Tecnologias da Comunicação e Informação na reconfiguração das redes de relações dos sujeitos

Maria João Antunes, Eduardo Anselmo Castro e Óscar Mealha1

Universidade de Aveiro, Portugal, Outubro de 2001


ndice

Resumo

A revolução nas Tecnologias da Informação, iniciada nos anos 70 nos Estados Unidos, teve profundas implicações em inúmeros sectores da sociedade, e desde logo na forma como os sujeitos interagem entre si. Diversos autores, levados pela (aparente) independência do espaço, atribuída aos novos dispositivos de comunicação em rede, falam mesmo na perda da relevância do lugar. Considera-se, no entanto, que quanto maior o enraizamento dos sujeitos nos espaços físicos, maior o seu potencial para usufruir das vantagens que os espaços virtuais de comunicação e informação podem oferecer, e maior o seu contributo para o enriquecimento desses mesmo espaços.

Esta reflexão está na base de um trabalho de investigação em que se pretende avaliar o impacto dos novos serviços telemáticos de comunicação em rede, na reconfiguração das redes de relações dos sujeitos, analisando a relevância do espaço físico neste novo contexto.

Introdução

Durante largos séculos as trocas comunicacionais foram em grande medida condicionadas pela estruturação do espaço físico, estando a cadeia de relações sociais reflectida na vizinhança de um local. Apesar das comunidades independentes de lugar sempre terem existido, ainda que em número reduzido e limitando-se a indivíduos determinados, como trabalhadores itinerantes e comerciantes, necessitaram de certos desenvolvimentos tecnológicos para se propagarem. Até à expansão dos caminhos de ferro e à chegada do telégrafo, a velocidade de comunicação andou a par com a velocidade do transporte porta-a-porta, mas a invenção do telégrafo vem alterar esta situação, sendo responsável pela dissociação entre comunicação e transporte. A informação deixa de necessitar de ser carregada até ao destino por alguém (Wellman, 2001). Assim, a partir sobretudo do século XIX, a invenção do telégrafo, do telefone e o crescendo de avanços na área das transmissões foram, lenta mas progressivamente, mostrando as possibilidades dos dispositivos técnicos transcenderem, com limitações, a barreira do espaço, permitindo ao Ser Humano criar formas alternativas de manter ou criar relações.

No início dos anos 70 (século XX), nos Estados Unidos, como resultado do desenvolvimento e convergência entre várias tecnologias - chave, como o microprocessador, o microcomputador, aliados a avanços na área das telecomunicações e ao desenvolvimento de novas aplicações de software, introduziram-se grandes melhorias nos dispositivos de comunicação à distância, com profundas implicações em inúmeras áreas de actividade, e desde logo na forma como os sujeitos comunicam e trocam informação entre si. No início dos anos 90, impulsionados pela crescente necessidade das organizações partilharem sinergias, os serviços de comunicação e informação conheceram uma ampla expansão, como resultado da convergência de três tendências determinantes: a digitalização das redes de telecomunicações, o aumento da largura de banda disponível para transmissão e o aumento da performance dos computadores ligados em rede. Em virtude da aplicação destes desenvolvimentos foi possível passar, de um cenário onde existiam apenas ligações entre computadores em redes locais, para a utilização cooperativa das capacidades dos computadores, independentemente da localização dos agentes a interagir. (Castells, 1996).

Presentemente os novos serviços de comunicação e informação assumiram grande diversidade de formas, sendo utilizados por vastos segmentos da população, ainda que assimetricamente distribuídos por todo o planeta, dentro de cada país e de cada cidade, onde grupos privilegiados de ``super inclusão telemática'' coexistem com grupos desfavorecidos que habitam ``lugares desfasados no tempo'' (Graham, 1998).

Articulação entre serviços de comunicação em rede e espaço físico

Na discussão em torno do acesso aos novos espaços electrónicos tende a adoptar-se, segundo Stephen Graham, uma visão simplista e determinista, em detrimento de uma reflexão mais aprofundada sobre a forma como se articulam, os novos serviços de comunicação em rede, com os espaços e lugares físicos.

Nesta reflexão podem ser identificadas, segundo Robert Kitchin (1998), duas posições antagónicas. Numa primeira incluem-se os autores que consideram que os novos serviços de comunicação estão a alterar as relações espaciais, conduzindo à reconfiguração do lugar, à redução da sua importância, preconizando até a desmaterialização da cidade.

Uma segunda posição que, apesar de considerar que os novos espaços de interacção têm grande influência na reconfiguração de tempo e espaço, assume que geografia e tempo continuam a ser determinantes. Nesta perspectiva os novos espaços de comunicação são encarados como novos espaços sociais, com uma geografia própria, onde os indivíduos podem interagir sem os constrangimentos do corpo, podendo impor-se com base nas mensagens que emitem.

