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ISSN: 1646-3137 Labcom |
| www.bocc.ubi.pt |
Contributos para uma sociologia do ciberespaço
Gustavo Cardoso, ISCTE
(Publicado na Revista "Sociologia Problemas e
Práticas" nº 25 , CIES, 1998)
Resumo: Este texto
procura fornecer uma série de contributos para o investigador social que
pretenda debruçar-se sobre a Comunicação Mediada por Computador em geral e mais
particularmente pelo estudo do Ciberespaço e das interacções sociais que aí
ocorrem. O conjunto das questões e problemáticas que encerram um estudo deste
tipo é ilustrado através da caracterização de uma mailing list, a pt-net,
e dos seus membros durante um período de 6 meses.
Uma rede
internacional de computadores como a Internet, constituída por milhares
de outras redes, oferece a milhões de utilizadores a oportunidade de trocarem
correio electrónico (E-mail), imagens, sons, pesquisar bases de dados,
trocar e obter software, ou mesmo participarem em vídeo-conferências em
tempo real.
Nos últimos anos, a
área de maior evolução na Internet tem sido a World Wide Web (www),
a qual permite aos seus utilizadores o acesso a um ambiente rico em aplicações
de texto, gráficos, animação e sons. A Web, como é conhecida, reúne
assim a maioria das ferramentas actualmente disponíveis na Internet. Através
de um interface gráfico denominado Browser é possibilitado, até ao mais
inexperiente utilizador de computadores, o acesso à informação disponibilizada
mundialmente na Web. Com um computador ligado à rede telefónica é
possível ler o Expresso ou o Le Monde Diplomatique, obter
bilhetes de avião na TAP ou encomendar livros às mais diversas editoras e
distribuidoras internacionais e seguir, através da DHL, o percurso que os
livros realizam até chegar a nossa casa.
Esta é a visão que
habitualmente associamos à Internet, um espaço de consulta de informação
e de milhares de "páginas" dos mais diversos tipos. No entanto a convergência
entre os computadores e as tecnologias de comunicação não se limita apenas a
criar um novo meio de disponibilização de informação, ela é ao mesmo tempo
propiciadora de comunicação e de uma convergência de carácter social.
A par da World
Wide Web, a Internet oferece-nos a possibilidade de comunicar com
milhões de outras pessoas, seja numa modalidade de um para um ou de um para
muitos. As ferramentas à disposição dos utilizadores são diversas e os
"pontos de encontro" a que dão origem são igualmente multifacetados. De
entre a multitude de exemplos propiciadores da comunicação interpessoal através
da Internet, podemos salientar: os newsgroups; as mailing
lists; o IRC (Internet Relay Chat); os MUDs (Multi-user-dungeons
ou Multi-user-domains) e os MOOs (MUDs, Object Oriented).
Os utilizadores das
redes podem, assim, aceder a cerca de 15000 newsgroups e a outras tantas
mailing lists, canais de IRC ou MOOs e MUDs, onde
podem discutir e trocar opiniões, desde a política ao futebol, até ao estudo de
culturas e religiões das mais diversas, passando pelo estudo da língua klingon,
bem como a realização de jogos de aventuras ou a pura conversa sem objectivos
definidos .
A Internet
não se limita, pois, a facilitar o acesso à informação ela permite igualmente a
comunicação entre os membros dos mais diversos grupos e das mais diversas
origens, constituindo ao mesmo tempo um meio para a formação e criação de novas
relações através de um acesso quase imediato a milhares de contactos potenciais
com interesses e áreas de conhecimento compatíveis com os nossos.
Este é o espaço onde
locais para a discussão de interesses comuns podem facilmente surgir, os locais
de interacção formam-se à medida que os interesses surgem. Locais que se tornam
espaços de encontro de características virtuais onde o tempo e o espaço reais
não são condicionantes da interacção entre sujeitos provenientes das zonas
geográficas mais díspares.
Mas que semelhanças
e diferenças podemos vislumbrar entre este tipo de comunicação e aquela a que
mais usualmente nos encontramos habituados? Tal como a comunicação
interpessoal, também aqui a interacção é construída com base na participação, o
seu conteúdo é fruto da própria audiência. Tal como os meios de comunicação de
massas, ela envolve audiências alargadas. Mas estas redes e as suas diversas
parcelas não podem ser consideradas nem meios de comunicação de massas, no
sentido tradicional da palavra, nem como comunicação puramente interpessoal. Encontramo-nos
assim perante um novo fenómeno.
A emergência de
grupos de discussão mediados por computador vem colocar-nos um conjunto
alargado de questões de carácter comunicacional. Qual a estrutura e quais as
interdependências que regem estas redes, ou se preferirmos qual a sua
"ecologia"? Qual é o seu conteúdo temático e quais as
construções subjacentes ao mesmo? Podemos encarar este meio enquanto
complementar dos já existentes ou como seu substituto? Quais serão os efeitos
sociais destas redes: quais as transformações para o conhecimento, para as
relações económicas e de consumo, para a esfera política? Estas são apenas
algumas das questões que se nos colocam na análise deste novo espaço de
interacção social.
O objectivo deste
trabalho não é o de obter respostas, ainda que parciais, para todas as
interrogações enunciadas pois pretendeu-se, antes de mais, apresentar um
trabalho de pesquisa em que se obtivesse uma caracterização inicial da
população em estudo, dos conteúdos em debate e de uma primeira análise quanto à
estruturação das interacções sociais aí ocorridas. Este é pois um estudo
introdutório a uma nova área de investigação para as ciências sociais, e para a
sociologia em particular, tendo também presente que, tal como no espaço real,
também no ciberespaço cada campo de análise é fruto de uma dada realidade e
como tal os resultados obtidos nem sempre são aplicáveis ao todo do universo de
estudo.
