em que Anne Frank concebeu seus diários esteve dentro do modelo de sociabilidade construída com a Revolução Industrial, que trouxe a urbanização e novas formas de os indivíduos expressarem a sua subjetividade.

O conceito deste eu privado, subjetivo, confessional, para o que o diário exerceu sua função, foi amplificado pelo romantismo cultural e pelas idéias freudianas. Mas, esteve expresso não só pela prática do diarismo, mas até mesmo na forma com que as residências eram planejadas. "Um triplo desejo de intimidade familiar, conjugal e pessoal atravessa o conjunto da sociedade e afirma-se particularmente com particular insistência no início do século XX", observa a historiadora francesa, Michele Perrot5.13.

Perrot e autores como Myron C. Tuman revelam que esta privacidade também era expressa até mesmo na planta da casa, nos espaços deixados à intimidade: "o arranjo físico das casas urbanas cria um santuário privado e íntimo, que faz um paralelo com o refúgio íntimo propiciado pela leitura de romances ou pela escrita de diários5.14

Rupturas

a) Publicação x publicização

Imersa neste ambiente cultural e social Anne Frank escreveu o diário no calor da privacidade de seu ambiente íntimo. Os textos foram escritos à mão por ela e só foram encontrados três dias depois da última anotação a 1º de agosto de 1944, quando o Anexo Secreto, o esconderijo da família em Amsterdã, foi invadido pelas forças da Gestapo. Depois da guerra, quando ficou claro que Anne estava morta, os diários foram entregues ao pai de Anne, Otto Frank, por Miep Gies, amiga da família.

Vemos, portanto, que os diários de Anne foram inicialmente produzidos na privacidade de sua intimidade, mas com uma intenção primária de serem publicados. Os diários foram escritos à mão e só foram publicados em 1947, anos após a morte de Anne. Já aí temos um diferencial fundamental em relação aos diários on-line. O pai de Anne, Otto Frank, investiu tempo e recursos para transformar o texto numa versão definitiva que não expusesse, inclusive, as constantes brigas que Anne tinha em casa com a mãe.

No prefácio à última edição em português da obra, o editor descreve o processo de escrita e impressão do diário:

Anne Frank a princípio escreveu estritamente para si mesma. Até que num dia de 1944, Gerrit Bolkstein, membro do governo holandês no exílio, anunciou numa transmissão radiofônica que depois da guerra esperava recolher testemunhos oculares do sofrimento do povo holandês sob a ocupação alemã, e que pudessem ser postos à disposição do público. Como exemplo, mencionou especificamente cartas e diários. Impressionada com aquele discurso, Anne Frank decidiu que, quando a guerra terminasse, publicaria um livro baseado em seu diário. Então começou a reescrever e organizar o diário, melhorando o texto, omitindo passagens que não achava suficientemente interessantes e acrescentando outras de memória. Ao mesmo tempo continuava escrevendo seu diário original. Em The Diary of Anne Frank: The Critical Edition (1989). Depois de longa deliberação, Otto Frank decidiu realizar a vontade da filha e publicar seu diário. (FRANK: 1999, pp. 5-6).

O modelo de publicação do livro de Anne também seguiu um caminho demorado em relação ao suporte dos diários digitais. Manuscrito por Anne, passou por diversas revisões, sendo concebido graficamente e encarados todos os processos de produção gráfica até ser distribuído às livrarias. Um longo processo. Em contrapartida, o diário on-line se aproveita das facilidades das interfaces gráficas dos programas de edição em rede. A concepção implícita de um diário de conteúdo que se tornará público em segundos já faz parte do imaginário de quem publica um diário virtual na rede.

Em lugar da editoração clássica, de base gráfica, surge nos diários digitais, a publicização pela internet, disponível no espaço cibernético. Aqui, em lugar de páginas de livro, surgem as home pages pessoais, que passam a abrigar as páginas digitais.