Robert Kitchin apresenta diversas razões para a manutenção da relevância da dimensão espacio-temporal: desde logo o facto dos acessos ao ciberespaço e a Largura de Banda estarem assimetricamente distribuídos entre, e no interior dos países do ocidente, e em comparação com os países menos desenvolvidos; o facto da informação, que uma vez online parece independente de lugar, ser apenas útil no local onde o corpo reside. O autor chama ainda a atenção para o facto do ciberespaço depender da imutabilidade espacial do mundo real, traduzida, entre outros, em pontos de acesso, na materialidade dos fios, não eliminando outros condicionantes da localização, como as redes sociais presenciais, a força de trabalho devidamente habilitada e o acesso aos mercados e materiais (Kitchin, 1998).

Interacções tecnologicamente mediadas

Com base numa análise mais atenta das actividades comunicacionais possibilitadas pelos serviços Internet, há que distinguir dois tipos de relacionamentos:

1) Um primeiro referente às comunicações mantidas entre indivíduos que se conhecem já do espaço físico. Neste tipo de interacção, os novos serviços de comunicação surgem como espaços de relação que permitem manter ou prolongar, através de novos dispositivos tecnológicos, relacionamentos já estabelecidos e consolidados no espaço físico. Frequentemente este tipo de contactos permite a manutenção de laços de amizade, entre indivíduos fisicamente distantes, que de outra forma se diluiriam na distância. Os novos espaços de relação possibilitam ainda uma forma alternativa de mediar contactos entre sucessivos encontros presenciais. Em ambos os casos estamos perante relações fortes envolvendo, provavelmente, interlocutores com características sociais semelhantes ao sujeito partilhando, por isso, um tronco comum de informação (Granovetter, 1973).

2) No entanto, a mais valia dos novos espaços de interacção centra-se, sobretudo, na possibilidade de estabelecer contactos com indivíduos exteriores à esfera de relacionamentos do sujeito.

Neste contexto, há um conjunto de interacções, que pela limitada necessidade de envolvimento e quase ausência de custos/riscos, são passíveis de ocorrer exclusivamente por via da mediação tecnológica, não necessitando de enraizamento nos espaços físicos. Por outro lado existe um outro de tipo de interacções que, apesar de beneficiarem do alcance dos novos dispositivos de comunicação para se darem a conhecer, ou para a sua manutenção, só poderão progredir mediante interacção nos espaços físicos.

No primeiro caso estamos perante relações desenraizadas, assim designadas por não requererem transposição para o espaço físico, podendo ocorrer com qualquer interlocutor que cumpra certos requisitos, estabelecidos pelo sujeito que desencadeia a interacção. Nesta categoria incluem-se as relações de sociabilidade onde os sujeitos recorrem ao uso dos serviços telemáticos em rede, para contactar com desconhecidos e obter deles informações, esclarecimentos, suporte emocional ou simplesmente desabafar ou comunicar com alguém, que partilhe os mesmos interesses ou preocupações. Nestes casos os novos dispositivos comunicacionais funcionam como desencadeadores de novas relações, que podem nunca passar pelo espaço físico. Frequentemente, neste tipo de interacções, a presença num tempo, mas sobretudo num espaço comum, é irrelevante, e por vezes até uma mais valia.

Apesar de se considerar que alguns destes tipos de relações não são inovadoras, conhecem, com as novas possibilidades de interacção pessoal e de comunicação directa, proporcionada pela integração das telecomunicações e da informática (Benschop, 1998), uma grande aceitação e um crescimento exponencial. Tal expansão é passível de ser atribuída à comodidade do meio, à facilidade de encontrar na rede outros que, como nós, partilhem os mesmos interesses, e à dificuldade em encontrar alguém, com quem desabafar, na cidade supercrescida onde a prioridade da ``luta pela sobrevivência'' consome cada vez mais tempo e conduz, cada vez mais, ao isolamento forçado ou por vezes voluntário.

No segundo caso - relações enraizadas - incluem-se relações de grande reciprocidade (procura de informações sobre assuntos muito específicos, certas relações de compra e venda), envolvendo troca de informações/conhecimentos ou de bens/produtos de importância estratégica e/ou de elevado valor. Assim, torna-se incontornável a existência de relações interpessoais/referências no espaço físico, visto só aqui ser possível criar confiança, factor determinante em qualquer relação deste nível.