A interacção social
na Pt-net
Os dados e análises
que constam deste artigo são fruto do estudo de uma mailing list,
a Pt-net, e da troca de mensagens ocorrida entre os seus participantes
durante o ano de 1996. A história da Pt-net inicia-se em 1991, tendo
nesse mesmo ano incorporado os utilizadores da luknet. Em 1994, a Pt-net
sofreu um novo aumento de utilizadores através da sua fusão com a lusa-net,
a qual funcionava a partir dos EUA desde Outubro de 1989.
A população da Pt-net
rondava 400 assinantes distribuídos por vários países, entre os quais
Portugal, Brasil, Moçambique, Inglaterra, EUA, Bélgica, Dinamarca, Suécia,
Noruega, Itália, Alemanha, Suíça, Japão, França, Croácia, Austrália, Polónia e
Irlanda.
A Pt-net é
uma lista de distribuição de correio electrónico para troca de mensagens e
discussões sobre assuntos relacionados preponderantemente com Portugal, com
portugueses, com todas as comunidades de língua portuguesa e lusófonos
espalhados pelo mundo. Está aberta a todos os temas e notícias, desde a
política doméstica à internacional, passando pelo ensino, desporto, artes,
história, literatura, etc.
Não se encontra
sujeita a qualquer forma de moderação, pelo que também não existe qualquer
forma de censura prévia ao envio de uma mensagem, assegurando assim a livre
expressão dos pensamentos dos participantes.
Apesar da lista ter
origem em Portugal e ser frequentada por pessoas que se exprimem principalmente
em português, é também referido no Prontuário Ético a aceitação
do uso de outras línguas.
O processo de adesão
à Pt-net é muito simples, bastando para tal enviar uma mensagem para o
endereço majordomo@ inesc.pt com o conteúdo "subscribe Pt-net".
A partir desse momento, de cada vez que o membro enviar uma mensagem com o
endereço Pt-net@ inesc.pt, a mesma será enviada para todos os membros da
lista.
Existe igualmente a
possibilidade de saber quem são os restantes membros e, assim, poder enviar-lhes
mensagens privadas, isto é, sem distribuição para outros que não o
destinatário, bastando para tal enviar uma mensagem para majordomo@ inesc.pt
com o comando "who Pt-net".
Enquanto assinante,
existem regras a observar sendo estas disponibilizadas aos novos assinantes
através do envio de um E-mail de apresentação da lista, onde se retrata
o seu funcionamento e as regras que a regem. Como é referido nesse E-mail,
a existência de regras justifica-se porque:
Dado que o acesso ao
correio electro'nico e' pago pelo destinata'rio e na~o havendo qualquer forma
de filtro universalmente estabelecido para a troca de mensagens na rede,
conve'm que cada um de no's siga algumas regras elementares de cortesia,
civismo e ponderac,a~o para evitar conflitos, mau estar geral e perturbac,o~es
de um convi'vio que pretendemos agrada'vel e construtivo para todos.
Também no abandono
da lista poucas ou nenhumas barreiras são levantadas aos membros que o desejem
fazer. Resume-se o processo de saída ao envio de um mail com o conteúdo
"unsubscribe Pt-net".
As questões que
naturalmente se nos colocam após o primeiro contacto com uma lista deste género
são evidentemente muitas mas, no geral, podemos sumarizá-las socorrendo-nos do
verso de Zeca Afonso que encerra o E-mail de apresentação enviado aos
recém chegados à Pt-net:
``Em terras, em
todas as fronteiras.
Seja bemvindo quem
vier por bem''.
-Jose' Afonso,
"Traz outro
Amigo Tambe'm"
Essas questões são
na sua essência: Quem são as pessoas que escolhem a Pt-net como um lugar
de interacção social? Como se realiza esse acesso? Quais as motivações que as
levam até lá? Como participam? Que tipo de relações sociais geram? Estas são
provavelmente as questões que despertam a curiosidade dos próprios
participantes e talvez por isso o número de respostas positivas aos
questionários enviados tenha sido tão elevada.
Na tentativa de
encontrar respostas procedeu-se à análise que se segue, baseada na recolha de
informação efectuada durante seis meses na Pt-net, nomeadamente através
da observação directa, questionários, entrevistas e análise de conteúdo das
mensagens trocadas.
Por razões de
organização e apresentação da informação recolhida, apresentamo-vos aqui apenas
uma súmula dos resultados obtidos, remetendo uma análise mais aprofundada para
um momento posterior.
Caracterização
pessoal dos utilizadores
A caracterização
pessoal que se apresenta aqui refere-se ao conjunto de dados obtidos sobre o
carácter sociográfico e geodemográfico dos membros da Pt-net.
Quadro 1:
Sexo dos participantes na Pt-net
|
Sexo |
Masculino |
Feminino |
Total |
|
% |
82 |
18 |
100 |
Da análise
realizada, foi-nos possível apurar que, durante o período em análise, a
população da Pt-net rondou em média os quatrocentos indivíduos.
No que respeita à
distribuição baseada no sexo, a população é constituída maioritariamente por
membros do sexo masculino - 82%-, sendo os do sexo feminino apenas 18%. É de
salientar este número, porque, geralmente, os estudos apontam para que a
população feminina da Internet esteja na casa dos 10%.
Quadro 2:
Intervalo de idades dos participantes na Pt-net
|
Idades |
% |
|
16-20 |
9 |
|
21-25 |
20 |
|
26-30 |
14 |
|
31-35 |
19 |
|
36-40 |
16 |
|
41-45 |
12 |
|
+45 |
10 |
|
Total |
100 |
Quanto à idade dos
membros da Pt-net, é de referir que a média de idades se encontra nos 32
anos. No que respeita à distribuição das idades, podemos observar que a grande
concentração de utilizadores ocorre dos 21 aos 25 anos - 20%- e dos 31 aos 35
-19%.