Neste ambiente, o tempo de publicização do diário on-line reduz-se claramente em relação ao diário impresso, graças à velocidade inerente à natureza da rede. O tempo do diário on-line é o da instantaneidade da informação, hospedada, como vimos em Sisters under Siege ou em War Diaries em sites originários em Belgrado e que podem ser acessados na instantaneidade desde que disponibilizados na rede. Atualmente, há ainda a experiência dos weblogs, que trouxeram maior velocidade à publicização e velocidade na disponibilização dos diários na internet.

Embora sejam publicizados rapidamente, os diários on-line podem também, na mesma velocidade, ser retirados do ar. Este foram os casos dos sites Sisters under Siege e War Diares que foram desativados. Isto comprova o caráter de maior permanência do suporte papel em relação à rede. O livro impresso, embora por qualquer motivação possa ter edições destruídas, traz em sua própria natureza, a marca da permanência no espaço e no tempo.

Ainda em relação à publicização, o modelo de base impressa segue a lógica da comunicação linear one-to-many (um-todos), de um produtor e muitos consumidores, em contraposição do modelo many-to-many da sociedade em rede, onde o leitor é também um autor. Neste último, quando um diarista partilha seu diário na rede, ele traz links para diários de outros diaristas e coloca ao debate o conteúdo do que está publicizando. Em The Evolution of) the Newspaper of the Future Chris Lapham nos lembra:

a tecnologia atual, especificamente a transmissão digital de texto, áudio e video tem alterado o tradicional modelo de comunicação one-to-many. Em vez disso, audiências estão tornando-se produtores tão bem quanto consumidores de informação, e um novo modelo de comunicação many-to-many tem emergido. Hoje, qualquer um com um modem, um computador pessoal e uma linha telefônica pode transformar-se em um editor, como nós conhecemos o termo. Mas, é um erro eliminar totalmente o velho modelo em favor do novo modelo. Pela justaposição do melhor do novo modelo - acesso computadorizado, entrega e pacotes de informação - com o melhor do velho modelo - reportagens cheias de insights em uma estória bem escrita - é criado um modelo híbrido melhor, que combine o melhor de ambos5.15.

b) O caráter multimídia, a velocidade, a interatividade, a memória ilimitada

O diário on-line apresenta-se com características e recursos multimídia até então antes impensados para diários impressos. Em lugar de desenhos e rabiscos muitas vezes encontrados em diários escritos tradicionais, a nova tecnologia de base informática permite, através dos nós de hipertexto, a utilização de elementos os mais variados, além da informação instantânea, a memória ilimitada, as edições personalizadas e a interatividade.

Os dois sites em que nos detemos para análise são modelos que se adequam a este entendimento. Nos recursos multimídia Carles Bellver Torlà refere-se às ilustrações, video e som, elementos que podem ser encontrados tanto em Sisters Under Siege (apenas ilustrações - fotos) e em War Diaries. Neste último, o autor do site, o cineasta de 34 anos, de iniciais A G, utiliza-se de suas performances profissionais para produzir um diário diferente, no qual estão acoplados não apenas a palavra, a narrativa, em um diário de guerra escrito, mas também som e video, em uma versão filmada, na qual a tecnologia utilizada é a do Real Player G-3. Através deste recurso é possível acompanhar, através de filme, o desenrolar da Guerra do Kosovo gerada pela lente de A G.

Em ambos os sites existe a presença de nós de hipertextos, linkando informações as mais variadas. Em comparação a War Diaries, em Sisters under Siege esta presença é mais constante, com remissões as mais diversas: desde o próprio arquivo de entradas do site até mesmo remissões a pessoas e outros recursos como a fotografia:

Esta é a origem do web site keepfaith, adverte Ivanka num link que leva a uma historinha sobre como a idéia de manter o site foi gerada. This is the origin of the keepfaith Web site.

Neste outro link, Ivanka chama a atenção para o recurso de interatividade DO SOMETHING, através do qual os internautas poderiam participar enviando e-mails sobre o tipo de reações que a guerra e a situação vivida pelos habitantes de Belgrado e da Iugoslávia, como Ivanka estavam passando:

The Bombs stopped falling - the occupation begun. The journal continues weekly, with additions from my daughter in the "DO SOMETHING" section and journals from me and my sister Olga.