De facto, os encontros face a face, apesar de se revestirem de maior complexidade, proporcionam um maior conteúdo informativo (Benschop, 1998). Assim, só através da interacção presencial é possível imergir na realidade do local, vislumbrar, através dos processos de significação (gestos, expressões faciais, inflexões na voz,...), as pistas simbólicas baseadas na comunicação face a face (O' Brien, 1999), tão essenciais na legitimação da comunicação, e por fim sincronizar interpretações. De acordo com Adriano Duarte Rodrigues, a informação que chega aos sujeitos é interpretada mediante a sua experiência particular e à luz dos quadros de referência fornecidos pela cultura em que cada um se insere (Rodrigues, 1994). Num cenário, como é o actualmente proporcionado pelas novas ferramentas de comunicação, de estabelecimento de contactos à escala global, envolvendo uma multiplicidade de informações, e por vezes ligando uma pluralidade de culturas, o enraizamento no espaço físico, enquanto gerador de linhas de orientação dominantes, adquire uma importância acrescida para a diminuição da incerteza.

Interacções tecnologicamente mediadas: o reforço das redes estabelecidas no espaço físico

Ao constatar-se que os novos dispositivos de comunicação e informação possibilitam uma sociabilidade já não baseada na pertença a uma mesma comunidade de vida, mas em escolhas individuais, mais ou menos aleatórias, mediante interesses específicos ou disposições do momento, (Rodrigues, 1994) considera-se que poderão fomentar o estabelecimento de relações fracas. Estas relações ao serem estabelecidas com indivíduos exteriores ao círculo de amizades do sujeito, são, por isso mesmo, mais susceptíveis de veicularem informações diferentes daquelas que o sujeito detém, potenciando a apreensão de novo conhecimento (Granovetter, 1973).

No entanto, e segundo Castro e Butler, a capacidade de um indivíduo absorver, seleccionar e disseminar informação gerada localmente, afigura-se determinante para a capacidade dos indivíduos e das instituições interagirem com parceiros localizados em qualquer parte. Assim, sujeitos com capacidades limitadas de gerar e circular informação, no espaço em que se inscrevem, terão pouco a oferecer nas redes de interacção globais (Castro, Butler, 2000).

Deste modo, considera-se que os novos serviços de comunicação em rede tenderão a beneficiar sobretudo as instituições/ indivíduos que se insiram já em meios ricos, em dinâmicas de informação/conhecimento e recursos, e que apresentem créditos firmados no espaço físico. Isto mesmo parece ser comprovado nas interacções em listas ou grupos de discussão, onde indivíduos, cujo endereço de correio electrónico ou assinatura electrónica indicie a pertença a instituições de reconhecido mérito, numa determinada área, beneficiam de um estatuto diferenciado, em virtude da reputação de que a instituição goza (Cardoso, 1998, Donath, 1999).

Observações finais

Constata-se que os novos espaços de interacção contribuíram sobremaneira para a multiplicação do número, diversidade e velocidade dos contactos desencadeados, possibilitando, através de novos meios, a manutenção de relações entre indivíduos que já se conhecem do espaço físico, e o estabelecimento de ligações, mais ou menos fortes, com indivíduos até então exteriores ao círculo de relacionamentos do sujeito. No entanto, este crescimento exponencial de mensagens trocadas, de informação e serviços disponíveis através da Rede, apesar de potenciar a partilha de conhecimentos, a troca de informações e a oferta de serviços, coloca também dificuldades de selecção, remetendo para a necessidade de existirem mecanismo de filtragem que baixem a entropia e assegurem confiança. Esta questão é tanto mais pertinente quanto maior o custo da transacção envolvido. Assim, torna-se determinante a existência de mecanismos susceptíveis de direccionarem e legitimarem as escolhas dos sujeitos, nos espaço electrónicos de interacção, considerando-se que esta validação é feita tendo por base as redes sociais e as instituições consolidadas no espaço físico.

Considera-se que os novos espaços de comunicação existem, não em oposição aos espaços físicos mas, como prolongamento/ complemento destes, mantendo entre si uma estreita interacção. Os novos espaços de comunicação, parecem reproduzir, de algum modo, as hierarquias presentes nos espaços físicos, reflectindo assim as assimetrias existentes.

Bibliografia



Notas de rodapé

... Mealha1
Maria João Antunes aluna de doutoramento em Ciências e Tecnologias da Comunicação, Departamento de Comunicação e Arte, Universidade de Aveiro. Eduardo Anselmo Castro Professor Associado do Departamento de Ambiente e Ordenamento, Universidade de Aveiro. Óscar Mealha Professor Auxiliar do Departamento de Comunicação e Arte, Universidade de Aveiro.