Quadro 3:
Nacionalidade dos membros da Pt-net
|
Nacionalidade |
% |
|
Portuguesa |
82 |
|
Brasileira |
9 |
|
Outros PLP |
4 |
|
Europa |
2 |
|
EUA |
3 |
|
Total |
100 |
Numa análise da
nacionalidade é importante salientar que, embora os membros habitem -em
diversos pontos do globo, a sua maioria possui a nacionalidade portuguesa. O
inquérito foi pois, neste ponto, direccionado para a nacionalidade e não para o
local de acesso à lista, pelo que os resultados espelham precisamente essa
realidade. Os portugueses constituem assim a grande maioria dos utilizadores,
com 82%, seguindo-se os brasileiros, com 9% e os membros de outros países de
língua portuguesa, com 4%.
Estes últimos são na
sua maioria moçambicanos, pois Moçambique é dos países africanos de língua
portuguesa aquele que possuí uma estrutura de acesso à Internet já
relativamente difundida entre os estudantes e professores universitários, em
particular na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo.
No que se refere à
relação entre idades e nacionalidade, existe uma distribuição idêntica à da
totalidade da população em estudo, não existindo entre as nacionalidades
situações particulares a destacar.
Quadro 4:
Origem sectorial dos membros da Pt-net
|
Origem Sectorial |
% |
|
Serviços / Comércio |
49 |
|
Indústria |
3 |
|
Agricultura |
2 |
|
Investigador |
20 |
|
Tarefas lar |
1 |
|
Estudante |
21 |
|
Desempregado / Procura 1º emprego |
1 |
|
Outra |
3 |
|
Total |
100 |
Na caracterização da
origem sectorial dos membros da Pt-net, podemos verificar que 90%
da população se encontra concentrada em apenas três grupos.
As três maiores
áreas são, respectivamente, serviços/comércio, com 49%, estudantes, com 21% e
investigadores, com 20%.
No que diz respeito
às profissões dos membros da Pt-net, o quadro que a seguir se apresenta
exemplifica a distribuição existente:
Quadro 5:
Profissão dos membros da Pt-net
|
Profissão |
% |
|
Professor ensino superior |
14 |
|
Médico |
2,3 |
|
Estudante |
23,3 |
|
Profissional de seguros |
4,7 |
|
Professor ensino secundário |
7 |
|
Economista |
2,3 |
|
Secretária |
2,3 |
|
Técnico de informática |
10,5 |
|
Investigador |
7 |
|
Funcionário público |
5,8 |
|
Militar |
2,3 |
|
Empregado bancário |
1,2 |
|
Gestor |
14 |
|
Assistente social |
1,2 |
|
Trabalhador independente |
1,2 |
|
Outros |
1,2 |
|
Total |
100 |
Assim, apenas quatro
áreas profissionais representam mais de 50% da totalidade da população. Os
estudantes são o maior grupo - com 23,3% -, seguindo-se os gestores e
professores do ensino superior - com 14% em cada grupo – e, por último, os
técnicos de informática - com 10,5%.
Quadro 6:
Grau de ensino frequentado actualmente pelos membros da Pt-net
|
Grau |
% |
|
Ensino complementar |
3 |
|
Bacharelato |
4 |
|
Licenciatura |
22 |
|
Pós-graduação |
20 |
|
Nenhum |
51 |
|
Total |
100 |
Mais de metade da
população - 51%- não frequenta nenhum grau de ensino. De entre os que
frequentam, os estudantes de licenciatura estão em maior número - com 22% -,
seguindo-se os que se encontram a concluir pós-graduações - 20%.
Em termos de sexos,
entre a população masculina, 55% não frequenta actualmente nenhum grau de
ensino. Entre a população feminina dá-se a situação inversa, pois apenas 26%
não frequenta actualmente um curso.
Forma de acesso à Internet
Neste ponto
procede-se à caracterização das formas de acesso à rede por parte dos membros
da Pt-net, de forma a detectar disparidades que possam por sua vez,
eventualmente, interferir com os modelos de participação na lista.
Quadro 7:
Plataformas usadas no acesso à Internet
|
Plataformas |
% |
|
Unix |
17 |
|
VMS |
1 |
|
Macintosh |
7 |
|
Windows |
64 |
|
NS / NR |
1 |
|
Várias |
10 |
|
Total |
100 |
Em termos de
sistemas operativos e do software utilizado pelos membros para aceder à Internet
e à própria Pt-net, verifica-se que o Windows é a plataforma mais
usada - com 64%-, seguindo-se o Unix - com 17% - e o Macintosh -
com apenas 7%. É também interessante salientar que já 10% dos utilizadores acedem
à Internet através de vários sistemas operativos, denotando uma
literacia digital elevada.
Quadro 8:
Ponto de acesso à Internet
|
Ponto de acesso |
% |
|
Privado / Casa |
47 |
|
Empresa |
14 |
|
Universidade |
30 |
|
Outra |
1 |
|
Várias |
8 |
|
Total |
100 |
Ao nível do ponto de
acesso primário à Internet, é importante verificar que a actual
distribuição inverteu já o ciclo histórico do acesso. Senão vejamos, o acesso à
Internet começou pelas universidades, passou às empresas e só
posteriormente começou o seu processo de generalização aos utilizadores
individuais. Actualmente, entre os membros da Pt-net, 47% já se
encontram ligados a partir de casa, contra 30% na universidade. Este é,
porventura, um dos sinais da expansão do acesso da Internet a um conjunto
cada vez mais alargado de cidadãos.
Por nacionalidades,
a distribuição mantém-se, pois tanto no caso português como no brasileiro a
ligação a partir de casa já suplanta os acessos a partir da universidade -
respectivamente 48% contra 30%, e 44% contra 22%.
Em termos da
distribuição por sexos, as mulheres acedem mais a partir da universidade - com
55% - e os homens a partir de casa - 52%.
Existem também
diferenças entre as plataformas usadas a partir dos diferentes pontos de
acesso, pois os que acedem a partir de casa usam maioritariamente o Windows
- 89% -, os que se encontram nas empresas já repartem esse acesso entre o Windows
e o Macintosh - respectivamente com 71% e 14%. Nas universidades o
panorama é diametralmente oposto, pois o Unix é a plataforma mais usada
- com 51% - seguindo-se o Macintosh - com 28% - e em último o Windows
- com 24%.