Havia ainda outros tipos de links:

Image oliveira-rosa-meire-diarios-publicos-mundos-privados23

Link para entradas do dia 12 de julho e para fotografia de Olga

Image oliveira-rosa-meire-diarios-publicos-mundos-privados24

Link para aqueles internautas que querem se solidarizar

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Resposta a cartas de leitores

Através de Sisters under Siege e War Diaries pessoas de todo o mundo puderam acompanhar o relato diário e comovente da vida desses dois habitantes de Belgrado. Puderam conhecer seus dramas, seus anseios, medos, e, graças a outros recursos, entrar em contato, oferecendo-lhes apoios de todo tipo.

Isto foi possível porque com a nova tecnologia de base informática, a interatividade, esta outra característica própria da internet, o correio eletrônico permitiu relativizar a distância entre produtores e consumidores.: Torlà nos lembra que " o leitor de um jornal espera contar com uma secção de cartas ao diretor para expressar suas opiniões e suas sugestões. Hoje, com a internet, ele já pode encontrar alguém disposto a responder a suas questões e receber suas opiniões via e-mail. É a prática habitual da internet" (op. cit.).

No caso de Sisters under Siege, no site existe um botão interativo chamado Reponse to your letter, no qual Ivanka responde questões dos visitantes, como no seguinte exemplo:

(Phone) Minha filha leu várias das mensagens de visitantes deste site para mim através do telefone. Ela responde as cartas de meus leitores para mim. Nós mantemos com ela e-mails que chegam às mãos dela, já que ocasionalmente estou incapaz de recebê-los em função das conexões de internet e problemas com a linha telefônica causados pela guerra. Ela não quer deixar de me proteger de e-mails cheios de ódio que chegam. Daqui de longe, estou grata por reportar que a maior parte das mensagens foram simplesmente maravilhosas e estou grata por mim e por Olga. É bom saber que existem tantas pessoas boas no mundo. Algumas cartas furiosas me chegam de pessoas insignificantes para mim, mas são mensagens que machucam dentro desta grande tragédia. Ivanka

Sim, é minha visão pessoal do bombardeio sobre Belgrado e Kosovo. Eu não faço de conta de que sou objetiva enquanto espero por alguma das bombas da OTAN destruir a vida de pessoas e o amor. A informação que eu escrevo vem de coisas que eu vejo com meus próprios olhos, de reuniões e ligações telefônicas com meus amigos e minha família em Belgrado e no resto da Iugoslávia e de muitas matérias na Tv iugoslava, da mídia internacional, como a francesa, americana e russa. Eu posso ter qualquer informação a partir desses recursos...

A outra característica presente nas tecnologias de base informática é a memória ilimitada. Característica esta também encontrada nos diários de guerra on-line estudados. Diferentemente dos diários de guerra impresso, oferece-se aí a possibilidade de registro de forma ampla de dados. Com isto, evidencia-se um diferencial entre o processo, o modus operandi de cada pólo de diário para ser veiculado. Enquanto o tipo impresso acontece pelo modelo do livro impresso com todas as interfaces já mencionadas, o diário on-line ganha publicização pela via tecnológica da informática.

Continuidades

a) A temporalidade, a tecnologia de base escrita, o hipertexto

Os autores dos dois diários on-line Sisters Under Siege e War Diaries tomaram a si um mesmo objetivo: publicar na internet um relato, em forma de diário, uma visão pessoal sobre a Guerra do Kosovo, da qual ambos eram testemunhas:

Minha filha nos Estados Unidos me pediu para escrever para ela diariamente sobre a minha e a vida de minha irmã e dos sobreviventes durante as bombas da OTAN a Belgrado. Ela irá publicar minhas cartas através de e-mails e minhas ligações telefônicas na internet diariamente enquanto a Iugoslávia estiver sob ataque . (Yvanka)

O War Diaries começou em 23 de Março de 1999 durante as reuniões finais entre o presidente sérvio e Milosevic e o negociador americano Holbrooke. O War Diaries apareceu primeiro em Webcinema, uma rede de 2 mil cineastas que usam a internet como uma nova media tecnológica para produzir, distribuir e exibir filmes independentes e tem sido desde então largamente distribuído pela internet e também de forma impressa (A G).