Quadro 9:
Ligação diária à Internet
|
Duração da ligação |
% |
|
Até 30 minutos |
29 |
|
Entre 30 minutos e 1 hora |
30 |
|
Entre 1 e 3 horas |
25 |
|
Mais de 3 horas |
16 |
|
Total |
100 |
A duração da ligação
diária à Internet é outro dos dados importantes para perceber como se
processa a interacção entre os utilizadores no ciberespaço e de que forma essa
utilização produz efeitos nos próprios ritmos de vida.
Entre os membros da Pt-net,
é usual estar pelo menos até 30 minutos ligado diariamente, sendo que uma
parcela significativa da população passa já mais de uma hora ligada à Internet
- 41%. No entanto, aqueles que utilizam a Internet durante mais de três
horas diárias são apenas 16%.
A distribuição por
ponto de acesso parece indicar que os utilizadores que acedem a partir de casa
tendem a não exceder uma hora de ligação - 34% até 30 minutos e 32%até uma
hora. A partir da empresa, 50% não excede os 30 minutos de ligação, sendo na
universidade que se concentram aqueles que acedem diariamente durante períodos
mais alargados de tempo - com 51% de utilização superior a uma hora. Esta
situação tem certamente a ver com o facto de o acesso a partir da universidade
não ser tarifado ao utilizador, ao contrário dos acessos a partir de casa e da
empresa, onde o utilizador tem de pagar o acesso e as chamadas telefónicas para
o POP respectivo.
As mulheres passam
mais tempo ligadas: 45% estão ligadas à Internet pelo menos durante uma
hora, enquanto entre os homens apenas 37% o faz.
Participação e
utilização da Pt-net
Com esta análise
pretende-se dar a conhecer os hábitos e formas de participação dos membros da Pt-net,
de forma a proceder ao enquadramento dos processos de socialização que aí
decorrem.
Quadro 10:
Duração da participação em mailing lists
|
Duração |
% |
|
Há menos de 3 meses |
14 |
|
Entre 3 e 6 meses |
12 |
|
Entre 6 meses e 1 ano |
19 |
|
Desde há 1 ano |
4 |
|
Há mais de 1 ano |
51 |
|
Total |
100 |
De entre a população
da Pt-net, mais de metade já participa há mais de um ano, sendo 14%
aqueles que se encontram há menos de três meses. Através da recolha de dados
complementares, foi possível concluir que a Pt-net possui uma taxa de entrada
de novos membros de 23% e uma taxa de saídas de 21%, pelo que se trata de uma mailing
list com uma taxa de crescimento positiva.
Confirmando algumas
análises realizadas no ponto de "caracterização do acesso",
nomeadamente sobre o alargamento do número de utilizadores da Internet a
outras parcelas da população que não apenas as académicas, é possível afirmar
que 86% dos membros da Pt-net, com acesso a partir da universidade,
estão na lista há mais de um ano enquanto 71% daqueles que têm acesso a partir
de casa só são membros há menos de um ano. Uma análise a partir da situação
face ao trabalho e profissões leva-nos a conclusões idênticas, pois 91% dos
professores, 66% dos investigadores e 60% dos estudantes encontram-se na Pt-net
há mais de um ano, enquanto, por exemplo, 66% dos técnicos de informática, 80%
dos funcionários públicos e 58% dos gestores só são membros há menos de um ano.
Podemos assim concluir que se está a processar uma alteração do panorama da Pt-net
- a par da própria realidade da Internet -, sendo cada vez maior o
número de utilizadores que se encontra fora da comunidade académica.
Em termos de
nacionalidades, os portugueses são os que estão na Pt-net há mais tempo,
seguindo-se os moçambicanos e, por último, os brasileiros.
Numa análise por
sexos, parece existir um equilíbrio entre as datas de entrada para a lista por
parte de homens e mulheres, facto a que não deverá ser alheio o número de
mulheres que frequenta o ensino superior.
Quadro 11:
Tipos de funcionamento preferidos em mailing lists pelos membros da
Pt-net
|
Funcionamento |
Moderadas |
Não
moderadas |
NS /
NR |
Total |
|
% |
41 |
46 |
13 |
100 |
Quanto aos modelos
de funcionamento e gestão de mailing list, os membros da Pt-net
preferem as listas não moderadas às moderadas, respectivamente 46% contra 41%.
A pequena diferença percentual entre as duas opções pode eventualmente ser explicada
se tivermos em atenção as respostas dadas nos questionários por alguns membros,
os quais referiam preferir listas moderadas para temas especializados e listas
não moderadas para temas de carácter geral - como é o caso da abordagem na Pt-net.
Outra questão a ser
levada em conta para esta discussão é o facto de quem acede a partir de casa
preferir listas moderadas - 50%. Tal situação poderá ficar a dever-se ao facto
de o utilizador ter de suportar os custos da ligação e como tal lhe interessar
receber mensagens com os conteúdos que espera e sempre que possível não pagar o
"lixo" que chega à sua caixa de correio.
Entre os membros da Pt-net
a taxa de participação activa é de 24,45%, sendo o número médio de
participantes diários activos de 17. Isto é, apenas um quarto do total
da população envia "posts" para divulgação na lista, os restantes
limitam-se a ler as mensagens trocadas e as discussões tidas. Esta tendência só
tende a sofrer alterações quando algo de muito grave ocorre e perturba o normal
funcionamento da lista atingindo assim directamente todos os membros. Um
exemplo é o envio exagerado de mensagens de erro, repetidas ou sem interesse
que ao encher as caixas de correio de alguns utilizadores provoca a sua
intervenção activa com o intuito de "repor a normalidade". Passada
essa situação os utilizadores, em geral, remetem-se de novo a uma
posição de maior passividade.
Quadro 12:
Frequência de posts na mailing list
|
Frequência |
% |
|
Todos os dias |
7 |
|
Entre 6 e 4 vezes / semana |
10 |
|
Entre 2 a 4 vezes / semana |
20 |
|
Menos de 2 vezes /semana |
28 |
|
Entre 1 e 0 vezes / semana |
35 |
|
Total |
100 |
De entre os que
habitualmente participam, a maioria - 63% - coloca posts, para
divulgação através da lista, menos de duas vezes por semana. Uma percentagem
não estimada chega por vezes a não enviar nenhum durante uma ou mais semanas. Apenas
17% envia posts mais de quatro vezes por semana.
Pelos dados
disponibilizados, parece não existir relação directa entre a antiguidade e a
participação mais activa, pois tanto os que pertencem à Pt-net há mais
de um ano como aqueles que apenas lá estão há menos de três meses possuem uma
distribuição de frequência de envio de posts semelhante. Também a
profissão parece não influenciar o grau de participação dos membros.
A frequência de
envio de posts parece ser, antes de mais nada, determinada pelo
interesse dos temas em discussão e por motivos da própria personalidade dos
participantes, variando assim em função das suas capacidades comunicativas.
Quadro 13:
Tipo de post colocado na Pt-net
|
Tipo
de post |
Privados |
Públicos |
NS /
NR |
Total |
|
% |
38 |
59 |
3 |
100 |
Os posts
enviados para a Pt-net por parte dos seus membros são na sua maioria
públicos - 59% - mas a verificação de que existem 38% de utilizadores que
comunicam com outros membros maioritariamente por via privada merece ser
analisada. Isto porque não só reafirma a necessidade da existência de espaços
privados, para além do espaço público que é a Pt-net, como também
ilustra de forma exemplar a criação de relações sociais de carácter privado a
partir da interacção num espaço público.
Uma outra questão
relacionada com a participação e utilização da Pt-net é o facto de cada
membro não limitar a sua participação a um número pré-estipulado de posts,
pelo que um mesmo membro pode enviar uma ou duas dezenas de mensagens enquanto
que outro pode se limitar a enviar apenas uma.
A análise relacional
entre o número de membros e número de mensagens é importante para que se possa
efectivamente apurar qual a vitalidade do funcionamento da lista pois, na
maioria das situações, a um aumento do número de mensagens trocadas corresponde
um aumento dos temas abordados e, consequentemente, um maior número de
intervenientes nas discussões em curso.
Em termos de média,
a Pt-net durante o período de seis meses em análise deu origem a cerca
de 30 mensagens diárias, o que no total do período corresponderia a uma média
de 11 mensagens por participante. A média de discussões em curso entre os
membros da Pt-net foi de 13 tendo uma duração média de 4 dias.
Outra das análises
realizada, e que nos permite apurar, não só da vitalidade do funcionamento da
lista, mas também do grau de interacção social que se gera entre os seus
membros, é o tipo de mensagens trocadas na Pt-net.
As mensagens foram
analisadas com base na terminologia e método exposto por Sproull e Faraj no seu
trabalho intitulado Athaeism, Sex and Databases . Por forma a tornar a
terminologia mais abrangente foram ainda incorporadas duas outras
classificações às três já existentes.
Assim, por mensagens
solo pretende-se referir as mensagens enviadas que não deram origem a
qualquer resposta pública, por mensagens semente referimo-nos às
mensagens que geram respostas criando um "thread" ou discussão do seu
conteúdo, mensagens resposta são aquelas que são originadas pelas mensagens
semente. A este núcleo juntam-se ainda as mensagens colectivas as
quais não têm um intuito de obter resposta mas simplesmente divulgar algo como
poesia, notícias, etc; e as mensagens de erro que resultam do uso
inadvertido de comandos, de mail-bombing ou mesmo de avaria do sistema
de distribuição da lista.
Quadro 14:
Tipos de mensagens trocadas na Pt-net
|
Tipos de mensagens |
% |
|
Mensagens solo |
17 |
|
Mensagens semente |
15 |
|
Mensagens resposta |
63 |
|
Mensagens colectivas |
3 |
|
Mensagens erro |
2 |
|
Total |
100 |
Como se pode
verificar, o grande volume de mensagens trocadas são mensagens de resposta -
63% -, sendo as mensagens semente que as originam apenas 15%. Para possibilitar
uma análise que permita assegurar se o grau de interacção social na lista é ou
não elevado, recorreu-se à realização de uma análise comparativa com uma lista
de carácter semelhante - generalista e dedicada a temas relacionados com um
povo ou língua - a soc.culture.lebanon. Esta lista foi previamente estudada por
Sproull e Faraj o que possibilitou à disponibilização de informação já
classificada e um bom ponto de partida para a análise.
A
soc.culture.lebanon possui uma percentagem maior de mensagens solo do que a Pt-net
- respectivamente 30% contra 17% - o que releva a análise para o carácter de
maior coesão social da própria Pt-net. Pois, mesmo que considerássemos
as mensagens colectivas e de erro enquanto mensagens solo, obteríamos apenas
22% contra os 30% da soc.culture.lebanon.
É assim possível
entrever o grau de entre-ajuda entre os membros. A existência de um número
diminuto de pedidos de ajuda e de informação que fiquem sem resposta na Pt-net
fica provavelmente a dever-se a um elevado grau de entre-ajuda existente.
Outro facto a
constatar é o de que embora o número de mensagens semente da Pt-net seja
inferior ao da soc.culture.lebanon - 14% contra 18% - o número de mensagens
resposta na Pt-net é superior - 62% contra 50%. Esta situação, associada
ao facto de o número de membros da soc.culture.lebanon ser de 13000 contra os
400 da Pt-net e de o número de mensagens trocadas naquele ser em média 8
e na Pt-net 30, leva-nos a concluir ser o grau de interacção social na Pt-net
bastante elevado. Mas devemos também tomar em conta que a disparidade de
resultados entre a Pt-net e a soc.culture.lebanon pode também ficar a
dever-se ao facto de esta última ser um grupo da Usenet e como tal não
possuir algo semelhante a uma formalização da adesão e boas vindas aos novos
membros - como na Pt-net acontece por via do envio do prontuário ético.