Colocando em prática os sites, os dois autores utilizaram o recurso do pólo da escrita, a utilização da palavra impressa, e recursos da oralidade, como a narrativa e a memória. Em Sisters Under Siege, Ivanka, uma jornalista de 74 anos, apresenta no site o relato de 77 dias ininterruptos da Guerra do Kosovo, que transformaram sua vida. Os recursos que utiliza, embora em um ambiente digital, remetem a processos ancestrais que continuam presentes num ambiente de diário eletrônico: assim como Anne Frank, os fatos narrados sobre a guerra traz como principal característica a temporalidade. A edição sucessiva dos dias em Sisters under Siege é marcada por um calendário à esquerda do site. A guerra para Ivanka tem um marco zero. Ela descreve:

Dia Zero - As sirenes começaram enquanto eu estava visitando um velho amigo. Minha irmã Olga (click para ver Olga com o violino) quase ficou louca de preocupação até estarmos juntas. A primeira vez em 50 anos que uma força de ataque escureceu os céus sobre um país europeu, desde a invasão alemã. Isto não é o que eu esperava sobre estes tempos. Nenhuma comida enlatada, nem baterias , nenhuma idéia sobre onde as bombas serão jogadas - nós estávamos completamente despreparados. Eu imagino que ninguém acreditava que isto poderia acontecer. Não para nós, não neste dia e era, não sem provocação, não por um país que visitei tão recentemente, cujo povo é tão educado, amigo e receptivo... As sirenes foram terríveis! Esta é a primeira vez que as ouço desde que eu era uma garotinha escondendo-me com meus irmãos e irmãs da invasão de aviões alemães. Os pilotos não entendem que existem milhões de pessoas vivendo aqui? Eles realmente pensam que é o exército, militares e políticos que são mais vulneráveis quando a cidade é bombardeada?

Da mesma forma, A G utiliza o recurso da escrita para marcar o dia-a-dia da guerra que ele registra entre 23 de março e 17 de junho de 1999.

Terça, 23 de Março Manhã cedo. Eu fui encontrar meu amigo M, ajudá-lo a evacuar sua família (esposa B. e a o filho de 3 anos, N) da cidade. Enquanto eles se preparavam para partir, a tv exibia uma assembléia de sérvios. "Nós não precisamos da Coca-cola americana, exclamavam os políticos: a assembléia não concordava com tropas estrangeiras sobre Kosovo". Eu tenho minha câmera de mão comigo e eu filmei a família de M. se preparando para a evacuação. Holbrooke está falando com Milosevic. Nós estamos esperando ansiosamente pelo que vai acontecer.

As duas home pages, embora num ambiente digital, utilizam-se de tecnologias, como a escrita e a marcação da temporalidade, recursos comuns em diários impressos, como o de Anne Frank. Já a outra característica do diário digital, ela está presente também no suporte papel nas diversas interfaces. Lévy dá como exemplo de interface a padronização que considera original:

Página de títulos, cabeçalhos, numeração regular, sumários, notas, referências cruzadas, todos estes dispositivos lógicos, classificatórios e espaciais sustentam-se uns aos outros no interior de uma estrutura admiravelmente sistemática: não há sumários sem que haja capítulos nitidamente separados e apresentados; não há sumários, índice, remissão a outras partes do texto, e nem referências precisas a outros livros sem que haja páginas uniformemente numeradas (Lévy:1998, p..34).

O autor conceitua o hipertexto como "nós ligados por conexões" e diz que o mesmo "não deve estar limitado às técnicas de comunicação contemporâneas" (Lévy, 34-35).