Conteúdos das
mensagens trocadas na Pt-net
A análise de
conteúdos das mensagens trocadas na Pt-net tem, para esta investigação,
dois tipos diferenciados de objectivos. Por um lado, determinar qual o grau de
interdependência entre a interacção praticada no mundo "real" e a
interacção social ocorrida no ciberespaço, mais concretamente na Pt-net.
Por outro lado, pretende traçar um mapa das diferentes questões abordadas de
forma a permitir um melhor conhecimento do funcionamento da lista e dos
processos em que decorre a interacção e socialização dos seus membros.
Quadro 15:
Origem dos conteúdos da Pt-net
|
Origem |
Interna |
Externa |
Total |
|
% |
32 |
68 |
100 |
As mensagens
trocadas na Pt-net apresentam em média uma dimensão de 40 linhas de
texto. Dessas em média 63% são linhas
novas produto da contribuição do próprio utilizador que envia a
mensagem para a lista, sendo o restante citações de mensagens anteriores. Quanto
ao número de mensagens que incluí citações ele atinge 55% do total das
mensagens trocadas. Estes valores, quando comparados com outras listas,
encontram-se na média das observações registadas.
A maioria das
mensagens trocadas - 68% - aborda a discussão de temas com origem em outros
espaços de interacção social que não a Pt-net.
Quadro 16:
Origem dos conteúdos internos
|
Conteúdos internos |
% |
|
Attached files |
2 |
|
Acentos e pontuação |
4 |
|
Erros e mensagens vazias |
4 |
|
Spammers e chain letters |
2 |
|
Assinaturas |
2 |
|
Opiniões sobre os membros |
37 |
|
Regras de convivência |
7 |
|
Número de mensagens membro |
3 |
|
Pedidos de ajuda |
14 |
|
Boas vindas e despedida |
12 |
|
Mensagens de agressão |
3 |
|
Opiniões sobre a rede |
3 |
|
Opiniões sobre a comunidade |
8 |
|
Total |
100 |
Embora só 32%
abordem questões cuja origem remete para o próprio funcionamento da lista, o
valor atingido é já por si só um indicador importante pois traduz-se em mais um
indício da existência de um espirito de pertença por parte dos seus membros.
Como se pode
verificar os cinco temas mais abordados nas mensagens trocadas e cujos
conteúdos foram classificados como internos são: opiniões sobre membros - 36% ;
pedidos de ajuda - 14%; boas vindas e mensagens de despedida - 12%; opiniões
sobre a comunidade - 8% - e regras de convivência na Pt-net - 7%.
São assim conteúdos que abordam essencialmente temas cuja origem está nas
sociabilidades adquiridas durante a sua permanência na Pt-net e também
nas regras que permitem a continuação da interacção social nesse espaço.
Gráfico 17:
Origem dos conteúdos externos
|
Conteúdos externos |
% |
|
Religião |
3 |
|
Desporto |
4 |
|
Política nacional portuguesa |
26 |
|
Política internacional |
6 |
|
Software, computadores e redes |
8 |
|
Cultura, autores e obras |
7 |
|
Ecologia e ambiente |
2 |
|
Moçambique |
0 |
|
Brasil |
4 |
|
Diversão, adivinhas e anedotas |
7 |
|
Direitos humanos |
3 |
|
Educação e ensino |
3 |
|
Notícias e informação |
3 |
|
Ciência e investigação |
5 |
|
Linguagem, gramática e fonética |
3 |
|
História de Portugal |
3 |
|
Convívio e sociedade |
7 |
|
Sexo, género e família |
2 |
|
Culinária e tradições |
2 |
|
Publicidade, marketing e soc. de consumo |
1 |
|
Total |
100 |
Como se pode
observar a politica portuguesa é o tema mais vezes abordado entre os membros da
Pt-net - 26%-, seguindo-se os temas relacionados com a informática -
8%-, as questões culturais e os temas de diversão - 7%.
A análise do valor
percentual atingido pelas mensagens cujo conteúdo tem origem no exterior da Pt-net
é também uma indicação da forma como as interacções sociais que se desenrolam
no ciberespaço sofrem também influências de ambientes externos.
Motivações e
opiniões dos utilizadores
Da análise dos dados
obtidos quanto à opinião dos membros da Pt-net sobre o aspecto que mais
lhes agrada na sua participação, é de salientar que as opções que refletem uma
busca desinteressada de informação e que indicam como objectivo principal o
convívio, representam 58% do total das escolhas.
Quadro 18:
Objectivo da participação em mailing lists
|
Objectivo |
% |
|
Discutir temas de particular interesse |
30 |
|
Discutir diversos temas |
35 |
|
Pessoas e amizades |
8 |
|
Espaço alternativo |
15 |
|
Todas |
10 |
|
Outras |
2 |
|
Total |
100 |
Assim a
"possibilidade de participar na discussão dos mais diversos temas"
recolhe 35% das preferências; "conhecer pessoas de outros locais e criar
amizades" obtem 8% e por fim a "criação de um espaço
alternativo de convívio e entre - ajuda " 15%.
Em sentido contrário
a procura de informação sem outros objectivos associados recolhe uma menor
parcela das escolhas, pois a opção "prazer da troca de opiniões nos
assuntos de particular interesse" obtém apenas 30%.
Desta análise
pode-se concluir ser a adesão à Pt-net mais motivada pelo intuito de
realizar interacção social do que com o intuito de obter informação. Sendo a
obtenção de informação algo que decorre naturalmente do encontro e interacção
com outros actores sociais.
Quanto à influência
que o tempo de permanência na Pt-net poderá ter na formação da opinião
dos membros sobre o que os motiva mais, parece não existir relação clara entre
as duas questões. Parecem, pois, reger-se mais por objectivos pré-determinados
e pela manutenção dos objectivos iniciais que presidiram à motivação para a sua
adesão.