Tensão público x privado

Até 1994 quando começaram a surgir os primeiros diários pessoais na internet, a concepção que se tinha sobre o diarismo era exatamente oposta àquela atualmente apresentada pela versão on-line. Pelo menos no que diz respeito à publicização de seu conteúdo, os diários e jornais pessoais on-line desfazem totalmente uma tensão fundamental existente em algumas fases dos diários tradicionais, especialmente nos últimos cem anos quando surge o Novo Diário incorporando fortemente o conceito de eu e da subjetividade do indivíduo e a noção de que o gênero não era escrito para ser publicado.

Por outro lado, a história do diarismo registra casos, como o de Anne Frank, em que diários ou jornais eram escritos com a decisão de seus autores de que em algum momento eles viessem a ser publicados. Nessa fase, portanto, já havia uma tendência de a tensão privado x público se desfazer. Entende-se, nesse contexto, o sentido de privado como aquele de natureza íntima, pessoal; e público, o de dar publicidade, conhecimento público por qualquer meio ou material.

Um outro exemplo de como pode se manifestar o fim da tensão público x privado também vem de outra vítima do nazismo, o escritor Emmanuel Ringelblum, lembrado pela pesquisadora Sharyn Lowenstein. A diferença em relação a Anne Frank é que em vez de um diário privado, Ringelblum escreveu uma coleção de diários coletivos, mas também com a intenção de publicá-los.

Em vez de um jornal particular, Ringelblum tornou-se famoso por ter coordenado e ajudado a escrever um diário coletivo no gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial, dois meses após a invasão da Polônia pelos alemães, em 1939. Com bom trânsito entre os nazistas, Ringelblum aproveitou-se da posição neutra no gueto para montar um valoroso retrato dos horrores da guerra. Notes from the Warsaw Ghetto é o testemunho em cem volumes do dia-a-dia do gueto de Varsóvia, relatado através de dados, entrevistas, reportagens. Para escrevê-lo, Ringelblum contou com a ajuda de dezenas de voluntários que foram treinados por ele próprio para essa missão:

Notes from de Warsaw Ghetto é um diário exemplar desta tradição. Uma poderosa contagem do dia-a-dia da invasão, ocupação e aniquilação ultimada do gueto judeu de Varsóvia. É não tanto um jornal de um homem, mas um jornal de uma comunidade, de um período histórico (Lowenstein, 1994, p. 145).

A passagem do diário manuscrito e impresso para o novíssimo diário, o diário on-line, portanto, acaba de vez com a tensão do privado x público que acompanha a história do diário pessoal no Ocidente desde o Renascimento. A mudança do suporte (papiro-pergaminho-papel) dos diários manuscritos e impressos para o suporte computador gera outras modificações que vão atingir a tradição do diarismo.

Escritos com a intenção de serem publicizados, os novíssimos diários não mais precisarão de intermediários para serem veiculados. Qualquer um que disponha de um computador, uma linha telefônica, algum software apropriado para elaborar o site, e a conexão com um provedor internet, pode transformar o padrão de comunicação existente, tornando-se produtor, em vez de apenas consumidor.

Conclusão

Ao longo do texto discutimos a evolução dos diários íntimos tradicionais e a passagem para o universo on-line. Na análise dos processos de continuidades e rupturas constatamos que, embora não seja a primeira vez que o diário rompe com o caráter privado, ele inaugura, a partir das redes telemáticas, uma natureza não somente pública, mas interativa. ``O diário, antes um produto de foro íntimo, ao entrar na rede transforma o seu caráter. Perde a condição de narrativa privada, íntima, solitária, e ganha a publicidade própria do ambiente da internet'' (Carvalho: 2000, p. 245)

A produção de interfaces cada vez mais simplificadas, levou ao acesso crescente de indivíduos à rede, com o objetivo de criar e postar diários on-line. Isto tem resultado numa mudança nunca antes vista em relação à apropriação e uso de um meio. Usuários tornam-se produtores tanto quanto consumidores de informação, transformando o modelo one-to-many (um-todos) das mídias tradicionais, para o modelo many-to-many (todos-todos) e ampliando as possibilidades de interatividade e de estímulo-resposta entre os interlocutores do processo.

Há aí neste quadro, dois aspectos. O primeiro diz respeito à entrada dos diários num circuito de produção cultural contemporânea alinhada com os novos elementos construídos pela cibercultura. Estes valores nascem a partir do fato de que a internet, formada pela junção das telecomunicações com a informática, é uma tecnologia que se estrutura em redes neurais, as quais ligam por pontos computadores espalhados por milhões de locais em todo planeta.

Isso conduz os diários a se conformarem à natureza pública deste novo suporte e a interagir incorporando as características inerentes a este meio: a hipertextualidade, a memória ilimitada, a transitoriedade, a velocidade de publicização, os recursos multimídia, a interatividade, o tempo real, dentre outras. Não é difícil visualizarmos este processo, já que os gêneros discursivos, como o diário, Bakhtin nos lembra que eles têm uma mobilidade histórica, afetados que são pelas mudanças sociais:

Os gêneros do discurso, de uma forma imediata, sensível e ágil, refletem a menor mudança na vida social. Os enunciados e o tipo a que pertencem são as correias de transmissão que levam a história da sociedade à história da língua. Nenhum fenômeno novo (fonético, lexical, gramatical) - eu diria, comunicacional - pode entrar no sistema da língua sem ter sido testado e ter passado pelo acabamento do estilo-gênero (Bakhtin, 2000: 285)

Portanto, como atos de discurso, enunciados acabados, os gêneros não poderiam ficar insensíveis às mudanças por que passa o sistema técnico-social. Conforme sustenta Tzevetan Todorov:

(...) cada época tem seu próprio sistema de gêneros que está em relação com a ideologia dominante, etc. Como qualquer instituição, os gêneros evidenciam os aspectos constitutivos da sociedade a que pertencem (...) Não é por acaso que a epopéia é possível numa época, o romance numa outra, o herói individual deste opondo-se ao herói coletivo daquela: cada uma dessas escolhas depende do quadro ideológico no qual ela se dá (Todorov: op. cit, p. 50).

Vemos que, com o diário, o quadro não é diferente. Enformado na cultura das redes, dificilmente o diário on-line poderia manter o caráter privado dentro de um modelo constitutivo de natureza pública, como é a internet. Para Todorov, 'e porque os gêneros existem como instituição que funcionam como 'horizonte de expectativa' para os leitores, como 'modelos de escritura' para os autores (op. cit.,p.49). Isto significa dizer que o horizonte de expectativas para os diários tradicionais, já que não possuem uma natureza pública em sua gênese imediatamente anterior, sejam transmutados para ocupar uma função pública nesse novo 'agora" em que se transformou o ciberespaço. Neste sentido, Maria Elisa Marchini Sayeg lembra que:

Ao escrever e imediatamente colocar sua página on-line, a passagem do privado ao público não é imediatamente evidente. Pode dar uma ilusão de segurança e privacidade, ao mesmo tempo em que está escancaradamente colocada num ambiente público. Essa ilusão talvez seja também propiciada pelo fato de que a maioria das pessoas acessa a internet de seu ambiente privado em casa, no quarto, no seu cantinho. A internet cria um espaço público que não é necessariamente sentido como tal6.1.

Esta ubiqüidade da rede é também lembrada por Kerkchove:

Na era do livro o controle da linguagem foi sempre privado, mas com os media eletrônico, o controle da linguagem torna-se público e oral. Com o advento da internet, temos o primeiro meio que é oral e escrito, privado e público, individual e coletivo ao mesmo tempo. A ligação entre mente pública e a mente privada é feita através das redes abertas e conectadas do planeta. Em breve reconheceremos que a realidade é esta mente pública" (Kerkchove: 1997:249)

O segundo aspecto que podemos destacar, é reconhecer o fato de que ao lançar esta mente pública, a tornar coletivo e partilhado o conhecimento, a informação, o autor/narrador deste gênero transmutado, o diário on-line, vai tornar ainda mais aparente o processo que constrói o que Bakhtin considera "o diálogo real".