A reter é também o
facto de as motivações diferirem quando a população é analisada em função das
nacionalidades. Assim se os portugueses optam em maior número - 38,5%- pela
"possibilidade de participar na discussão dos mais diversos temas",
já os brasileiros referem quase na sua maioria - 50%- " conhecer pessoas
de outros locais e criar amizades". Estas opções diferenciadas permitem
entrever a possibilidade da Pt-net funcionar para os membros brasileiros
tal como se a sua presença virtual se assemelhasse a uma deslocação em viagem a
um qualquer país. Assemelhando-se a sua atitude face à Pt-net à atitude
que normalmente um turista poderá desenvolver face a um destino turístico em
que o objectivo seja a realização de amizades e onde se procura conhecer os
usos e costumes locais. Pelo contrário para os portugueses, que estiveram na
sua origem, a Pt-net é encarada como um espaço de convívio onde
ocasionalmente surgem pessoas de outros locais. Estamos assim, novamente,
perante uma constatação da influência que os comportamentos e valores
adquiridos a priori no mundo físico ou "real" têm na construção das
interacções sociais no ciberespaço.
Quadro 19: "Mailing
list é pertença de todos os seus membros, logo todos devem participar colocando
posts para que a lista se mantenha activa".
|
Concordo |
Discordo |
NS /
NR |
Outras |
Total |
|
66 |
29 |
3 |
2 |
100 |
O objectivo da
colocação desta questão foi o de determinar o grau de interiorização de cada
membro face à possibilidade de a Pt-net ser entendida não apenas
enquanto uma lista de discussão mas também como uma comunidade, ou seja,
salientando a necessidade do contributo de todos para a manutenção de um bem
que se supõe colectivo.
Como se pode
verificar, a opção recaiu maioritariamente - 66%- sobre a perspectiva
afirmativa. As respostas discordantes devem ser entendidas através das
explicações apresentadas por alguns dos seus membros e que referem que "só
deverá participar quando houver algo de interessante para dizer", ou ainda
que "se concorda que todos podem participar mas que discorda se todos o
devem fazer". Devemos ainda tomar atenção ao facto de 75% dos que afirmam
discordar se encontrarem na lista há mais de um ano. Estamos assim perante uma
tomada de posição por parte dos membros da lista mais baseada no cumprimento
das regras estabelecidas do que perante uma discordância quanto ao facto de a Pt-net
poder ser ou não considerada uma comunidade.
Desta análise
podemos concluir da existência de um elevado sentido de pertença relativamente
à Pt-net, pois mesmo quando são salientadas posições de discordância
quanto á participação de todos, a justificação invocada refere a protecção do
bem estar de todos os seus membros e não qualquer outra razão. Pode-se
assim verificar existir um consenso na classificação da Pt-net enquanto
uma comunidade.
O comportamento
esperado face aos novos utilizadores é outro dos indicadores que nos permite
verificar da maior ou menor percepção, por parte dos membros, de um conjunto de
regras que embora não se encontrem escritas, podem, no entanto, ser inferidas e
utilizadas como reguladoras dos processos de interacção social.
Quadro 20:
Comportamento esperado dos novos utilizadores da Pt-net
|
Comportamento |
% |
|
Fazer apresentação / começar |
26 |
|
Fazer apresentação / observar |
61 |
|
Não fazer apresentação / começar |
1 |
|
Não fazer apresentação / observar |
12 |
|
Total |
100 |
Uma larga maioria -
97%- acha que os novos membros devem realizar uma apresentação aos membros da
lista, afirmando 61% a necessidade dos mais novos não começarem de imediato a
participar socorrendo-se da observação dos mais experientes antes de iniciar
uma participação plena na lista.
Se analisarmos a
distribuição dos resultados pelo tempo de permanência na lista verificamos que
em todas as categorias existe uma escolha maioritária da opção "fazer
apresentação e observar". Apenas entre os membros há menos de 3 meses na
lista existe uma distribuição igual entre a opção "fazer apresentação e
começar a participar" e "fazer apresentação e observar", pelo
que podemos inferir da existência de um elevado grau de socialização dos novos
membros. Também a distribuição de opiniões face às diversas origens
profissionais dos membros, parece reflectir esse elevado grau de
socialização, não apresentando variações significativas face aos dados obtidos.
Pelo que parece ser possível inferir que os códigos que regem as relações
dentro da lista se sobrepõem a qualquer outra aprendizagem realizada no mundo
"real".
Os resultados
apurados são pois bastante expressivos quanto à percepção de regras informais
por parte dos utilizadores e à sua aplicação por parte destes.
Outra das questões
colocadas aos membros da Pt-net foi a da importância ou não da alteração
do meio escrito actualmemte utilizado para um outro onde a imagem dos
utilizadores fosse igualmente difundida junto com o texto.
A resposta a esta
questão é importante na medida em que nos permite perceber se o relativo
anonimato associado a este meio de comunicação desempenha ou não um papel
central na modelação das próprias relações sociais.
Quadro 21:
Utilização de imagem junto com E-mail
|
Utilização |
Sim |
Não |
NS /
NR |
Outras |
Total |
|
% |
35 |
52 |
9 |
4 |
100 |
Da observação dos
resultados e das entrevistas realizadas podemos afirmar que o anonimato é um
factor considerado essencial por muitos -52%- na utilização deste meio. O que é
confirmado pela distribuição de resultados quando se procede à análise por
plataforma utilizada, pois mesmo aqueles para quem tal opção seria tecnicamente
viável a recusam.
No entanto um número
ainda bastante significativo -35%- parece ver com agrado a introdução de imagem
de forma a que se possa associar um rosto às ideias discutidas por um dado
membro. Essa necessidade é certamente fruto do facto de no mundo
"real" a interacção entre indivíduos estar muito associada à presença
do corpo, pelo que é natural que de futuro sejamos confrontados com sistemas
que permitam juntar a imagem ao texto. No entanto, é possível antever que dado
existir o entendimento da necessidade de preservar o anonimato e a privacidade
nos meios electrónicos, aquela tenderá a ser mantida através da introdução de
mecanismos como os de imagens virtuais, podendo assim o utilizador optar entre
diversas personagens à sua disposição.