Ou seja, a partilha realizada pelos ciberdiaristas no conteúdo de seus diários, ao ganhar status público, desloca o destinatário do diário tradicional. Este, encarnado na figura do próprio autor que se narra e ao mesmo tempo se escuta, transmuta-se. Rompe-se a tensão existente na interlocução entre aquele que escreve, e o destinatário que em muitos casos não existiria pela proposta de manter, o autor, seus diários no âmbito privado. O "diálogo real" proposto por Bakhtin, caracterizado pelo enunciado acabado - a alternância de sujeitos falantes -, surge no diário on-line com a audiência pública, diferenciando-se da relação que o autor/narrador até então mantinha com seus diários privados.

A interatividade atravessa a relação autor/narrador/destinatário, construindo o diálogo que é fruto da partilha. Os nós de hipertexto, caracterizados pelos links para outras páginas formando vizinhanças, para e-mails, e informações de todo o tipo, caracterizam a efervescência que dá vida a este diálogo vivo encontrado nos diários. Sujeitos/autores alternam informações, conhecimentos, pontos de vista, que enriquecem a socialidade vivenciada na rede, tornando-a pulsante e enriquecida.

Há aqueles que ainda se indagam sobre se esta forma aberta, escancarada de viver esta nova realidade digital por parte dos ciberdiaristas se configuraria como voyeurismo ou exibicionismo? Para nós, a resposta, se positiva, importa menos do que a certeza de ser o diarismo on-line uma prática, possibilitada pela simplificação de interfaces e potencializada pelo caráter público,interativo, globalizado da rede. "A internet abre o caminho para um terceiro modo de comunicação, de verdadeiro diálogo e com uma dimensão coletiva", afirma Lévy6.2.

Assim como as formas de autobiografias foram os meios encontrados, para, a partir do Renascimento com mais intensidade, os indivíduos se dizerem, irem criando uma consciência de si, sobre si, na contemporaneidade este papel continua sendo exercido também pelos diários on-line. Indivíduos continuam usando a forma autobiográfica mais próxima do cotidiano, o diário, para escrever suas próprias vidas, a partir de seus próprios textos. "Os fenômenos das webcams e dos diários pessoais podem ser considerados como formas de escrita de si, já que tanto na construção da imagem através de câmeras pessoais, como nos fenômenos de publicização de diários íntimos, o que está em jogo são formas de apresentação do eu no ciberespaço" (Lemos: 2001, p. 9)

Como registro do "campo da atualidade" (Cocheyras), o diário se difere de outras formas autobiográficas, como a autobiografia, a biografia ou a memória, exatamente pelo registro do efêmero, pela marcação do presente, do cotidiano que se quer partilhar. E isto faz este gênero discursivo ser mais facilmente apropriado pelos sujeitos contemporâneos, que se utilizam da internet para pôr em prática seus registros diários, suas vidas em forma de textos, em busca de partilha e, como seus antecessores, de maior consciência de si no mundo:

Os modernos diaristas não querem emoções íntimas, querem dividir com o outro o seu olhar pelo mundo, pela sua cidade, seu bairro, sua rua, numa volta à aldeia, ou seja, numa busca de solidariedade, de calor humano. Estranhamente, esta busca tem como meio um instrumento frio e técnico: a máquina, o computador6.3.

Foram os computadores, através das interfaces que, segundo Kerkchove, "criaram uma nova forma de cognição intermediária, uma ponte de interação continuada, um corpus callosum entre o mundo exterior e nossos eus interiores" (Kerkchove, op. cit., p. 52).

Outras considerações

Além dessas considerações sobre a natureza dos diários on-line e os processos de continuidades e rupturas que envolvem os gêneros tradicional e on-line, acreditamos que esta dissertação desperta interesse pela contribuição que faz à compreensão global da tradição diarística. No decorrer da pesquisa, sentimos grande dificuldade em localizar obras publicadas no Brasil que apontassem para a gênese e evolução dos diários tradicionais no mundo. O mesmo problema é enfrentado quando busca-se bibliografia específica sobre a tradição dos diários no Brasil.

Nota-se, entretanto, grande efusão nas pesquisas que vêm sendo desenvolvidas em várias partes do Brasil sobre os mais diversos temas relacionados à produção diarística. Estas, cobrem especialmente o campo da História da Educação, Lingüística e dos Estudos da Mulher, nos quais têm se desenvolvido boa parte dos enfoques de estudos no campo dos diários.

Embora haja boa fertilidade no campo das pesquisas, estas carecem ainda de publicização, especialmente no que diz respeito à publicação de livros. O que se observa é uma boa movimentação de congressos, seminários, encontros científicos de vários níveis discutindo o objeto diário sob vários enfoques e enquadrado em diversas áreas de interesse, mas este fluxo não tem transgredido e ultrapassado os muros das áreas de produção científica no Brasil, especialmente os espaços universitários. Falta, portanto, maior interesse de editores pela publicação de trabalhos críticos sobre diários no Brasil. Esta, inclusive, constituiu-se em uma de nossas maiores dificuldades para compor o quadro de entendimento sobre a presença e evolução dos diários no Brasil.

Um dos exemplos de que esta dinâmica de publicidade dos esforços acadêmicos em torno da produção de trabalhos sobre diários é possível no Brasil, é o esforço demonstrado pela Editora Mulheres, de Santa Catarina, que tem nos últimos três anos publicado obras relacionadas ao tema. Uma das mais recentes, Refúgios do Eu, lançado em 2001, constitui-se em importante contribuição no esforço de reunir bibliografia de trabalhos desenvolvidos em várias partes do Brasil sobre diários e diaristas. Que novas iniciativas como esta possam surgir, colaborando com a expansão de tão importante campo de estudos ainda novo no Brasil.

Referências



Notas de rodapé

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Ao me recostar numa árvore/dentro da floresta/ suspirando por um amor perdido/eu observo, absorto, as estrelas. (tradução livre)
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Contemporaneamente essa tradição de diário foi retratada pelo cineasta americano Peter Greenaway, no filme The Pillow Book - 1995 (O Livro de Cabeceira, no Brasil).
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Christina Baldwin pode ser acessada através do endereço PeerSpirit, P.O. Box 550, Langley Washington 98260, USA, Telefone: (360) 331-3580 ou via e-mail: cbaldwin@peerspirit.com
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Disponível em: <http://www.journaltherapy.com>. Acesso em 28.mar.2000
... trabalho2.5
Atualmente, Adams mantém uma rede de instrutores certificados que realizam The Journal to the Self Workshops nos Estados Unidos, Canadá e vários outros países. O Center for Journal Therapy funciona no seguinte endereço, em Lakewood, estado do Colorado, EUA: 12477 W Cedar Dr., nº 102, Cep 80228. Outras informações podem ser obtidas também pelo e-mail info@journaltherapy.com.
... Vermonte2.6
O endereço da Goddard Faculty é: 123 Pitkin Road, Plainfield, Vermonte. Cep: 05667. Ou através de e-mail: admissions@goddard.edu
... Training2.7
Maiores informações sobre o Wordsworth Center for Poetry Therapy podem ser obtidas no site: http://www.poetryterapy.org/links/wordworth1.html
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PROJETO Vercial. Miguel Torga. Disponível em: <http://www.ipn.pt/literatura/torga.htm>. Acesso em: 20.out.2001.
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Nesse sentido, importantes trabalhos vêm sendo realizados na França por autores como Roger Chartier (A Ordem dos Livros -1998; A Aventura do Livro: do Navegador ao Leitor -1998; Textos, Impressão, Leituras -1995; A história cultural: entre práticas e representações - 1990 ).
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Também foi editado no Brasil como Diário de uma Viagem ao Brasil e de uma estada nesse país durante parte dos anos de 1821,1822 e 1823. São Paulo: Nacional, s. d. (Tradução de Américo Jacobina Lacombe) e pela Itatiaia - Editora da Universidade de São Paulo, em 1990, 425p, sob o título: Diário de uma viagem ao Brasil.
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