O anonimato parece
ser assim considerado como uma das vantagens associadas a este meio de
comunicação, o que espelha o seu contributo para a formação dos tipos de
interacção que ocorrem no ciberespaço.
Outra das áreas de
interesse para o investigador social que se debruça sobre a realidade do
ciberespaço é a da organização política, existindo um interesse em conhecer
como aqueles processos se desenvolvem em listas como a Pt-net.
Ao questionar os
membros sobre se devem ou não existir sanções, tem-se como objectivo detectar o
surgimento, ou não, da necessidade de formalização de regras de punição dentro
de uma lista como a Pt-net - tentando, assim, encontrar sinais claros
daquilo a que Richard Mackinnon chama sinais de Leviathan , baseando-se
no princípio explicitado por Hobbes de que o medo da morte ou das feridas
dispõe o homem à obediência a um poder comum. No caso da Pt-net
as respostas aos medos, ou sinais de Leviathan, podem ser inferidas
através da maior ou menor vontade por parte dos membros de introduzir uma maior
moderação da participação ou da imposição de sanções face a comportamentos
entendidos como desviantes.
Quadro 22:
Existência de sanções aplicadas aos transgressores na Pt-net
|
Sanções |
Sim |
Não |
Em
alguns casos |
NS /
NR |
Total |
|
% |
59 |
11 |
26 |
4 |
100 |
Como se pode
verificar, 59% dos inquiridos são favoráveis à aplicação de sanções como meio
de pôr fim aos prejuízos que os transgressores provocam.
Esses prejuízos
podem ser vistos segundo uma dupla óptica, a dos utilizadores individuais e da Pt-net
enquanto um todo. Isto porque as transgressões atingem os utilizadores enquanto
indivíduos isolados, uma vez que os que acedem a partir de casa suportam
directamente os custos referentes às mensagens enviadas em excesso para a lista
mas também prejudicam o próprio funcionamento da lista, uma vez que impedem a
normal comunicação.
A necessidade de
existência de sanções é assim uma preocupação partilhada por todos os membros
da Pt-net, independentemente do seu ponto de acesso se localizar em casa
ou na universidade pois as leituras da distribuição por pontos de acesso
confirmaram a opção, maioritária, pela aplicação de sanções aos transgressores.
É assim possível
afirmar que as interacções sociais na Pt-net manifestam os primeiros
embriões de uma maior formalização de uma estrutura política que reflicta
direitos e deveres dos seus membros.
As novas relações
sociais no ciberespaço. Pistas para reflexões futuras.
O facto de o
ciberespaço ser ainda um meio de comunicação e participação relativamente novo
trouxe a uma pesquisa deste género acrescidas dificuldades, no entanto foi
possível, através da observação dos actores sociais que se movimentam neste
novo espaço, traçar uma série de primeiras conclusões que permitirão a futuras
pesquisas comprovar a sua exactidão ou proceder a eventuais reformulações.
À procura de
socialização e informação. As comunidades virtuais existem.
Se tivermos presente
a definição de comunidade apresentada por Anne Beamish, e ao mesmo tempo
olharmos para a caracterização efectuada, da Pt-net e dos seus membros, temos
sem dúvida de concordar que estamos
perante um grupo social não sujeito a padrões de dimensão específicos, em cuja
base de formação está a partilha de interesses comuns, de tipo social,
profissional, ocupacional ou religioso no qual não se procura apenas
informação, mas também pertença, apoio e afirmação. Assim e apesar daquilo que
o seu nome pode indiciar, as Comunidades Virtuais existem. Nelas as interacções
sociais estão presentes, as sociabilidades ocorrem e os processos de
socialização são igualmente complexos.
Embora os dados
apurados na Pt-net não possam ser imediatamente generalizados à
totalidade dos campos do ciberespaço e aos seus respectivos utilizadores parece
no entanto ser possível presumir que um alargado número de pessoas não limita a
sua acção no ciberespaço à procura isolada de informação. O espaço virtual, ou
ciberespaço, assume-se assim enquanto novo campo de análise dos actores sociais
e das suas interacções.
A interdependência
entre espaço físico e ciberespaço.
Uma outra questão
implícita a qualquer estudo que tenha como objecto o Ciberespaço e a
Comunicação é saber até que ponto as novas relações sociais que ocorrem no
Ciberespaço sofrem influências e influenciam também o espaço físico ou
"real" .
Os diversos dados recolhidos apontam para o facto de não estarmos perante dois
espaços estanques onde o que ocorre num não influencia o outro. A
interdependência deve pois ser entendida como existente, bastando para tal
lembrar que a maioria das questões abordadas na Pt-net tem
origem no exterior do ciberespaço e que no sentido inverso
podemos encontrar a realização de jantares e outros encontros informais entre
indivíduos que iniciaram o seu relacionamento social como membros da Pt-net.
As interacções
sociais que ocorrem no ciberespaço assumem contornos e características
diferentes daquelas que estamos habituados a presenciar no nosso dia a dia no
mundo "real" e, portanto, podem realmente ser designadas, como refere
David Lyon, por "Novas Relações Sociais". No entanto não representam uma
completa novidade, no sentido em que sofrem também influências da aprendizagem
social ocorrida no mundo "real". Baseado nos dados recolhidos penso
que teremos de concordar com David Lyon quando este afirma que as
"Novas" relações sociais podem estar a surgir apenas no sentido da
modificação, não no da mais completa novidade.
Estamos assim
perante uma nova noção de espaço, onde físico e virtual são mutuamente
influenciáveis, proporcionando um campo fértil para a emergência de novas
formas de socialização, de modos de vida e de organização social.
Mestre em
Sociologia, Docente do Departamento de Ciências e Tecnologias da Informação do
ISCTE
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